Chega a Festa do Cinema Italiano 2026 para nos atualizar com o cinema da península

Chega a Festa do Cinema Italiano 2026 para nos atualizar com o cinema da península

Uma mostra que adota o nome de uma obra-prima do cinema merece respeito. 81/2  – Festa do Cinema Italiano (26 de junho a 15 de julho) chega para mais uma edição, a 13ª, este ano em 11 cidades brasileiras, trazendo, como cartão de visitas, um filme que celebra os laços entre Itália e Brasil. Trata-se de Os Irmãos Segretoque fala dos imigrantes Pasquale, Gaetano e Alfonso, que vieram ao Brasil do século 19 em busca de melhores condições de vida. Fizeram mais: acabaram trazendo o cinema para o país.

Eles estabeleceram uma lenda que, se não é verdadeira, é muito bem contada. Como dizem os patrícios, “se non è vero, è ben trovato”. Se não é verdade, a história é bem inventada. Acontece que, dos três irmãos, os mais velhos, Pasquale e Gaetano, vieram antes. De donos de cabaré à prática de jogos de azar, eles fizeram de tudo no Rio de Janeiro, até chegarem à conclusão de que se havia uma indústria de futuro naquela cidade e naquele país, esta era a do entretenimento. Bem, em 1895, o mundo havia sido apresentado ao cinema pelos irmãos Lumière, em Paris. Uma atração de circo, sem muito futuro pela frente, como disseram os próprios inventores. Porém, bem divertida, enquanto existisse.

Já afluentes e influentes empresários do entretenimento no Rio, Pasquale e Gaetano decidiram chamar o irmão mais novo. Mandaram-no viajar e o incumbiram de trazer consigo uma dessas máquinas milagrosas das imagens em movimento, o “cinematógrafo”. Na chegada, Alfonso teria acionado o aparelho e tomado as primeiras “vistas” do país, imagens da Baía da Guanabara a bordo de um paquete simbolicamente chamado de Brésil. O dia em que isso aconteceu é hoje comemorado como o Dia do Cinema Brasileiro. Tudo muito lindo se pudesse ser comprovado.

Acontece que ninguém parece ter visto tais imagens. Ou nunca foram feitas, ou se perderam na poeira do tempo. Alguns pesquisadores sustentam que o próprio Alfonso as teria destruído. Ao manejar a máquina de maneira desajeitada, teria velado o negativo.

Ficou a lenda. E, como dizia aquele personagem de O Homem que Matou o Facínorade John Ford, quando a lenda é melhor que o fato, imprima-se a lenda. Tenha havido ou não essa primeira filmagem, ficou a data, 19 de julho de 1898, como uma espécie de certidão de nascimento do cinema brasileiro, batizado pelas mãos do seu primeiro cineasta, o italiano Alfonso Segreto.

O doc, em seu todo, é muito bom. Trabalha com muito material de arquivo e uma narração em off divertida, irônica, um ótimo texto que, na versão brasileira, ganhará a voz de Paulo Betti, o grande ator, e de família “oriunda”.

Vários outros filmes, dos dez propostos para esta edição da Festa, merecem seu interesse. Forade Mario Martone, é baseado na trajetória errática da escritora Goliarda Sapienza (1924-1996), feminista que deixou uma inspirada auto-biografia, a polêmica A Arte da Alegriapublicada no Brasil pela Autêntica. No filme de Martone, a escritora é interpretada por Valeria Golino.

Em matéria de originalidade, a palma da seleção fica com A Última Rodada (Le Città di Pianura), de Francesco Sossai, que passou por Cannes e recebeu dois prêmios, direção e melhor filme, no David di Donatello, o “Oscar” italiano. Esse road movie cômico percorre as cidades do Vêneto, no norte da Itália, numa viagem etílico-turístico com dois cinquentões chegados ao álcool e mais um jovem estudante de arquitetura. Para quem é chegado na grande fase das comédias à italiana, sente-se nesta a influência de uma obra estupenda como Aquele que Sabe Viver (Il Sorpasso), de Dino Risi, com Vittorio Gassman e Jean-Louis Trintignant.

primaverade Damiano Michieletto, viaja no tempo. Vai à Veneza entre os séculos 17 e 18, época em que viveu o grande compositor Antonio Vivaldi (1678-1741), autor de um dos hits da música clássica de todos os tempos, As Quatro Estações.

