Eu tenho muito a aprender com o TikTok. Mas, para a minha sorte, meu enteado de quinze anos mexe na ferramenta com o virtuosismo de um deus da guitarra. Foi por conta do empenho dele (que, em contrapartida, me fez assistir aos shows das três últimas turnês de Beyoncé) que consegui fazer a pesquisa sobre a personagem da coluna de hoje: a cantora Adu simples.
Uma das popstars absolutas dos anos 1980 e avessa a entrevistas e aparições públicas, Sade virou tendência para jovens que nem sequer eram nascidos em seus tempos de glória. Uma delas é River Brown, influencer inglesa de 22 anos, que criou a conta @sadeaduwife. A página tem mais de 370.000 seguidores e sete milhões de likes de pessoas que assistem a vídeos, trechos de shows e – raras – falas da sua musa. Outras contas trazem um tutorial de como reproduzir o seu visual mais marcante – os cabelos puxados para trás, a maquiagem discreta, a boca decorada por um batom vermelho sangue, brincos de argola e blusas e vestidos de gola alta.
O séquito de Sade Adu vai além do exército de influenciadores. O rapper Drake, por exemplo, tem uma tatuagem com o rosto da cantora e uma escultura de quase três metros que reproduz a pose de um de seus discos – Amor de luxode 1992. Ele é um dos muitos astros do hip hop que usam trechos das canções da nigeriana em suas criações. No universo do jazz moderno, o pianista Robert Glasper recriou o sucesso Valorize o diaem Rádio Negraseu disco de 2012. E mesmo no pop atual, onde muitas vezes as batidas se sobressaem às melodias, existem intérpretes que trazem o DNA de Sade em suas interpretações. Olivia Dean, a popstar do momento, Cleo Sol (do coletivo SAULT) e Naomi Sharon são influenciadas pela popstar.
Sade Adu também possui admiradores no hip hop e pop brasileiros. O quarteto Racionais MC’s utilizou um trecho da canção Pérolas (o momento icônico que ela grita “Aleluia”) em Capítulo 4, Versículo 3presente em Sobrevivendo no Infernode 1997; a vocalista Thalma de Freitas fez uma versão dance de Paraísocanção do disco Mais forte que o orgulhode 1988 e outra musicista, Luedji Luna, criou um show tributo à sua musa pop.
Quem é Sade Adu?
Helen Folasade Adu, 67 anos completados em janeiro, nasceu na cidade nigeriana de Ibadã. Filha de um professor universitário africano e de uma enfermeira inglesa, ela passou boa parte da infância e adolescência na zona rural da Inglaterra, para onde se mudou com a mãe depois do divórcio dos pais. Estudou moda na Saint Martin’s School of Art, de Londres. Ali desenvolveu muito de sua estética visual.
Sade trabalhou um tempo como modelo. Os primeiros passos mais sérios na arte do canto foram dados como vocalista de apoio em uma banda chamada Pride. Foi quando conheceu os futuros integrantes do grupo que levaria seu nome – o saxofonista e guitarrista Stuart Matthewman, o tecladista Andrew Hale e o baixista Paul S. Denham. O treinamento, que a acompanha até os dias atuais, gravou Vida Diamantede 1984, disco que a apresentou para o mundo. O trabalho traz muito da influência do soul americano suave dos anos 1970, ao lado de jazz e bossa nova – a ponto dela ter sido rotulada como artista de new bossa, gênero que despontou na Inglaterra e tinha como pontas-de-lança os grupos Matt Bianco, Everything but the Girl e Style Council. Aliás, o saxofone e a percussão de Operador Suaveseu primeiro sucesso, trazem uma certa brasilidade.
O “estilo Sade”, por assim dizer, tem em sua maioria canções lentas em contemplativas, boa parte em tom menor (o que as torna mais melancólicas) e letras que refletem sobre amores perdidos e jornadas incertas, cantadas com sua rouca voz de contralto. Essa vertente, no entanto, nem sempre é a regra. É um crimecanção de seu segundo trabalho, Promessade 1985 (e uma das minhas prediletas em seu repertório), traz uma interpretação rasgada, como se a letra, que fala de um amor não correspondido, estivesse impressa em sua própria carne. Outras composições são mais solares e apaixonadas, como Paraíso e Nada pode ficar entre nósambos Mais forte que o orgulhode 1988.
Sade Adu nunca foi dada a aparições. Surgida num período em que a indústria do factoide era utilizada para divulgar um novo single e álbum, ela preferiu viver de modo tranquilo. Sua única traquinagem se deu em 1997, em Montego Bay (Jamaica), quando se recusou a parar para a polícia e fez com que os oficiais a perseguissem pelas ruas da cidade. Depois de Amor de luxoseus lançamentos foram ficando cada vez mais escassos. Amantes Rock chegou às lojas oito anos depois de Amor de luxo, e Soldado do Amor demorou uma década para estar pronto: saiu em fevereiro de 2010. Perguntada por um repórter por onde andou durante todo esse tempo, ela respondeu com ironia. “Me tranquei numa caverna e só agora tive forças para retirar a pedra da entrada.”
Os hiatos em sua carreira normalmente são interrompidos quando ela sente que tem algo a dizer – em geral, sobre causas humanitárias. A canção Mãede 2005, foi escrita para um projeto em socorro às vítimas do genocídio causado por diferenças étnicas em Darfur, no Sudão. Já Jovem Leãode 2024, faz referência ao processo de transição de seu filho, Izaak Theo Adu, que nasceu com o nome de Mickailia “Ila” Adu. “Meu jovem/ Tem sido tão pesado/ Me perdoe, filho/ Eu deveria ter percebido”, diz a letra da balada, que entrou em TRAIƧAde 2024, projeto da Red Hot Organization.
No dia 16 de novembro, Sade Adu e mais os integrantes da sua banda deverão estar presentes no Teatro Peacock, em Los Angeles, para celebrar sua entrada no Rock & Roll Hall of Fame (isso é, caso ela consiga tirar a pedra da caverna). Será uma honraria digna para aquela que é uma das popstars mais emblemáticas das últimas quatro décadas. Agora, se você me der licença, aparentemente tem outra performance de Beyoncé que eu terei que assistir.