A Odisseia de Nolan é espetáculo cinematográfico magnífico; leia crítica

A Odisseia de Nolan é espetáculo cinematográfico magnífico; leia crítica

Não é a primeira versão em cinema da Odisseia de Homero. Mas por certo é a mais ambiciosa e talvez a mais completa. A Odisseia segundo Cristóvão Nolan traz praticamente na íntegra o enredo imaginado por Homero. Filmado em película de 70mm, com quase três horas de duração, a um custo aproximado de US$ 250 milhões, pode se dar ao luxo de transpor em sons e imagens toda a complexa trama imaginada pelo poeta grego 3 mil anos atrás. Explodem na tela todo o som e a fúria da sinuosa aventura de Odisseu em sua tentativa de voltar para casa depois de finda a Guerra de Tróia, da qual foi um dos protagonistas.

Odisseu (ou Ulisses, na versão latina), ao viajar para a campanha de Tróia, deixa em sua terra, Ítaca, a esposa, Penélope (Anne Hathaway) e o filho, Telêmaco (Tom Holanda). No decorrer da aventura, entram em cena outros personagens. Robert Pattinson é Antinous, Lupita Nyong’o é Helena, Charlize Theron faz a bela Calipso, Zendaya dá forma à deusa Atena e Samantha Morton vive a ambígua feiticeira Circe. Para o bem e para o mal estas personagens, e muitas outras, atravessam o caminho de Odisseu, interpretado por Matt Damon.

O filme, em seu conjunto, é impressionante. Algumas sequências se destacam. Por exemplo, a do Cavalo de Tróia, pela intensidade das imagens e sua conjunção com uma trilha sonora empolgante. A mesma que será usada em outra longa cena de ação, a da luta de Odisseu e seu filho Telêmaco contra os “pretendentes” que, instalados no castelo real, em Ítaca, disputam a mão de Penélope, dada como viúva após 20 anos sem notícias do marido. Ninguém sabe dizer se ele está vivo ou morto.

Matt Damon vive Odisseu, vitorioso da guerra de Tróia, em sua jornada atribulada para voltar para casa Foto: Melinda Sue Gordon/Universal Pictures/Divulgação

Nolan retoma a obra tal qual foi deixada por Homero como patrimônio da humanidade. Os leitores da Odisseiamas também da Ilíadavão reconhecer no filme as etapas dessa jornada modelar. Os perigos que Odisseu e seus comandados passam no mar sob a fúria de Zeus e Poseidon, a luta contra o cíclope Polifemo, o carnívoro gigante de um olho só; a magia de Circe, que transforma homens em porcos, a sedução da bela Calipso, o canto das sereias, o Gado do Sol, a estreita passagem entre Cila e Caribde, etc.

No entanto, Nolan mexe na estrutura da narrativa. Faz com que Odisseu, vivendo com Calipso, aos poucos recorde sua existência anterior. A casa que deixou, a esposa, o filho que mal conheceu. Essa ação em flashbacks dá uma boa dinâmica a uma obra cinematográfica longa, porém jamais dispersiva.

Esse tema da jornada de volta ao lar acabou por inspirar toda uma vertente do cinema narrativo, em especial o de Hollywood. Não por acaso, o livro considerado como “bíblia” dos roteiristas – A Jornada do Escritorde Christopher Vogler (Ampersand Editora), tem por epígrafe uma passagem de Homero: “Esta é a história que eu peço à divina Musa que nos revele. Comece-a, deusa, no ponto que for de seu agrado”. A tese do livro é que “Todas as histórias consistem em alguns elementos estruturais comuns, encontrados universalmente em mitos, contos de fadas, sonhos e filmes”. A Odisseia seria uma dessas estruturas básicas.

Talvez a generalização pareça abusiva. Mas é fato que a grande maioria de narrativas épicas se encaixa nesse esquema ancestral. O herói, por um motivo ou outro, sai de casa, envolve-se em aventuras, perde, ganha, corre grandes perigos, ouve conselhos de um mentor, encontra inimigos e aliados, e termina por conseguir o que por vezes parecia impossível. Voltar para a pátria, para uma mulher deixada para trás, para um filho, uma casa, o aconchego de um lar. Chama-se “a jornada do herói” e foi “inventada” por Homero na longínqua antiguidade. Todos nós, que amamos histórias cheias de peripécias e reviravoltas, somos seus devedores. Mesmo que saibamos que a existência histórica de Homero seja contestada e a atribuição de autoria da Ilíada e da Odisseia seja problemática. Não há provas de que foram escritas por uma pessoa, ou grupo de pessoas. No entanto, os textos estão lá e são “a base da cultura ocidental”, como escreve o historiador francês Pierre Vidal-Naquet em O Mundo de Homero (Cia das Letras).