O título destaca a primeira das estações, a Primavera, estação das flores. Por isso, embora muito presente, Vivaldi não é o protagonista, dando lugar a uma dessas “flores”, a jovem órfã Cecília (Tecla Insolia), dotada para a música, porém prometida em casamento a um poderoso da Sereníssima República, homem violento e muito mais velho.

Num tempo em que a liberação feminina era apenas uma aspiração longínqua, Cecília, com seu carisma e sua rebeldia, torna-se uma pioneira. Um belo filme, que evoca o tema sempre presente da liberdade. Como nos versos de sua posterior xará brasileira, Cecilia Meirelles: “Liberdade, essa palavra/que o sonho humano alimenta,/que não há ninguém que explique/e ninguém que não entenda.”

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O Negociador (Il Nibbio), de Alessandro Tonda, investe num gênero em que os italianos já foram craques – o thriller político. Desta vez baseado num caso real, o de Nicola Calipari (Claudio Santamaria), alto dirigente do SISMI (Serviço de Informações e Segurança Militar), destacado para resolver um caso delicado. Ele conduz as negociações para resgatar a jornalista Giuliana Sgrena (Sonia Bergamasco), do jornal de esquerda Il Manifesto, sequestrada no Iraque durante a invasão de 2003.

O filme exala a tensão dos bons thrillers e não barateia a complexidade de um país invadido e desestabilizado sob falso pretexto (a existência de armas de extermínio de massa em poder de Saddam Hussein). É um filme adulto, não transforma seus personagens em heróis impolutos e aponta as contradições dos oponentes que terminaram por ocasionar a tragédia final. Tampouco fica em cima do muro e escancara a responsabilidade final do exército de ocupação norte-americano no desastroso desfecho.

O delicado Três Vezes Adeus traz a notável atriz Alba Rohrwacher no papel de Marta, casada com Antonio (Elio Germano). Uma banal discussão pós-festa põe fim a um relacionamento de sete anos e Marta fica só, ela e sua melancolia. Antonio também não se sente bem em sua nova vida solitária. Toca o restaurante do qual é dono, e é só. Seria este mais um caso de separação mal sucedida? Talvez. Mas não se trata apenas disso.

Dirigido pela espanhola Isabel Coixet, em Três Vezes Adeus o que se tem é uma imersão no universo feminino, a partir de uma personagem sensível como Marta. Só, imersa em lembranças e tendo de administrar uma doença inesperada, Marta mergulha em si mesma e nos convida a acompanhá-la nesse drama tão mais comovente porque nada tem de apelativo para provocar as lágrimas do público.

Pelo contrário, com frequência dialoga com o humor. Não como “alívio cômico” que costuma entrar apenas apenas para tirar o peso do enredo, mas porque consegue entrelaçar essas duas dimensões da experiência humana em sua curta vida, a comédia e o drama. Relativiza a ambos. Mas, terminado o filme, é impossível esquecermos o rosto de Marta, sua ternura sem objeto, seu sorriso triste, sua calma desalentada. Muito bonito.

A Festa do Cinema Italiano traz ainda um super lançamento porque dirigido por um ator famoso, ninguém menos que Johnny Depp que traz, com seu Modi uma cinebiografia um tanto pop do grande pintor italiano Amedeo Modigliani (1884-1920). Achei a primeira parte bastante desagradável, com a insistência em um personagem que inspira mais asco do que qualquer outro sentimento. Mais para a frente, as coisas melhoram e o filme se transforma numa interessante iniciação à obra do pintor e à cena artística parisiense na virada do século 19 para o 20.

Como programação histórica, há a reestreia, com cópia restaurada, de Caro Diário (1994), talvez ainda o título mais famoso de Nanni Moretti. Nanni estrutura o filme como diário mesmo, um caderno de notas, mostrando suas andanças em Vespa pelas ruas e imediações de Roma, um périplo em companhia de um amigo às Ilhas Eólicas na Sicília e, por fim, sua peregrinação por médicos generalistas, especialistas, praticantes de medicina oriental, charlatães, etc, em busca das causas da estranha e persistente coceira de que é vítima.

A forma solta, interpretada e narrada pelo próprio diretor, é um exemplo de liberdade narrativa, de frescor e simplicidade, que inspira até hoje.

Informações completas sobre a mostra, você encontra no site: htts://festadocinemaitaliano.com.br

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