Mais que músculos: como ‘Mestres do Universo’ quer transformar He-Man em fenômeno além da nostalgia

Mais que músculos: como ‘Mestres do Universo’ quer transformar He-Man em fenômeno além da nostalgia

Astros de ‘Mestres do Universo’ falam sobre vulnerabilidade de He-Man e Teela

Nicholas Galitzine e Camila Mendes estiveram no Brasil para divulgar novo filme de aventura e ação. Crédito: Laysa Zanetti

A missão de levar o poderoso Ele-homem aos cinemas já deu errado muitas vezes. Até agora, o único live-action do príncipe de Eternia a chegar às telonas era o filme de 1987 com Dolph Lundgrenconsiderado um grande fracasso. De lá para cá, sequências, novas versões animadas e reboots em live-action foram considerados por muitos grandes estúdios de Hollywood, e quase todos terminaram no mesmo lugar — o chamado “development hell” (ou “inferno do desenvolvimento”), basicamente um limbo criativo no qual alguns projetos saem e de onde muitos não conseguem sair.

A situação muda com a chegada aos cinemas de Mestres do Universoestrelado por Nicolau Galitzine no papel do bravo Adam Glenn, com Camila Mendes como Teela, a Deusa Guerreira, e Jared Leto emprestando sua voz a Esqueleto. O longa dirigido por Travis Cavaleirode Kubo e as Cordas Mágicas (2016) e Abelha (2018), busca recuperar para as novas gerações a inocência de acompanhar as aventuras de He-Man em um sábado pela manhã em frente à TV.

O filme ‘Mestres do Universo’, dirigido por Travis Knight e estrelado por Nicholas Galitzine como He-Man e Camila Mendes como Teela Foto: MGM/Amazon Content Services/Divulgação

Para Nicholas, que passou por uma transformação física intensa para adquirir os músculos do herói, algo que sempre esteve claro foi o fato de o personagem ser mais do que apenas o quanto ele pega no supino. Entre acrobacias e lutas intensas com Esqueleto e seus seguidores — entre eles, uma Maligna cativante interpretada por Alison Brie —, o protagonista é dono de uma certa doçura que ajuda a explicar por que, nos últimos anos, a fama do He-Man o transformou em memes e virais.

“Percebi que ele era mais que os músculos imediatamente, assim que li o roteiro”, diz Nicholas ao Estadãodurante passagem pelo Brasil para a divulgação do filme. “Para mim, e obviamente para Travis, ele não contratou alguém baseado no fato de que eu estava pronto para partir para a ação. Acho que ele contratou alguém em quem viu a alma do personagem. E foi isso que fez eu me apaixonar tanto por ele. Eu vi alguém que usa o humor para desviar do que estava sentindo, da dor que estava sentindo.”

Conhecido por filmes como ‘Uma Ideia de Você’ e ‘Vermelho, Branco e Sangue Azul’, ator britânico passou por transformação para nova aventura cinematográfica Foto: MGM/Amazon Content Services/Divulgação

Durante a passagem pelo Brasil, Nicholas, Camila e Travis participaram de uma ação que envolveu um show do Trem da Alegria na Avenida Paulista e uma pré-estreia do filme com fãs e influenciadores. De acordo com o astro, todo este lado mais emotivo e humano de He-Man ajuda a explicar o fascínio que ele ainda move.

“Eu via alguém que estava sentindo dificuldades com sua identidade e com quem ele era para as pessoas à sua volta e que se importavam com ele”, segue.

“Para mim, o mais interessante é quando você consegue enxergar vulnerabilidade em uma pessoa que tem todo o poder do mundo, toda essa força exterior. Quando você recebe um roteiro em que interpreta o homem mais poderoso do universo, se você for assim o tempo todo, torna-se muito chato. Então eu me conectei com isso, Travis e eu estávamos na mesma página. Não só para mim, mas também para a personagem de Cami e muitos outros.”

Um pouco de Brasil em Eternia

Nascida nos Estados Unidos e filha de pais brasileiros, Camila Mendes já chegou a morar no Brasil por um tempo quando era mais nova, e visita o País com frequência para tirar férias e visitar familiares.

