DTV+: o que as emissoras brasileiras vão oferecer e quem já pode assistir à TV 3.0

DTV+: o que as emissoras brasileiras vão oferecer e quem já pode assistir à TV 3.0

A TV 3.0, ou DTV+, inicia sua fase comercial no Brasil, prometendo elevar a TV aberta a um novo patamar com transmissões em 4K e 8K, som imersivo e interatividade. A Globo e a EBC lideram a implementação, com a Globo já transmitindo em São Paulo, Rio e Brasília. A tecnologia combina radiodifusão e banda larga, aproximando a TV aberta das plataformas de streaming. A transição completa deve durar até 10 anos, com investimentos previstos de R$ 12 bilhões. A Copa do Mundo será um marco para a divulgação da nova tecnologia.

Em desenvolvimento desde 2019, a TV 3.0, ou DTV+, começa a ganhar forma comercial nesta semana, ainda que em fase bastante experimental. A mudança de padrão de tecnologia vai elevar a TV aberta a um patamar de alta qualidade ao oferecer aos telespectadores transmissão em 4K e, no futuro, em 8K, além de som imersivo com o sistema de áudio de última geração MPEG-H — atualmente restritos aos canais a cabo e às plataformas de streaming. O novo sistema trará também novas possibilidades de interação com o telespectador, publicidade segmentada e regionalizada, entre outras funcionalidades.

Isso será viável porque a DTV+, nome comercial derivado de Digital Television Plus, vai conjugar a radiodifusão (a transmissão tradicional via ar) com a banda larga. Isso tornará a TV aberta mais parecida com uma plataforma de streaming — inclusive, os canais, em vez de números, poderão ser acessados por ícones na TV, em tablets e celulares. Em termos mundiais, os Estados Unidos e a Coreia do Sul estão à nossa frente, já com operações comerciais.

Duas emissoras se colocam à frente na largada para a DTV+. A TV Globo estreia nesta terça-feira, 9, uma campanha protagonizada por Sabrina Sato e Nicolas Prattes que fala em ampliação de “engajamento” e “um novo jeito de se relacionar” com a TV aberta. A EBC (Empresa Brasil de Comunicação), que abarca a TV Brasil, de caráter público, acelera os testes, destaca o caráter de serviço que irá oferecer e se posiciona como uma das instituições que, junto com o Ministério das Comunicações, liderou o debate da implementação da nova tecnologia no País.

O casal Nicolas Prattes e Sabrina Sato protagoniza a primeira campanha da DTV + da TV Globo Foto: TV Globo/Divulgação

O Estadão entrou em contato com as principais canais de televisão do País para questionar com quais planos e prazos elas trabalham para implementar a DTV+ em sua programação. A TV Cultura explica que está em fase de “construção de um plano de transição para a TV 3.0, envolvendo todas as áreas da emissora, com a finalidade de identificar as adequações necessárias”. SBT, Record TV e Band TV não responderam.

A Globo, em vantagem nessa corrida, lançou suas estações técnico-experimentais em abril de 2025, quando completou 60 anos no ar. O veículo escolheu a Copa do Mundo da Fifa, que se inicia no dia 11, para comunicar ao seu público que, em teoria, já transmite na DTV+ em três praças habilitadas para a ferramenta: São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília (Plano Piloto). Até 2030, o plano é estar nas 15 regiões metropolitanas que fazem parte do PNT (Painel Nacional de Televisão).

Segundo Leonora Bardini, diretora executiva da TV Globo, para este primeiro momento, a ideia é reforçar para o telespectador as camadas de interatividade que ela já utilizava na TV 2.5 (veja mais abaixo a linha evolutiva da televisão no Brasil), em televisores fabricados a partir de 2020 e 2021.

“Estamos em uma Copa com muitas seleções (são 48, 16 a mais do que no torneio anterior). Teremos um aprofundamento estatístico dos jogos e enquetes. Vamos convidar o público a participar mais”, diz a executiva. Outra possibilidade atrativa é ter dois vídeos rodando simultaneamente na tela, o dual view, com a imagem ao vivo do jogo e um replay pré-selecionado pela emissora de alguma jogada ou de um gol.

A Globo não disponibilizará o Cloud DVR, ou seja, a função de voltar ou pausar uma transmissão ao vivo, como é possível no streaming (inclusive no Globoplay, plataforma por assinatura da Globo). “Para a TV aberta, acreditamos na experiência ao vivo. É um ativo muito forte”, justifica Leonora, citando a morte do personagem Arthur Brandão, interpretado por Antônio Fagundes na novela Quem Ama Cuida, exibida recentemente com bastante repercussão entre o público.