Sequência da Guerra de Troia é uma das mais memoráveis da ‘Odisseia’ de Nolan Foto: Melinda Sue Gordon/Universal Pictures/Divulgação

A jornada de Odisseu é a aventura de um homem. Mas é, também, o seu processo de formação, seu amadurecimento, a maneira como sofre e goza a vida e aprende a distinguir a ilusão e os valores de fato importantes. Descreve aventura para construir-se como ser humano e, por isso, esse velho texto sobrevive aos séculos e diz respeito a todos nós.

A Odisseia é uma trajetória de ensino e aprendizado de alguém que tem duas características de personalidade – Odisseu, ou Ulisses, é muito curioso e também muito ardiloso. Ele é um herói sim, mas várias vezes se encontra à beira do abismo, a ponto de perder sua alma. Quer conhecer tudo, a todo preço, e não se importa de arriscar-se e aos seus companheiros para saciar essa curiosidade, essa sede de saber. É o que mostra, entre outros episódios, o das Sereias, cujo canto e sedução, todos sabem, é fatal para os homens. Ele usa um ardil. Tapa com cera os ouvidos dos marinheiros para que eles não ouçam o canto que, dizem, é tão belo quanto fatal. Mas ele mesmo não usa a cera. Quer ouvir. Manda que o amarrem no mastro do navio para que não ceda à tentação e se jogue ao mar.

Odisseu não tem o dom da moderação e muitas vezes exagera em seus atos. Comete aquilo que os gregos chamam de “hybris” – a desmedida, o orgulho fútil, a falta de limites, a arrogância. A culpa o persegue pelo que fez em Tróia. Não precisava ter sido da maneira que foi, um massacre, sem piedade. E essa parece ser uma das ideias subliminares que Nolan quer passar, neste momento em que a desrazão parece tomar conta do mundo e ameaçar nossa existência sobre a Terra. É sua maneira de aproximar de nós esse velho e encantador texto, escrito em hexâmetros, provavelmente no século 8 antes de Cristo.

Para fazê-lo, o diretor de Oppenheimer monta um magnífico espetáculo cinematográfico. Sua Odisseia pode ser vista assim, em primeiro lugar – como um grande filme de aventuras. Como uma narrativa que empolga, diante da qual sentimos medo e euforia, torcemos pelo herói e receamos por ele, mesmo que não concordemos com todas as suas ações. Repudiamos seus inimigos. Suas esperanças são as nossas, e acompanhamos tudo com grande emoção.

Anne Hathaway e Tom Holland em cena de ‘A Odisseia’, como Penélope e Telêmaco Foto: Melinda Sue Gordon/Universal Pictures/Divulgação

Não há dúvida: a de Odisseu é a aventura das aventuras. Às vezes, é uma narrativa de guerra. Mas, acima de tudo, é história de volta ao porto seguro do lar, como no simplório “Não há lugar como o lar”, de O Mágico de Oz. Também é uma obra de formação. E elogio da viagem como processo de amadurecimento.

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Uma viagem para valer desestabiliza o ser que somos. Modifica nossa percepção do mundo e de nós mesmos. Voltamos diferentes do que fomos ao partir. Nesse sentido, a de Odisseu é o protótipo da grande viagem. Ítaca é seu ponto de referência, sua nostalgia e meta. Mas o que ganha ao realizar essa viagem é de outra natureza.

Ítaca é nossa ilusão e nossa esperança. Lutando por ela, lutamos por nós mesmos. É nosso lar, nosso ser. E todas as ideias formuladas por Homero, em seu mundo tanto realista quanto mítico, cabem nessa imensa história de um aventureiro. Um mundo intrincado de ideias, concentrado nesse espetáculo audiovisual proposto por Nolan. Hegel dizia que a arte tem a vantagem de dar materialidade sensível às idéias. Por mais complexas que sejam, as idéias ganham corpo em nossa emoção.

