
Maguila derruba o argentino Daniel Falconi em disputa do título do Sul-Americano de peso-pesado no ginásio do Parque São Jorge, em 1986. Foto: Claudine Petroli/Estadão
Quando subiu ao ringue no ginásio do Parque São Jorge na noite do domingo de 18 de maio de 1986 o boxeador brasileiro Maguila (1958-2024) buscava mais que a vitória numa revanche com o oponente argentino Daniel Falconi. O que estava em jogo ali era a continuidade de sua própria carreira no boxe.
Os repórteres Aílton Fernandes e Luis Antonio Prósperi e o fotógrafo Claudine Petroli estavam lá e contaram e mostraram como foi a luta no Jornal da Tarde do dia seguinte. Leia a íntegra da transcrição do texto e veja as fotos e a página original.
Jornal da Tarde – 19 de maio de 1986

Reportagem sobre Maguila no Jornal da Tarde de 19 de maio de 1986. Foto: Acervo Estadão
estadao.com.br/acervo
Maguila bate e vence
(Qual é o seu futuro?)
Aílton Fernandes e Luis Antonio Prósperi
Seu futuro continuo incerto. Mas existe, ao contrário do que ocorreria se ele perdesse novamente para o argentino Daniel Falconi. Neste caso, o campeão sul-americano dos pesos pesados, que manteve seu título, teria que encerrar a sua curta e discutida carreira no boxe.
Maguila está vivo, após a espetacular vitória por nocaute sobre o campeão argentino, Valter Daniel Falconi, na noite de ontem no ginásio do Parque São Jorge. E se ainda é cedo para dizer que a manutenção do título sul-americano dos pesos pesados lhe abrirá novas perspectivas no cenário internacional, esse nocaute ao menos serviu para ele se vingar da derrota no ano passado: A luta também evidenciou uma nítida evolução técnica de Maguila nas mãos do treinador Miguel de Oliveira.
A luta foi definida no sétimo rounde, de forma surpreendente: Maguila acertou um direto de direita no rosto de Falconi e com ajuda de seu corpo mandou o adversário para a lona. Falconi sentiu o impacto desse golpe e, quando a luta reiniciou, ficou a mercê de Maguila, que lhe acertou outro violento direto no queixo. Falconi ainda conseguiu se levantar, mas abaixou a cabeça e concordou com a decisão do árbitro de encerrar a luta.
Na verdade, tudo saiu como Miguel de Oliveira tinha planejado: Maguila iniciou o combate de uma forma cautelosa, prendendo o braço direito, dançando e sempre fugindo à troca aberta de golpes com o adversário. Com potentes jabs de esquerda, soube manter o adversário à distância na maior parte do tempo. E ainda conseguiu abrir o supercílio de Falconi com um golpe de direita.
Para justificar sua fama e o favoritismo dado por muita gente, Falconi iniciou o segundo rounde tomando a iniciativa e acertando alguns golpes. Mas desta vez, Maguila estava bem preparado e, com malícia, soube evitar a seqüencia de golpes do adversário. E mais: foi ganhando confiança com o passar do tempo. Aí — como estava combinado — passou a soltar mais os braços e foi com o seu famoso e mais potente golpe —o direto de direita — que liquidou Falconi, para espanto e delírio dos torcedores que lotaram o ginásio do Coríntians.
“Queixo mole”
— O Falconi tem queixo mole. Não agüentou meu direto. Essa vitória valeu como se fosse o título mundial — comentou Maguila, abraçado à sua mãe, no vestiário, sem se esquecer de elogiar o trabalho do técnico Miguel de Oliveira e o apoio dado pela Companhia Atlética durante seus treinamentos.
Do outro lado, Falconi recebeu ,a derrota com resignação. Ele admitiu que seus planos de enfrentar brevemente um lutador do ranking mundial serão atrasados. Disse que espera uma revanche ainda este ano. Recuperando-se do castigo imposto por Maguila, o argentino comentou que no primeiro assalto seu adversário tapou seu olho direito com uma unhada.
— Acho que não foi intencional. Mas a verdade é que isso prejudicou minha atuação. Mesmo assim, até o sétimo assalto eu estava vencendo por pontos…
Mas, bem ao seu estilo, Maguila retrucou:
— Foi um jab na lata dele…
O programa de ontem no ginásio do Corintians teve mais cinco lutas. O destaque entre elas, foi a vitória (por desclassificação) de Rui Barbosa Bonfim sobre Clarimundo Silva, que lhe valeu a conquista do título de campeão brasileiro na categoria meio-pesados. Mesmo sem ter uma técnica apurada, Rui Bonfim, presidiário da Casa de Detenção, mostrou uma pegada violenta e Clarão precisou contar com muita malícia e experiência para evitar o nocaute.
Nas outras lutas, Hélio Santana derrotou Ubaldo Figueiredo por nocaute no 1º assalto na categoria médio-ligeiro; Claudemir Carvalho Dias venceu Jorge Oliveira (da Argentina) por abandono no 14 assalto, na categoria mosca; na categoria galo, Redigivildo Conceição derrotou Roberto Santos por pontos; e em outra luta de moscas, deu empate entre Gilvan Silva e Robson Sales.
Novos caminhos
Adilson Maquila Rodrigues conseguiu manter o título de campeão sul-americano da categoria peso pesado ao derrotar, por nocaute, no sétimo assalto, o argentino Daniel Falconi. Um nocaute que modificou o que parecia ser o fim de uma rápida carreira.
Para José Francisco Coelho, da Luqui — promotora da luta — a vitória de Maguila representou “uma confiança brutal na carreira do lutador, que provou, ao vencer Falconi, que realmente é um pugilista de valor”. O grande mérito da vitória foi do próprio Maguila. Agora, mais do que nunca, sua carreira terá uma ampla perspectiva. José Francisco ainda afirmou que a próxima luta de Adilson Rodrigues será aqui mesmo no Brasil.
O presidente da Federação Paulista de Pugilismo, Newton Campos, não continha a emoção e gritava ao término da luta: “Essa valeu tudo. Que vingança maravilhosa!”
O treinador de Maguila, o ex-lutador Miguel de Oliveira, ainda dentro do ringue, entre abraços e tapinhas nas costas, dizia: “Foi uma grande vitória. Estou muito emocionado”. Quanto ao futuro de Maguila, Miguel de Oliveira disse que é coisa para se pensar com calma, com mais tempo e longe da euforia de depois da vitória.
Quem estava sereno e tranqüilo depois de ver Falconi ser nocauteado por Maguila era o empresário de boxe Kaled Kuri: “Essa vitória representa um novo horizonte para o boxe brasileiro. O que de ruim aconteceu com a derrota do ano passado está revertido com a conquista de hoje (ontem). A vitória de Maguila foi com muita raça, pois ele sentiu alguns golpes do argentino e soube reagir. Foi a raça que prevaleceu”.

Reportagem sobre Maguila no Jornal da Tarde de 19 de maio de 1986. Foto: Acervo Estadão

Reportagem sobre Maguila no Jornal da Tarde de 19 de maio de 1986. Foto: Acervo Estadão

Maguila observa Falconi após acertar o argentino. Foto: Claudine Petroli/Estadão
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Por 46 anos (de 4 de janeiro de 1966 a 31 de outubro de 2012) o Jornal da Tarde deixou sua marca na imprensa brasileira.
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