Nada será impositivo, de acordo com o canal. “Não queremos interromper ou criar ruído para aquelas pessoas que desejam assistir da maneira que sempre assistiram à TV aberta. Mas, para quem quiser uma camada a mais, teremos, com navegação rápida via controle remoto”, explica Leonora.

A Globo planeja interações nas transmissões da Copa, mas acesso ainda será restrito, em razão da tecnologia disponível no momento Foto: TV Globo/Divulgação

Além do esporte, os realities e o jornalismo também ganharão recursos — a Globo ainda não revela quais são seus planos para as Eleições. A teledramaturgia será um território a ser explorado com parcimônia em relação à forma de exibir seu conteúdo, de acordo com a emissora. A Globo fez pesquisas em oito regiões brasileiras para entender o que o telespectador deseja. O resultado é óbvio: comprar os itens de cena, como o vestido de uma personagem ou um vaso do cenário. Essa funcionalidade, na verdade, já é possível com o uso de inteligência artificial – basta apontar o celular para algum objeto que aparece na TV e pesquisar.

Carolina Duca, diretora de infraestrutura e telecom da Globo, diz que a emissora trabalha para que o sistema da TV aberta evolua para ir ao encontro do que as áreas de programação, conteúdo e negócios entenderem que fará sentido para o usuário. “Não pensamos na tecnologia pela tecnologia. É o que ela pode habilitar de novos negócios para gerar receitas adicionais que permitam a implementação do projeto”, diz.

Antena digital interna e migração para a TV 3.0

Há cerca de 20 dias, a Globo tem feito uma campanha ostensiva em seus telejornais e canais digitais para que os telespectadores adquiram uma antena digital interna, que custa entre R$ 20 e R$ 40. O aparelho permite assistir à TV aberta com sinal de alta qualidade e sem atraso. O apelo da empresa é o torcedor não ter que ouvir, durante a Copa, seu vizinho — eventualmente com uma TV por assinatura ou plataforma de streaming — gritar gol antes dele.

É verdade. Mas também é fato que se trata de uma espécie de “movimento casado”, como define Leonora Bardini, para a futura migração para a 3.0. “Queremos habilitar mais gente para participar dessa primeira fase da DTV+”, diz. A Globo não revela quanto vai investir em seu projeto da DTV+.

Plataforma Comum, da EBC, chega a São Paulo e Brasília

A EBC, Empresa Brasil de Comunicação — que tem em seu guarda-chuva os veículos públicos de comunicação TV Brasil, Agência Brasil, Rádio MEC e Rádio Nacional —, inaugurou no mês de abril sua estação de testes da TV 3.0, em Brasília. A iniciativa é uma parceria com o Ministério das Comunicações e com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

A TV Brasil, por sua característica, não pode explorar os recursos comerciais que a nova tecnologia oferece, ou seja, não poderá ofertar produtos ao seu público ou vender a blusa que Cissa Guimarães, apresentadora do Sem Censura, sucesso nas redes sociais, estará usando no programa.

Na EBC, a TV 3.0 possibilitará, então, com destaque na interface da DTV+, a implementação da chamada Plataforma Comum, um aplicativo que reunirá diversos serviços do Governo Federal, como o portal Gov.br, SUS Digital e o recém-lançado Tela Brasil, ao lado também de outros canais federais, como a TV Câmara e a TV Senado. A partir desta semana, a Plataforma Comum estará disponível em São Paulo e Brasília, em uma versão experimental. Os alertas de fenômenos climáticos, como chuvas ou ventos fortes, também vão migrar para a TV, com possibilidade maior de regionalização.

Para Antonia Pellegrino, diretora-presidente da EBC, no campo público essa será a maior inovação que a DTV+ vai oferecer. “Quase todo brasileiro acessa o Gov.br. Entrar nele e, a partir dali, também entrar na TV Brasil ou o Tela Brasil é muito poderoso”, diz. Antonia vai além da funcionalidade: “Cultura e comunicação pública são direitos da população. A 3.0 coloca essa dimensão de uma forma mais explícita, mais nítida, na mesma prateleira”.

Dentro dos limites de sua função, a TV Brasil também terá atrativos. O telespectador poderá escolher, por exemplo, de qual câmera assistir ao Sem Censura ou, então, selecionar apenas o som da torcida de uma transmissão esportiva — o canal atualmente transmite jogos de campeonatos estaduais.

Ao centro, Antonia Pellegrino, da EBC, e o ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho, na inauguração da estação de testes da TV 3.0 em Brasília Foto: Valter Campanato/Agência Brasil/Divulgação

De acordo com Antonia, a fase de desenvolvimento da Plataforma Comum custou R$ 25 milhões. Porém, haverá necessidade de mais recursos no futuro, inclusive para uma rede de entrega de conteúdo (CDN) própria e soberania de dados. “É algo extremamente contemporâneo. Articularemos essa questão por meio de um consórcio com o governo federal”, afirma.

