Epidemia de câncer? O que está por trás da previsão da OMS

Epidemia de câncer? O que está por trás da previsão da OMS

Na semana passada, a Organização Mundial de Saúde (OMS) publicou o seu relatório anual sobre câncer. No título, o liberar correlato da IARC (International Agency for Research on Cancer, subordinada à OMS) dizia algo assustador: que os novos casos anuais de câncer iriam quase dobrar até 2050. Fui verificar o relatório, e em apenas uma das 280 páginas havia referência a isto. Para entender melhor, resolvi destrinchar os números que embasaram essa afirmação.

Antes de tudo, de onde veio a afirmação? Desta projeção aqui:

Note que a projeção é subir de 20,6 milhões para perto de 34,4 milhões de novos casos anuais – mas isso é um aumento de 67% (que, a meu ver, não é quase 100%). É uma imprecisão que não deveria caber em uma comunicação oficial da OMS.

Como é um intervalo temporal de um quarto de século, no qual sabidamente haverá grande alteração da população, me interessa saber como fica esta projeção em índice relativo. Neste gráfico, com casos e óbitos em relação à população, a inclinação da curva já é bem menor, mas ainda assim a subida não é desprezível: +25% no índice de novos casos e +44% no índice de óbitos por câncer.

Indo além, queria saber o quanto o câncer afeta de forma distinta países ricos e países pobres. Me valho da classificação do Banco Mundial em 4 faixas de renda per capita, começando pelo índice de novos casos:

Surpreendentemente, o grupo com maior aumento de índice de casos é o de renda médio-alta: +47%. A mesma categorização por renda, mas para óbitos anuais:

Aqui também os maiores e menores índices continuarão sendo o de países ricos e países pobres, respectivamente, mas o maior aumento porcentual no índice relativo deve ocorrer em países de renda médio-alta (entre os quais o Brasil se encontra).

Em todo mundo está ocorrendo uma acelerada redução de fertilidade e, consequentemente, um envelhecimento da população. Vale tanto para países de alta renda quanto para países de baixa renda. Aliás, a OMS alerta para o encadeamento de fatores que contribuem para o número absoluto de casos:

  • Exposição a fatores de risco
  • Aumento da expectativa de vida
  • Aumento de população total

Fato é: o câncer é uma doença característica de idades mais avançadas – e, ironicamente, o avanço de um indicador positivo (maior expectativa de vida) acaba trazendo consigo o maior risco de desenvolver câncer.

Boa parte dos novos casos de câncer são causados por fatores de risco modificáveis (como fumo, infecções, consumo de álcool e obesidade). Foto: ThawKyar/Adobe Stock

Mas eu ainda tinha uma dúvida: o quanto a incidência e a mortalidade vão mudar dentro dos grupos etários ao longo dos próximos 25 anos? De acordo com as notas metodológicas do IARC, a projeção considera as taxas de incidência ou mortalidade específicas por idade de 2024 e populações e estruturas etárias projetadas para 2050. Ou seja, a premissa para as projeções é manter constantes as taxas de incidência e mortalidade atuais (no caso, de 2024) até 2050 – assim, o que empurra os números absolutos (previstos) para cima é tão-somente a mudança demográfica (tamanho da população e composição por faixas etárias).

E agora uma provocação: a OMS acertou ou errou em sua comunicação, ao alertar para o grande aumento de casos de câncer?

Para gestores de saúde, o alerta é importantíssimo – para eles, a principal informação é o número absoluto esperado, já que terá de ser construída infraestrutura para atender um contingente muito maior de pessoas acometidas deste mal.

Por outro lado, para o leigo, a mensagem (de “quase dobrar novos casos”) pode gerar alarmismo que acaba fomentando o que temos de pior nas redes sociais, como influencers de saúde que culpam o mundo moderno (às vezes até as vacinas) por um suposto aumento de casos de câncer e que vendem tratamentos alternativos milagrosos (lembrando novamente: a OMS considera que não haverá aumento de incidência dentro das faixas etárias).

Por isto, o release da OMS não é uma boa fonte a ser reproduzida nas próprias cartas para o grande público. Para leigos, é importante saber que as taxas específicas por idade não estão aumentando (o número absoluto mais confunde que explica para este público). E aqui um alerta que vale para todos: 38% dos novos casos são causados por fatores de risco modificáveis (como fumo, infecções, consumo de álcool e obesidade).

Concluindo: falando especificamente de Brasil, nosso sistema de saúde terá de estar preparado para atender 79% a mais de novos casos anuais de câncer daqui a 25 anos – uma tarefa e tanto! Teremos de nos acostumar com a realidade que a virada demográfica demanda fechar vagas em escolas e abrir vagas em hospitais.

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