O ser humano prefere virar para a esquerda

O ser humano prefere virar para a esquerda

Por fora nosso, corpo possui simetria bilateral. Temos um olho, um braço e uma perna de cada lado e nosso nariz possui dois orifícios, um de cada lado. Mas, por dentro, a história é outra, nosso coração fica mais para a esquerda e outros órgãos estão deslocados do centro. Além disso, a maioria de nós é destro ou canhoto, possui um olho dominante e uma perna mais forte. Mas será que nosso comportamento também tem um componente assimétrico?

Assimetrias comportamentais surgem espontaneamente. É o que ocorre em uma calçada com pessoas que caminham em direções opostas. Em todo o planeta, quando caminham em uma calçada cheia, as pessoas se organizam espontaneamente em duas filas, cada fila indo em uma direção. No mundo ocidental, as pessoas se colocam do lado direito da sua direção de movimento e o tráfego na calçada mimetiza a organização dos carros na rua. No Japão ocorre o inverso, as pessoas se colocam do lado esquerdo da sua direção de movimentação, como os carros naquele país.

Mas se você acredita que as pessoas organizam seu tráfego na calçada como os carros na rua (ou vice-versa), o exemplo da Inglaterra contradiz sua teoria. Carros se deslocam como no Japão e pessoas como na Europa continental. Esse tipo de organização assimétrica aparece espontaneamente sem que tenhamos consciência de como nos comportamos.

Cientistas fizeram experimentos para determinar a direção que a pessoa caminha. Foto: Natureza

Mas existe um componente cultural na quebra de simetria de nossos movimentos. E um ótimo exemplo é a razão pela qual as pessoas montam cavalos pelo lado esquerdo. A maioria das pessoas é destra e para sacar facilmente suas espadas, elas deveriam ficar do lado esquerdo do corpo. Com a espada do lado esquerdo, para montar um cavalo sem que a espada tenha que ser deslocada sobre o corpo da montaria, os cavaleiros precisam colocar o pé esquerdo (o da espada) no estribo e montar pelo lado esquerdo do cavalo passando a perna direita sobre o corpo do animal.

Mas também existe um componente intrínseco que quebra a simetria mesmo quando não estamos em grupo. Se você pedir a pessoas destras e canhotas que andem em direção a um muro perpendicular à direção da caminhada, uma maioria significativa vai virar à esquerda ao atingir o muro. É o que chamamos de comportamento sentido anti-horário. Mas isso é observado em um experimento. Qual nosso comportamento espontâneo?

Para medir nosso comportamento ao andar livremente em espaços amplos, os cientistas fizeram seis experimentos muito bem desenhados e controlados. Pessoas eram colocadas em locais cercados (circulares ou quadrados com 50 metros de lado ou diâmetro) e se solicitava que andassem ao acaso pelo espaço disponível. Enquanto isso, câmeras colocadas sobre o local apontando diretamente para baixo filmavam os movimentos. A cada dois segundos de deslocamento, a posição de cada pessoa era determinada e o trajeto percorrido nos dois segundos anteriores era medido. O resultado são traços indicando a direção da caminhada que terminam em um pequeno círculo indicando a posição final da pessoa.

Com base nesses dados, é possível determinar a direção que a pessoa caminha e, combinando o deslocamento de todas as pessoas, medir a direção preferencial. Quando se observam os filmes das pessoas caminhando ao acaso o movimento parece randômico, mas ao analisar a soma de todas as trajetórias, os cientistas descobriram que existe uma tendência das pessoas virarem à esquerda, sempre no sentido anti-horário.

Esse experimento e pequenas variações dele foram repetidos com grupos de crianças e adultos tanto na Espanha quanto no Japão e repetidos novamente com pessoas destras e canhotas e indivíduos que caminhavam sozinhos pelo espaço disponível. Em todos os casos foi observada uma tendência que independe da cultura, idade, sexo ou presença de outras pessoas. As pessoas sempre tendem a ter uma tendência de virar à esquerda.

O curioso é que no parlamento francês, onde surgiu o termo esquerda e direita em política, a entrada é por um corredor central e os deputados podem se dirigir a uma porta à esquerda ou à direita e se sentar. Os deputados que sentavam no lado esquerdo tinham ideias parecidas e se tornaram os precursores da esquerda na política, os outros eram os da direita. Até hoje funciona assim em Paris. Será que uma coisa tem a ver com a outra? Ou seja, o ser humano tende naturalmente para a esquerda tanto no andar quanto na política?

Mais informações: A polarização locomotora individual impulsiona o movimento no sentido anti-horário em multidões de pedestres. Natureza Com. https://doi.org/10.1038/s41467-026-73713-w 2026

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Notícias Recentes