O luto se atenuou com o tempo e uma neta surgiu na casa de dona Odete. Ela agora via os pais de Maria, Joaquim e Ana, padroeiros dos avós, como colegas de função. Quando a netinha vinha aprender coisas com ela, sentia-se a própria Santana instruindo a filha. Sua biografia parecia paralela à da Virgem. Um padre a advertira em confissão que isso poderia ser vaidade. Ela fez a penitência prescrita, mas achou que os padres não engravidavam e jamais poderiam ter essa ligação com a Virgem Santa. “Tem coisas que só mulheres entendem”, ela disse para si mesma. “Padre Alberto sabe teologia, mas maternidade é algo diferente.” Admirava o saber do pároco, mas sabia que “a graça supõe a natureza”, frase que o religioso explicara a ela como sendo de Santo Tomás de Aquino.
Envelhecia feliz, um pouco acima do peso, com certa saúde e cercada de filhos e netos. Claro: não tinha a pureza dos pastores de Fátima. Jamais fora santa como Bernadete em Lurdes. Não tinha a fé nova e intensa de Juan Diego diante da Virgem de Guadalupe. Nunca pescara uma imagem santa no Rio Paraíba. Porém, considerava-se uma vidente atípica de Nossa Senhora. A Rainha do Céu aparecia a ela em sonhos, insinuava coisas boas em orações e protegia sua família de modo pessoal e único. O mesmo douto vigário falara um dia no tal “salto da fé” e citou alguém de nome impronunciável. Ela não entendeu a frase, mas jamais dera um salto. Sempre estivera ali, no colo da Virgem, acolhida, compreendida e feliz. Era uma alma sem saltos ou sobressaltos. Era Odete, nome de gente simples, mas que apareceu em novelas associado a pessoas maléficas.
A cerimônia começou e Odete cantou e orou com fervor especial. A coroa estava sendo conduzida por sua neta, que acabara de fazer a primeira comunhão. Que orgulho! Vestida de anjo, a pequena Miriam carregava a peça dourada com devoção. Ele sorriu ao passar pela avó que se emocionou em meio a um Salve-Rainha. “Maria, rainha dos anjos, dos profetas e patriarcas, seria coroada por minha neta”, ela disse a si mesma com intenso deleite. Nunca tinha se sentido tão feliz. Ela era a Rainha da Paz, nome da paróquia. Ela era a Rainha do Céu e hoje a realeza da menina de Nazaré que disse sim a Gabriel seria reconhecida pela coroa da pequena Miriam. Aliás, o nome havia sido sugerido por ela à filha, pois era o nome de Maria também, outra revelação do culto vigário.
O órgão tocou uma Ave-Maria e a pequena neta subiu a escada e depositou a coroa com perfeição na cabeça da Mãe de Deus, imaculada em sua concepção e medianeira entre o céu e dona Odete.