Em fevereiro deste ano, o governo federal, via Ministério das Comunicações, deu início às tratativas com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Banco Mundial para o financiamento de até US$ 500 milhões (cerca de R$ 2,7 bilhões) para viabilizar a transição para a DTV+ no Brasil. O Estadão questionou o ministério sobre o avanço da proposta, mas não obteve retorno.

Já será possível assistir à DTV+?

Em uma linha evolutiva da televisão brasileira, os marcos tecnológicos podem ser apontados dessa maneira:

  • 1950: TV 1.0, analógica e em preto e branco
  • 1972: 1.5, analógica e colorida
  • 2007: 2.0, digital e HD
  • 2021, 2.5, DTV Play e áudio imersivo
  • 2025 (mas com lançamento comercial neste ano:: 3.0 ou DTV+

Embora o marco da DTV+ seja 2025 e o lançamento comercial agora, em junho de 2026, ainda há muitas questões tecnológicas para colocá-la de pé em sintonia.

No momento, a DTV+ poderá ser acessada via conversores que já começam a chegar ao mercado — Intelbras e Aquário estão comercializando kits que custam de R$ 600 a R$ 700.

Não há televisores disponíveis com esse recurso sendo produzidos ou vendidos no Brasil com o chip da TV 3.0 integrado. Ainda que previsões apontem que isso deva ocorrer já neste segundo semestre, a entrada na linha de produção deve atrasar.

O Estadão consultou os principais fabricantes de TV para saber se há algo no horizonte. A Samsung afirma que “está monitorando o desenvolvimento da nova tecnologia e comunicará ao mercado, oportunamente, sobre os próximos passos da iniciativa”. A LG diz que aguarda “o processo de definição técnica” e que ainda é “prematuro” dar qualquer previsão para que o novo modelo entre em sua linha de produção. A TPV, que produz os aparelhos da Philips, também não tem qualquer previsão para a fabricação. A Sony Brasil não retornou o contato.

Além de especificidades técnicas, os fabricantes terão que colocar no controle remoto um botão que levará direto à DTV+ — a condição está no decreto que regulamenta a TV 3.0 no Brasil, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em agosto de 2025.

No futuro, na DTV+, será possível comprar, via TV aberta, um objeto de cena ou figurinos usados pelos atores em uma cena de novela. Na foto, Letícia Colin e Chay Suede em ‘Quem Ama Cuida’, trama exibida atualmente pela TV Globo Foto: TV Globo/Divulgação

Neste momento, tudo será acessado ainda de forma “experimental”, segundo Sergio Santoro, coordenador do Módulo de Mercado do Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre (Fórum SBTVD), que acompanhou todas as etapas da implementação dessa mudança no sistema de TV aberta no Brasil com representantes de emissoras, fabricantes de aparelhos de TV e universidades brasileiras.

“A fase é de refino da implementação. Sugiro que os telespectadores aguardem um pouco para usufruírem do que será oferecido, até para obter equipamentos mais acessíveis”, diz Santoro. “Pessoalmente, não acredito que seja possível assistir à Copa do Mundo nesse novo modelo. Talvez isso ocorra em locais públicos para demonstração da tecnologia”, completa.

A estimativa inicial é de que a implementação da DTV+ no País dure cerca de 10 anos — com possível prorrogação para mais cinco anos em função de sua complexidade. A título de comparação, a transição da TV analógica para a digital durou 15 anos.

Previsões, inclusive do Fórum, apontam que o custo de implementação em todo o País seja de cerca de R$ 12 bilhões, valor que, segundo Santoro, deve cair com o decorrer do tempo.

“O faturamento das emissoras diminuiu consideravelmente nos últimos anos em função do advento do streaming e do aumento da concorrência. No entanto, o share de audiência (porcentagem de domicílios ligados em determinado conteúdo) da TV aberta ainda é significativamente maior do que em outros países”, expõe Santoro para justificar o investimento. Nos Estados Unidos, a soma da TV linear (aberta mais a cabo) é de 50%. No Brasil, o mesmo índice gira em torno de 70%.

Santoro trabalha com uma previsão de concretização da DTV+ no Brasil a médio prazo, até mesmo para que as políticas de implementação possam ser executadas de maneira satisfatória e os fabricantes de equipamentos, tanto de transmissão quanto de recepção, possam se adequar às demandas técnicas.

“Paulatinamente, o sistema começará a rodar. No momento, minha estimativa é que, no começo de 2027, outras emissoras apresentem seus planos e conteúdos para a DTV+”, finaliza.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Notícias Recentes