A atriz Camila Mendes, de raízes brasileiras, interpreta heroína em novo filme de ‘Mestres do Universo’ Foto: MGM/Amazon Content Services/Divulgação

Hoje aos 31 anos, Camila ganhou fama interpretando Veronica Lodge na série adolescente Riverdale e, desde então, emendou papéis principalmente em comédias e romances voltados para o público juvenil. Em Justiceiras (2022), atuou ao lado de Maya Hawke. Posteriormente, também teve destaque em Atualização: As Cores do Amor (2024) e em Músicafilme que mistura português e inglês dirigido e co-estrelado por seu noivo, Rudy Mancuso.

Em Mestres do Universoela se desvencilha um pouco do universo de comédias e romances teen para mergulhar em um mundo ainda menos realista. Teela, deusa guerreira responsável pela proteção de He-Man e seu braço direito na história, é uma personagem habilidosa com as armas e a verdadeira heroína de Eternia.

Questionada sobre a sensação de interpretar sua primeira personagem que se desvencilha do mundo real, a atriz não perde a oportunidade de fazer uma bem-humorada observação.

“Olha, eu não diria necessariamente que Riverdale é o mundo real. Houve uma temporada em que todos nós viramos super-heróis. Então, isso está exatamente dentro da minha área de especialização”, brinca.

Camila Mendes e Nicholas Galitzine passaram pelo Brasil para divulgação de ‘Mestres do Universo’ Foto: MGM/Amazon Content Services/Divulgação

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“Acho que eu abordei Teela de uma maneira bem semelhante a essas outras personagens mais realistas, porque há uma história emocional e bem bonita ao longo do filme, que é a relação dela com o pai e a amizade com Adam. Há muitas formas de conexão com a personagem, além de toda a questão da transformação física. E, no fim das contas, sinto que essas histórias emocionais são o que tornam este filme mais fácil de se identificar, porque você sente que são pessoas reais”, observa.

De fato, parte do mérito do filme é deixar que estes personagens sejam humanos para além do fator físico, sem que percam a graça. O próprio Adam se coloca como uma figura extremamente humanista em vários pontos da trama, o que Gatitzine considera uma mensagem importante.

“Muitas vezes, a primeira emoção quando alguém nos faz mal é reagir com violência, com força, perdendo a razão. Muitas vezes, em tempos modernos, nós perdemos a perspectiva da razão”, analisa o ator, enquanto reflete sobre a importância, mesmo em filmes de aventura, do exercício do diálogo.

“Existe algo muito poderoso em dedicar um tempo para entender por que alguém é de uma certa forma. Nós perdemos a perspectiva da nuance, as coisas ou são boas, ou são ruins. Há uma força em ter essa compreensão, e Adam representa isso. Obviamente, algumas vezes, as pessoas simplesmente são ruins, tem uma ótima fala do Duncan no filme sobre isso. Mas nós jogamos com os dois lados desta história.”

O grande atributo de Eternia

Aos 52 anos e dono de três indicações ao Oscar, Travis Knight fala sobre Mestres do Universo com a tranquilidade de quem entende os detalhes desse universo.

O cineasta Travis Knight com Nicholas Galitzine e Camila Mendes nos bastidores de ‘Mestres do Universo’ Foto: MGM/Amazon Content Services/Divulgação

Fã declarado do desenho animado da década de 1980, ele assumiu o projeto de Mestres do Universo após uma empreitada bem-sucedida com outra propriedade intelectual que nasceu como bonecos infantis – Abelhado universo Transformadores. Por isso, para ele, a diversão precisava estar em primeiro plano.

“Uma das coisas que tornava Mestres do Universo único e distinto é o fato de que era muito estranho”, opina o diretor. “Era fora do comum, quase como um sonho febril dos anos 80, e isso é uma virtude. Isso é algo que queríamos abraçar, e fizemos isso com as cores enlouquecidas, o design absurdo, os personagens esquisitos e as locações. Mas também, no centro de tudo isso, havia algo que a história estava dizendo que eu considerava importante para a forma como existimos no mundo moderno.”

O diretor continua: “Quando criança, uma das coisas que eu absorvi do desenho é que uma pessoa pode ser ao mesmo tempo forte e um ser humano decente; dá para ser poderoso e gentil. A ideia de que esses dois traços podem coexistir foi marcante para mim, e acho que vale a pena falar sobre isso agora. Decência, bondade, gentileza, todos esses aspectos são cruciais para como devemos interagir uns com os outros. E, infelizmente, muitas vezes não interagimos assim, e acho que é isso que o filme explora.”

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