Existe filosofia no futebol — e nele, um jogador cruel e desleal como Trump seria expulso

Existe filosofia no futebol — e nele, um jogador cruel e desleal como Trump seria expulso

Existe filosofia no futebol? Acho que sim, pois o futebol é um jogo e, por ser um jogo, revela que seguir regras fixas permite viver a vida trocando rotinas alérgicas a incertezas pelo esporte que diverte.

Isso inverte a racionalidade, pois se joga com os pés, proibindo o uso das mãos que nos fizeram humanos. Não satisfeito, sua dinâmica centra a bola – esse objeto-sujeito que é, simultaneamente, tabu, moeda e linguagem que une e desune os times, tornando-os vitoriosos ou derrotados.

Todo jogo se caracteriza pela transformação do inesperado em rotina, pois jogar é, num sentido preciso, arriscar-se. No futebol há luta e, numa Copa do Mundo, ênfase no patriotismo; sua base, porém, é uma igualdade axiomática que fabrica o drama de o país nobre ser derrotado pelo pobre, sem que isso ganhe peso político, o que promove renascimentos positivos, como foi o caso do Brasil.

Jogadores dos Estados Unidos na estreia da seleção americana na Copa do Mundo de Futebol Masculino 2026. Foto: DEAN MOUHTAROPOULOS/AFP

A separação das rotinas sacraliza os “jogos”, que são realizados em estádios – esses templos com suas rezas, xingamentos e sacerdotes que oficiam o ritual. O esporte relativiza o progressismo moderno. No futebol, joga-se bem ou mal porque, como uma pauta musical, suas regras são seguidas.

Todo campeonato engendra primeiros e últimos lugares, mas não os perpetua porque, na esfera esportiva, o vencedor enaltece as regras pelas quais venceu. Seu objetivo não é transformá-las, mas honrá-las. Qual é o progresso no futebol senão testemunhar uma jogada extraordinária dentro de uma moldura?

Quando, em 1798, o filósofo Immanuel Kant publicou o ensaio O Conflito das Faculdades e enunciou a questão crucial – “Estará o gênero humano em constante progresso para melhor?” –, ele fez a pergunta do nosso tempo. Entretanto, tal questão não faz sentido no universo do futebol – sobre o qual escrevi ensaios em 1982 –, pois o que classificamos como “esporte” tem uma dimensão de permanência que desafia o progressismo que desencanta o mundo.

Curioso ver esta Copa num mundo decepcionado por disputas injustas e pelo corrompido progresso desses Estados Unidos de Donald Trump, esse jogador arrogante, desleal e cruel. Em um jogo de futebol, ele seria expulso. Infelizmente, porém, regras fixas são para o esporte, não para a vida…

O futebol une e desune pela lógica da segmentação, essa insuspeita base da inclusão social. Ela opera assim: eu sou Flu e você é Fla; mas uma seleção carioca desmancha a oposição Fla-Flu e nos torna cariocas contra a seleção paulista.

Entretanto, num campeonato sul-americano, cariocas, paulistas, mineiros, gaúchos, nordestinos e nortistas viram “brasileiros” contra uruguaios, argentinos, etc… Mas, se há uma final de Copa entre “latinos” e “europeus”, é provável que brasileiros “virem” latinos. E assim segue essa cadeia de segmentações que mostra o quanto flutuamos.

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