Mecânicos, ivermectina e Mel Gibson: como o cérebro nos engana sobre o que realmente vimos
Crédito: Larissa Burchard/Estadão
Por que algumas pessoas chegam aos 80 anos com plena capacidade cognitiva, enquanto outras já apresentam um declínio significativo aos 50 anos? Segundo o neuropsicólogo americano Yaacov Stern, da Universidade Columbia, algumas pessoas têm uma reserva cognitiva maior que a de outras, o que garantiria um envelhecimento mais saudável.
O mesmo conceito também vale para a capacidade de recuperação de lesões cerebrais e é bem aceito pela comunidade científica há décadas. Mas quais seriam as bases neuronais dessa reserva? Como o cérebro cria essa reserva cognitiva e como ela é acionada?

Brasileiros sugerem que o cérebro pode possuir um número muito maior de conexões estruturais do que aquelas tradicionalmente consideradas funcionais. Foto: Sebastian Kaulitzki/Adobe Stock
Um novo trabalho assinado por cientistas brasileiros propõe a hipótese de uma reserva conectômica; ou seja, o cérebro humano abrigaria conexões neurais silenciosas, pouco utilizadas ao longo da vida, mas capazes de ser ativadas em situações limite, como lesões neurológicas, problemas sensoriais e envelhecimento. Conectoma é o nome que se dá ao conjunto de conexões do cérebro.
A hipótese foi desenvolvida pelo neurocientista Roberto Lent, pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa (IDOR), e pela presidente do instituto, Fernanda Tovar-Moll. O trabalho de revisão já foi aceito para publicação na edição de julho da revista científica Cérebro.
“A nossa hipótese é que todos temos, em maior ou menor grau, mais conexões do que usamos; esse excedente de circuitos no cérebro poderia ser considerado uma reserva”, explicou Roberto Lent. “Teríamos um excesso de conexões secretas, silenciosas, que só são usadas em caso de necessidade, como um traumatismo físico ou psicológico, ou mesmo para dar conta do envelhecimento.”

O neurocientista Roberto Lent, do Instituto D’Or de Pesquisa, propõe a hipótese de uma reserva conectômica – conexões excedentes que poderiam ser acionadas em caso de necessidade. Foto: Pedro Kirilos/Estadão
A hipótese proposta pelos brasileiros sugere que o cérebro humano pode possuir um número muito maior de conexões estruturais do que aquelas tradicionalmente consideradas funcionais. Segundo os cientistas, parte dessas conexões permaneceria “silenciosa” ou pouco utilizada ao longo da vida, mas poderia ser recrutada em situações específicas, como lesões neurológicas, amputações, cegueira, surdez ou, simplesmente, envelhecimento.
O conceito foi proposto a partir de evidências acumuladas em estudos sobre o desenvolvimento cerebral. De acordo com os autores, durante a formação do cérebro, ocorre uma produção extensa de circuitos neurais.
Embora parte dessas conexões seja eliminada no processo de amadurecimento cerebral, evidências recentes indicam que algumas vias podem permanecer preservadas, funcionando como uma espécie de reserva biológica pronta para ser acionada quando necessário.
A hipótese da reserva conectômica também ajudaria a explicar fenômenos observados em estudos clínicos e experimentais sobre a reorganização cerebral. Em vez de criar caminhos neuronais inteiramente novos após determinadas alterações neurológicas, o cérebro poderia recorrer a estruturas neuronais pré-existentes e pouco exploradas.
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Ainda se sabe muito pouco sobre por que algumas pessoas teriam mais conexões neuronais do que outras. Mas as atividades intelectual e física são cruciais na abertura de novos caminhos cerebrais.
“A ideia amplia a forma como entendemos a plasticidade cerebral e sugere que o cérebro pode ser ainda mais adaptável do que imaginávamos”, conclui Roberto Lent. “Mas, é claro, é uma hipótese; um desafio principalmente aos jovens cientistas para fazer mais pesquisas nessa direção.”