Você, falante nativo da nossa língua portuguesa, deve gostar de algumas palavras mais do que de outras. Há termos horríveis como “fronha”. Para dizer, quase se faz uma careta. Você sabe identificar quais as palavras das quais não gosta?
Há, em oposição à fronha, palavras que são engraçadas em si. O som atrai, o significado seduz, a pronúncia diverte: este é o maravilhoso mundo dos vocábulos magnéticos. Impossível “desler” alguma quando vemos escritas. O ouvido fica atento quando as ouvimos. Elas atraem o ferro da atenção. Musicalidade com certa graça. Exemplos?
Você chegou na festa e só te deram um sanduíche “xexelento”? O som já diz tudo: era XEXELENTO. Mesmo um estrangeiro verá sua cara ao pronunciar essa palavra e concluirá: comida ruim, ainda que não domine português. A festa em si estava meio “chinfrim”. Lá só encontramos um bando de “lambisgoias” e “tribufus”. Pior, gente com “inhaca” forte, insuportável. Você quase teve um “faniquito” de tanta “ziquizira”. Não querendo causar um “quiproquó” nem ser tido por “songamonga”, você ficou recolhido aos seus pensamentos.

Imagem ilustrativa de nuvem de palavras magnéticas para a coluna de Leandro Karnal em 15 de fevereiro de 2026. Foto: Imagem gerada por IA
Primeiro: as palavras são magnéticas porque são um pouco menos usadas. Algumas são antigas. Sua avó deveria ter encontrado mais “lambisgoias” do que você. Termo arcaico quase, porém com som que traduz o conteúdo até hoje. Outras surgem em traje formal. “Quiproquó” vem do latim, de trocar “algo por outra coisa”, e foi usada por Erasmo de Roterdã para falar de uma prática farmacêutica de substituição de ingredientes. O termo acabou designando confusão também ou até um acordo benéfico a ambas as partes. Já foi usado até para assédio em ambiente de trabalho em que uma parte oferece favores físicos em troca de benefícios profissionais. Palavras magnéticas, mas, igualmente, bem abertas, servindo a muitos fins.
A língua é uma máquina de neologismos, mudanças de sentido, adaptações e alteração de regras clássicas. As falas anglo-saxãs foram perdendo declinações na boca do povo e originaram o inglês. O português foi criando formas sintéticas, aplainando regências, reduzindo ortografias. Como eu já disse nestas páginas, Padre Vieira seria reprovado no Enem de 2026. As palavras amam a rua e a feira, a negociação viva e o namoro com onomatopeias. Elas vivem nas bocas moventes e resistem ao registro formal.
A vitalidade da língua está no processo de alterar regras canônicas. A gramática é sempre a lápide ou o museu, a calcificação; jamais o berçário da expressão oral e escrita.
Preciso explicar-me. Amo a gramática e tento estudá-la. Nunca a dominei por completo. Na semana passada, estava passando toda a tarde de sábado estudando solecismos, nome genérico para erros de sintaxe. Amo as regras formais da língua, porém, amo ainda mais a língua em si. Lembrei-me de uma frase atribuída a Aristóteles. Ele foi acusado de se desviar dos conceitos do seu mestre Platão. O jovem de Estagira teria dito: “Amo Platão, porém, amo ainda mais a verdade”. Adorei aprender sobre solecismos, mas, quando vejo surgir um a minha frente, fico imaginando como ele foi concebido e como o uso transformará aquele desvio em norma no futuro.
Vamos ser claros: você e eu aprendemos que nunca se começa um discurso ou um parágrafo com um pronome oblíquo. A próclise, colocando o pronome antes do verbo, possui regras claras. Porém, imagine-se em enlevo amoroso com sua amada ou amado. Embalados por uma luz de velas e inebriados por um vinho especial, seu amante sussurra no ouvido a frase correta: “Amo-te” ou “Amo-lhe”. Brochada absoluta e imediata! Aliás, brochar é também palavra magnética de amplo espectro além do turgor sexual.
Sigamos pela brochada. A língua comporta até contradições bizarras como nosso quase primeiro-ministro Brochado da Rocha. O nome desse político parece encarnar as contradições belíssimas das expressões lusófonas como aquela que você, anfitrião, pede que seu convidado se quede um pouco mais: “Fica, vai”. Ficar e ir são termos opostos que combinados na mesma frase produzem um sentido que é exclusivo para a poesia da língua. Fica vira um quase imperativo afetivo, vai refere-se a que você desconsidere a decisão de abandonar minha casa. Complementam-se no coração e ficam em oposição no cérebro. Admiro regras, mas sou seduzido pelos usos linguísticos ricos e orgânicos de cada falante da última flor do Lácio.
Minha funcionária Rose usa o verbo “coisar”. Adoro. Palavra de signo amplo: que vai de funcionar até a objetos dos quais perdemos o termo exato. Funciona na chave anafórica da linguagem: um termo substitui outro. Pode ser sexual (o casal de cima estava “coisando”), até uma cutícula incômoda que “coisa” meu dedo. Quando Guimarães Rosa faz isso, é um gênio… Outros mortais como nós tornamo-nos analfabetos incultos…
Brinco com Guimarães, que é um gênio de fato. Parte da genialidade é o pensamento culto ao extremo com linguagem de Minas e popular, recompondo o universo dentro de um código consciente. O brilhante médico de Cordisburgo (MG) pensava no devir permanente de tudo e escreveu: “O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando”. As pessoas e a língua não estão terminadas e isso me enche de alegria e de esperança.