EUA: Flávio Bolsonaro sugere sanções individuais em vez de tarifas; governo insiste em caminho institucional

jota logo

A coreografia política em torno do uso que as campanhas farão do provável novo tarifaço resultante da investigação comercial aberta pela administração de Donald Trump  contra o Brasil era clara. De um lado, em Washington, o pré-candidato à presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro, pedia em sua participação de alguns minutos na audiência pública da investigação aberta pelos EUA contra o Brasil a intervenção americana no processo eleitoral brasileiro. Disse com todas as letras que este seria o “pior momento” para a aplicação de tarifas contra o país, já que a medida poderia beneficiar a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em detrimento da sua.

O senador ainda sugeriu a aplicação de sanções a indivíduos, no lugar de taxas. A ideia causa arrepios ao mercado, ainda às voltas com mudanças que precisam fazer no conformidade para adaptar-se a um novo contexto em que duas facções do crime organizado brasileiro classificadas como grupos terroristas já desencadearam sanções contra pessoas físicas e jurídicas, podendo respingar em instituições financeiras.

Conheça o A QUEM PRO Eleições, cobertura eleitoral especial do A QUEM que oferece transparência e previsibilidade para empresas

Esse discurso em especial ecoa a pauta defendida pelo irmão do senador, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, e por Paulo Figueiredo. Os dois pedem que os EUA voltem a usar a Lei Magnitsky contra indivíduos no país. O senador também alardeou que foi à audiência defender os interesses do Brasil, o que o governo não teria feito por não ter enviado ninguém aos painéis setoriais.

De outro lado, o governo elegeu o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, como porta-voz de ações concretas sobre as negociações em curso com os americanos pelos trilhos institucionais. Era um dos principais negociadores de alto nível do país a relatar ter participado nesse mesmo dia de nova reunião em que se discutiram vários tópicos da relação, entre eles o do combate ao crime organizado.

Outro encontro, segundo Rosa, acontecerá na sequência, provavelmente ainda nesta semana, entre o chanceler, Mauro Vieira, e o representante de Comércio americano, Jamieson Greer. A estratégia é mostrar que a relação segue sendo tratada no mais alto nível, por canais diplomáticos, de igual para igual, para tentar reverter ou reduzir a penalidade em vista. E, de acordo com interlocutores ouvidos pelo A QUEMque o governo pretende esgotar o caminho do diálogo em busca dos interesses dos setores econômicos brasileiros, e não apenas de uma campanha.

Na audiência, empresas brasileiras e americanas defenderam a não aplicação de sobretaxas às exportações brasileiras. Aliás, ainda nesta terça-feira (7/7), a Câmara Americana de Comércio para o Brasil (AmCham) divulgou estudo que mostra que a participação dos EUA na pauta de exportações brasileiras caiu ao seu nível mais baixo da série histórica, iniciada em 1997. Ela representa hoje uma fatia de 9,4% do total, quando já foi de mais de um terço do total. Neste ano, os itens sobretaxados registraram uma queda de 16,6% do volume exportado. Até os não penalizados caíram 8,7%.

Em nota, a Secretaria de Comunicação da Presidência afirmou que “entre os 34 brasileiros inscritos, só Flávio Bolsonaro não se posicionou contrário às medidas contra o Brasil, optando por sugerir o seu adiamento, com claro objetivo eleitoreiro”.

Ao todo, diz o documento, 78 entidades e pessoas físicas se inscreveram para se manifestar sobre o tarifaço na audiência. Desse total (somando brasileiros e norte-americanos), 63 são contra o tarifaço e 15 são a favor. Das 44 intervenções de norte-americanos, 30 são contra o tarifaço e 14 a favor.

A nota segue destacando que, em vez de rebater “as alegações infundadas do governo norte-americano para taxar o Brasil, o senador optou por legitimar os resultados de uma investigação injusta contra empresários e trabalhadores.

Na nota dura, mirando o cenário eleitoral, o governo ainda explorou a ligação de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro no caso Master, que o senador citou durante a audiência.

Inscreva-se no canal de notícias do A QUEM no WhatsApp e fique por dentro das principais discussões do país!

“Ao citar o caso Master, maior esquema de corrupção da história do país, omitiu sua origem vinculada ao governo de Jair Bolsonaro. Também esqueceu de mencionar seus próprios vínculos com Daniel Vorcaro, para quem pediu mais de R$ 130 milhões para, segundo ele alega, produzir um filme sobre o seu pai”.

Na nota, o Palácio do Planalto também voltou a falar em traição. “Divergir do governo é legítimo. Convocar uma potência estrangeira a pressionar o próprio país é traição à Pátria. Há uma diferença essencial entre fazer oposição ao governo e fazer oposição ao país e ao povo brasileiro”, diz.

Esta é a quarta passagem de Flávio Bolsonaro pelos EUA, onde apareceu em fotos ao lado do irmão, que tem sido responsabilizado pelo tarifaço de 50% imposto por Trump ao Brasil há exatamente um ano. A orientação era que Flávio deixasse claro que não queria apenas o adiamento das tarifas, como havia dito ao governo americano em carta enviada na semana passada, que pegou mal no meio produtivo e até dentro de sua campanha.

Mas, segundo interlocutores dos meios econômico e político, sua intervenção na audiência pública não desfez o que queria mostrar ter sido um mal entendido.

No governo, fontes afirmaram que ficou claro que o candidato voltou aos EUA para pedir uma “boia de salvação para a sua campanha”, ao participar de evento destinado a representantes do setor privado e da sociedade civil. A avaliação é a de que o senador estava ali para beneficiar a si próprio e ao clã, sem entrar no mérito da substância. Essa era uma preocupação do seu entorno. Uma ala dos bolsonaristas, no entanto, defende que tê-lo dizendo ser contrário ao tarifaço poderia minimizar os danos do que está por vir — e poderia até render-lhe frutos, caso o percentual seja menor do que o esperado.

Dentro do governo, a foto de Flávio junto do irmão só reforça a imagem que a campanha pretende explorar daqui até outubro: a de que a família Bolsonaro está por trás do tarifaço. E não só: parte do plano está em dizer que, quando o senador oferece um Brasil diferente para os EUA em uma eventual vitória sua, significa conceder a Washington um cheque em branco sem qualquer garantia de ganhos econômicos para o país ou de defesa da sua soberania.

Inscreva-se no canal do A QUEM no Telegram e acompanhe as principais notícias, artigos e análises!

Resta saber qual narrativa ganhará mais pontos junto ao eleitorado. A responsabilidade pela tentativa de interferência de Donald Trump no Brasil não recai, aos olhos da opinião pública, exclusivamente sobre o pré-candidato do PL. Levantamento da Indexa Pesquisa realizado no mês passado mostra que a percepção dos brasileiros está dividida: 20% atribuem a responsabilidade ao presidente Lula, outros 20% ao próprio Donald Trump e 15% a Flávio Bolsonaro.

A pesquisa revela que essa percepção é fortemente influenciada pela identidade política dos entrevistados. Entre os eleitores de Jair Bolsonaro (PL) em 2022, apenas 2% apontam Flávio como o principal responsável pela atuação de Trump. Nesse grupo, prevalece a avaliação de que a responsabilidade é de Lula ou do próprio presidente americano. Já entre os eleitores de Lula, 31% responsabilizam o senador do PL, enquanto 24% atribuem a iniciativa a Trump.

Ou seja, os resultados do estudo mostram que a disputa pela narrativa está longe de estar resolvida. A estratégia de associar Flávio Bolsonaro diretamente à atuação de Trump encontra limites na opinião pública.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Notícias Recentes