Nolan, depois de passar um bom tempo num mundo mais fantasioso que palpável, tem, nos últimos tempos, colocado sua imaginação a serviço de uma crítica do real histórico. Passa por um episódio crucial da Segunda Guerra em Dunquerque (2017), avança para o início da era nuclear com Oppenheimer (2023) e usa agora a epopeia milenar de Homero para, entre outras coisas, comentar a desordem do mundo atual, sob a tutela de desmiolados cheios de poder e fúria. A hybris comanda.

Bônus: Relembre ‘A Odisseia’ na cultura

Sem cinema e streaming

Ulisses. EUA (1954), com Kirk Douglas, Anthony Quinn e Silvana Mangano (como Penélope e Circe). Refaz a trajetória do herói, sua luta contra gigantes e tempestades marítimas, a tentação das sereias e a volta para casa, onde tem de se livrar dos “pretendentes” que assediam sua mulher. Considerado um “clássico”, mais por sua antiguidade que por outros motivos. Disponível na Looke e Belas Artes à la Carte

O Retorno (2024), de Uberto Pasolini, com Ralph Fiennes e Juliette Binoche. O diretor optou por uma versão mais enxuta. A história já encontra o Ulisses náufrago, no final de sua viagem dando na praia de Ítaca. Disfarçado em mendigo, vai tomar pé da situação do seu reino, 20 anos após sua partida para Tróia. Prime Video e Apple TV.

Grandes Mitos Gregos. Essa série sobre mitologia tem em sua terceira temporada, 10 episódios contando a Odisseia sob a forma de desenho animado. Muito bonito, com ênfase no desafio de Ulisses aos deuses. Em sua trajetória de desafios, o herói põe em xeque a fé, a crença que, como os deuses sabem, é a fonte de seu poder. Se os homens deixarem de crer, os deuses perderão sentido, daí a ameaça de Ulisses segundo essa leitura, digamos, materialista da Odisseia. Canal Curta on (no Prime Video).

Na literatura

Um dos mais importantes romances do século 20, o Ulissesde James Joyce (1882-1941), segue a estrutura da epopeia de Homero para evocar um dia na vida de um homem comum, em Dublin: Leopold Bloom, um vendedor de anúncios de jornal, casado com sua Penélope, Molly Bloom.

Em um trabalho que lhe custou 13 anos, o escritor grego Nikos Kazantzakis (1883-1957), autor de Zorba, oh Gregopublicou sua versão da Odisseia em 33.333 versos que ocupam 24 livros, um para cada letra do alfabeto grego.

O poeta grego Konstantinos Kaváfis (1863-1933), vê assim a pátria de Ulisses em seu poema Ítaca:

Se partires um dia rumo a Ítaca,

faz votos de que o caminho seja longo,

cheio de aventuras, cheio de conhecimento.

Nem Lestrigões nem os Ciclopes

nem o colérico Posídon te intimidem;

eles no teu caminho jamais encontrarás

se altivo for teu pensamento, se sutil

emoção teu corpo e teu espírito tocar.

Nem Lestrigões nem os Ciclopes

nem o bravio Posídon hás de ver,

se tu mesmo não os levares dentro da alma,

se tua alma não os puser diante de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.

Numerosas serão as manhãs de verão

nas quais, com que prazer, com que alegria,

tu hás de entrar pela primeira vez um porto

para correr as lojas dos fenícios

e lindas mercadorias para adquirir:

madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,

e perfumes sensuais de toda a espécie,

quanto houver de aromas deleitosos.

A muitas cidades do Egito peregrina

para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente.

Estás predestinado a ali chegar.

Mas não apresses a viagem nunca.

Melhor muitos anos levares de jornada

e fundeares na ilha velho enfim,

rico de quanto ganhaste no caminho,

sem esperar riquezas que Ítaca te desse.

Uma bela viagem deu-te Ítaca.

Sem ela não te ponhas a caminho.

Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.

Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,

e agora você sabe o que Ítacas significam. (Tradução de José Paulo Paes)”

Na linguagem comum

Mesmo quem nunca tenha lido Homero, ou visto um filme sobre a Odisseia e a Ilíada, usa expressões homéricas em sua linguagem, tais como:

  • “O canto das sereias”
  • “O cavalo de Tróia”
  • “O calcanhar de Aquiles”

O próprio termo “odisseia” é usado para designar uma viagem muito longa e cheia de imprevistos – como foi aquela de Ulisses de volta à sua casa, em Ítaca.

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