Ao organizar minha biblioteca, em desordem total, Carli, que dirigiu o Departamento Cultural da Porto Seguro, encontrou um cartão postal da Muralha da China. Voltei aos 16 anos e às aulas de geografia do professor Walter. Mas como ele estava lá se eu tinha dado a ele?
No científico, final dos anos 1950 em Araraquara, havia um professor que, no último mês antes das provas, facilitava aos alunos obter uma nota dez máxima, mediante um recurso. Walter Medeiros Mauro, mestre de geografia, prometia a nota para quem trouxesse dez cartões-postais do Brasil ou do mundo. Saíamos pela cidade, batíamos em todas as portas de pessoas que viajavam ou que se correspondiam com o mundo. Sabíamos quem eram porque essas pessoas, ao viajar, faziam questão de anunciar que tinham ido a Veneza, Lisboa, Madri, Paris e havia mesmo um ricão que garantiu ter ido à China. O cartão da China, segundo soubemos, havia caído nas mãos de Roberto Ramalho. Como? Amigo meu de uma vida, provocava inveja porque também era considerado o jovem mais bonito da cidade.

Muralha da China em foto de 2023, quando já contava com câmeras de segurança. Foto: Felipe Frazão/Estadão
Nada sabíamos da China, não havia na cidade nenhum chinês. Judeu, apenas um, Ary Rubin, pai de uma jovem de cabelos avermelhados, e japoneses, como os Okubaros. Um deles, o Jorge, décadas depois escreveria comigo a biografia de Olavo Setubal.
China misteriosa. Nós, garotos que frequentávamos a vesperal de cinema aos domingos, conhecíamos e temíamos o Fu Manchu por causa dos seriados. Ele era um vilão perigoso e sinistro que raramente aparecia em cena, mas aterrorizava. Ele comandava uma Tong, ou facção, algo como o PCC. Que medo tínhamos dele!
Voltemos. Não sei o final da gigantesca coleção de cartões postais do professor Walter, ele morreu anos atrás; e, há pouco, também seu filho Luís Felipe, dono de uma universidade, a Uniara. O passado, por estranhos motivos, aflora, principalmente nessa idade em que estamos sempre acuados pela perda da memória. Porém nos fustiga mais por aquela memória que criamos e por ela sofremos ou nos rejubilamos. Ela nos protege. Ou nos açoita?
Bem, não esqueço que, de casa em casa, de parente em parente, consegui uma coleção de cartões de cidades que nasciam, como Marília, Adamantina, ainda meio faroeste, Osvaldo Cruz, Vera Cruz. O cartão mais valioso foi o da Estação Ferroviária da Noroeste em Bauru – lá moravam as primas Tarcinalli, as mais lindas, divertidas, ousadas; a estação era fantástica, histórica. Terá tido o mesmo destino de tantas estações que desapareceram? Como a de Mairinque? Vilipendiada. Desprezo pela história. Como nasceu tudo isso?