Uma peça básica de 100 dólares: o que explica o preço da camiseta do The Bear?

Uma peça básica de 100 dólares: o que explica o preço da camiseta do The Bear?

No seriado O Ursoo protagonista Carmy usa uma camiseta branca aparentemente básica que chamou a atenção, entre outros, por custar 100 dólares. E, pesquisando por ela, me dei conta que existe toda uma cultura online em torno de camisetas especiais. Afinal, o que é que está por trás deste preço tão alto? E vale o que custa? Para entender isto, temos de entender algo sobre a produção e composição de custos no presente e no passado.

Jeremy Allen White como Carmy em The Bear (O Urso). Foto: AppleTV +

Por acaso, eu conheço muito bem a cidade onde é produzida: Albstadt-Tailfingenque foi um tradicional polo têxtil na Alemanha. Quase todas as indústrias têxteis e de maquinário (eu trabalhei numa delas) que lá existiam fecharam – com exceção de algumas muito especializadas, como a Merz b. Schwanen, sediada em Berlim e com produção em Albstadt. E é desta marca o modelo usado pelo protagonista da série: é o Loopwheeled 215.

Antes de falar dela, precisamos colocar a perspectiva histórica: atualmente, camisetas são produzidas em teares circulares de altíssima produção – falo aqui de mais de 500 kg por dia (dependendo do diâmetro). Fundamental para garantir o perfeito tecimento sem falhas: alimentação dos fios sob altíssima tensão.

Já a Merz produz esta camiseta em máquinas literalmente resgatadas de museus, que podem ser vistas neste vídeo: os teares eram bem mais lentos e com outra tecnologia de tecimento (o chamado Roda giratória) – e aqui falo de produções na ordem de 5 kg/máquina/dia. Estas máquinas caíram em desuso há muito tempo (falo de mais de 70 anos) e eu só as conheci no Museu Maschen lá em Albstadt.

Uma característica da técnica de tecimento antiga é que todo o processo, seja na alimentação do fio quanto no puxamento da malha, ao contrário das máquinas modernas, ocorre sob baixíssima tensão – o que acaba gerando uma malha diferente daquelas às quais estamos acostumados. Eu não tenho a experiência de usuário, mas quem usou a camiseta diz que ela tem um caimento muito diferente e a aparência também muda, pois a baixa tensão resulta numa malha menos uniforme (infiro que é uma certa rusticidade chique).

Mas o que justifica o alto preço?

Quanto ao custo variável, ele é afetado principalmente pela matéria-prima. A marca não detalha muito sobre o fio além do fato de ele ser algodão orgânico (que não é um indicativo de qualidade em si), mas presumo que seja um fio de qualidade superior ao encontrado em camisetas baratas. Mas também existem camisetas massificadas com fios de boa qualidade, então o diferencial do custo não está aí.

E quanto aos custos fixos? Começando pelos custos industriais: os custos do espaço e da mão-de-obra são maiores na Alemanha do que em polos têxteis da China, Vietnã ou Bangladesh. Um ponto de interrogação nos custos fixos é o custo do maquinário, já que simplesmente não há referencial, pois não há produção e comercialização de máquinas novas e tampouco se sabe quanto custaram as máquinas antigas. E não podemos esquecer do custo administrativo, também concentrado na cara Alemanha.

Mas, no final das contas, o grande influenciador não é o numerador (os custos totais), mas sim o denominador: a baixíssima produção. Como a produção é pequena, o custo por peça acaba sendo desproporcionalmente alto. Quão alto? Obviamente não há como saber olhando de fora, mas quero pontuar a diferença do ponto de vista conceitual entre os dois conceitos de produto e processo.

Fica ainda a questão do marcação. Considerando que é um produto tão exclusivo (existem apenas mais duas outras fábricas – estas no Japão – produzindo este tipo de artigo no mundo), a margem que os gestores desta marca estabeleceram certamente é alta – e é o que eu e qualquer pessoa de bom senso faria.

E aí chegamos nos cerca de 100 dólares de preço final cobrados do consumidor: vale o que é pedido? Me valho do conceito de valor percebido usado no marketing, conforme definido por Philip Kotler: é a diferença entre os benefícios entregues e o custo total de aquisição. Para que um produto caro como esta camiseta seja compreendido como “vale o que custa”, o benefício entregue deve também ser muito alto. E aí entramos em percepções individuais, é o terreno da subjetividade, que foge ao foco desta coluna. Ou seja: a despeito da minha provocação inicial, sinto dizer que não serei eu quem vai responder se esta lendária camiseta vale os 100 dólares que pedem por ela. Mas repito: é um processo diferenciado que gera um produto único e, pelo lado dos custos, é justificável um preço premium considerável.

De qualquer maneira, é deveras surpreendente que no mundo moderno e hipercompetitivo, no qual há uma busca incessante por aumento de escalabilidade e produtividade, ainda existam algumas empresas que conseguem se estabelecer em mercados comoditizados trabalhando à moda antiga, literalmente como há um século, atendendo a nichos específicos. Não deixa de ser uma inspiração.

Mas, caso alguém se interesse em entrar neste mercado pela baixa concorrência e altas margens, fique sabendo que há uma barreira de entrada alta. Como comentei anteriormente, ninguém mais produz máquinas deste tipo. E, mesmo se alguém conseguir comprar um número suficiente de máquinas antigas para começar uma produção, não encontrará mão-de-obra para colocá-las em funcionamento.

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