O Brasil finalmente virou país rico? Entenda o IDH muito alto

O Brasil finalmente virou país rico? Entenda o IDH muito alto

Na semana passada, muito se falou sobre o IDHM recorde e a entrada do Brasil no grupo de países com desenvolvimento humano muito alto (acima de 0,8). Alguns pontos merecem ser explicados:

  • Afinal, o que é o IDH?
  • No que o IDHM se difere do IDH?
  • O recorde é esperado?
  • Quais são os países que estão subindo junto com o Brasil?

O que é IDH? É um indicador desenvolvido pela ONU para medir o grau de desenvolvimento humano baseado em três dimensões: longevidade, escolaridade e renda. Sua atratividade está no fato de ser um índice muito simples. Mas o que foi divulgado não é o IDH, mas sim o IDHM. Não são a mesma coisa? Não, há diferenças no cálculo que explicarei mais adiante – mas, de antemão, percebam no gráfico que eles não são intercambiáveis.

Antes de nos mostrar a metodologia: o fato de ter atingido um valor recorde é esperado? Definitivamente sim! Em anos normais (sem recessão, sem pandemia), é esperado que o IDH e o IDHM cresçam e atinjam máximos históricos ano após ano, como o gráfico anterior mostrou.

Aqui está o panorama mais recente (2023) do IDH no mundo (não é possível fazer um comparativo de IDHM dos países, já que poucos se valem desta metodologia).

E estes são os países com IDH próximo ao do Brasil.

Estes países estão prestes a entrar no grupo com IDH muito alto (>0,8), o mesmo de Noruega e Suíça (pode não acontecer necessariamente em 2024 para todos eles, mas certamente será num futuro próximo). Isto pode parecer estranho e até contraditório para nós, já que nos acostumamos a nos considerar um país em desenvolvimento. Mesmo após entrarmos no mesmo grupo da Noruega, nosso índice ainda será muito mais próximo ao da Nicarágua ou da Índia. Por isto, agora cabe enfatizar os índices (que são uma variável contínua) e não o grupo de IDH (variável categórica).

Por dentro da Metodologia

Para entender por que o IDHM apresenta valores diferentes, precisamos olhar para as fórmulas.

O componente longevidade é calculado da seguinte maneira:

Foto: Reprodução

No IDH, a idade mínima a ser incluída na fórmula é 20 anos. Já no IDHM, é 25 anos. Notem que o denominador no IDHM é menor, portanto, este componente tende a ser levemente maior que do IDH.

Já no índice de educação está a maior diferença de metodologias. Enquanto o IDH considera uma média entre os índices de anos efetivos e esperados de instrução, o IDHM considera o fluxo (taxa de escolarização de jovens em diferentes faixas etárias).

Foto: Reprodução

O índice de renda é medido pela seguinte fórmula (idêntica para IDH e IDHM):

Foto: Reprodução

O que diferencia ambos é a renda máxima: no IDH, é considerado US$ 75.000 em paridade de poder compra (PPC). Já no IDHM, é o valor da menor renda per capita para o percentil entre os 10% mais ricos (=percentil 90) residentes no Distrito Federal (por ser a UF com maior renda média do país. Já a renda mínima é idêntica em ambos: US$ 100 (PPC). Diferente dos componentes escolaridade e longevidade, aqui houve uma opção dos criadores do índice em usar o logaritmo natural – devido à utilidade marginal decrescente da renda (em valores altos, acréscimos à renda têm menos impacto que mais anos de escolaridade ou de longevidade).

O índice final é óbito via multiplicação dos 3 componentes (média geométrica).

Para ilustrar, aqui está a série histórica dos componentes do IDHM. Percebam o impacto que a recessão gerou no IDHM Renda e o impacto da pandemia nos três componentes simultaneamente:

O IDHM, além de gerar o índice para cada município, pode gerar também o indicador em nível estadual e federal: basta fazer uma média ponderada.

No gráfico acima vemos as diferenças regionais de IDHM: enquanto os estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste (com exceção do Mato Grosso do Sul) estão no grupo do IDHM muito alto, os demais estão na categoria abaixo (IDH alto).

Movimentação no centro de São Paulo; IDH é um indicador desenvolvido pela ONU para medir o grau de desenvolvimento humano baseado em três dimensões: longevidade, escolaridade e renda. Foto: Hélvio Romero/Estadão

Obviamente o governo está se promovendo com o novo patamar do IDHM do Brasil – e não há nada de errado quanto a isto. Comemorar é válido, mas temos que manter os pés no chão. Superando a barreira de 0,800 é, antes de tudo, o resultado inevitável da trajetória histórica de crescimento (atrasada em 2 anos pela pandemia).

Mudar de categoria no papel e entrar no grupo de “desenvolvimento humano muito alto” não nos transforma subitamente em uma Noruega ou Suíça. A vida real não dá saltos baseados em números redondos e linhas de corte arbitrárias. O desenvolvimento é uma variável contínua, uma maratona de longo prazo. Estamos no caminho certo, mas para chegar a um padrão de vida verdadeiramente de primeiro mundo ainda há um longo trecho a percorrer.

Adendo: diferente do índice Gini, no qual o índice 1 é utópico (igualdade absoluta), um IDH 1,0 é verossímil – basta o país ter uma expectativa de vida igual ou superior a 85 anos, mínimo de 18 anos de escolaridade média e renda per capita (ajustada por poder de compra) de US$ 75.000 ou mais. Pode ser que, num futuro não muito distante, alguns países cheguem a este índice máximo – momento a partir do qual uma nova escala se fará necessária.

Adendo 2: o IDH de 2024, ainda não disponível, deverá vir num valor recorde, mas talvez ainda não acima de 0,8. De qualquer maneira, ultrapassaremos este patamar muito em breve – basta não ocorrer nenhuma tragédia sanitária ou econômica.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Notícias Recentes