Mas será que, quando esse pedaço de DNA é perdido, somente o gene SMAD4 desaparece ou os genes que estão logo do lado do gene SMAD4 também são perdidos? Como já conhecemos toda a sequência de DNA genoma humano, foi fácil para os cientistas descobrir que ao lado do gene SMAD4 reside um gene muito importante para a sobrevivência de todos os seres vivos, o que codifica a enzima málica (ME2) que converte piruvato em maleato. Essa conversão é essencial para a produção de energia nas células. Sem ela, os seres vivos morrem.
Analisando células de 294 tumores de pâncreas, os cientistas descobriram que em um terço deles não tinha os genes SMD4. Entre os que haviam perdido esse gene, 64% haviam perdido também o ME2. Sem esse gene a célula deveria estar morta. Mas ela não morre. E a razão é que existe uma outra versão do gene da enzima málica na célula, que é bem diferente, menos eficiente, e se chama ME3. Nessas células tumorais a ME3 passa a funcionar em maior velocidade e substitui a atividade da ME2 que foi perdida. O resultado é que as células que antes possuíam dois genes capazes de exercer a função (ME2 e ME3), agora só tem um (ME3). Quando os cientistas removeram o gene ME3 dessas células tumorais, constataram que a células morriam, pois ficavam incapazes de transformar piruvato em maleato.
Foi a partir dessa descoberta que surgiu a ideia de um novo quimioterápico. Como a enzima ME2 e ME3 são muito diferentes, a ideia é produzir uma molécula que seja um inibidor específico da ME3, bloqueando seu funcionamento. Imagine primeiro o que acontece quando você dá esse remédio para uma pessoa normal. O gene ME3 é totalmente bloqueado, mas não acontece nada com a pessoa, pois o gene ME2, que é mais importante, continua ativo.
Agora imagine quando essa droga for administrada para um paciente com câncer de pâncreas, no qual o tumor tiver perdido o gene ME2. Nada vai ocorrer nas células normais, pois a inibição do ME3 causada pelo remédio é compensada pela atividade do gene ME2 que está em todas as células normais. Já as células do tumor, que só tem ME3, vão morrer pois não serão mais capazes de converter piruvato em maleato. Pronto, as células normais sobrevivem e as tumorais morrem. Se tudo der certo, a pessoa será curada.