Liniker, na contramão do mercado musical, frequenta outro patamar

Liniker, na contramão do mercado musical, frequenta outro patamar

Liniker fala sobre a turnê ‘Bye, Bye Caju’ e expectativas para novos projetos

A cantora se despede do álbum que lhe rendeu três Grammys Latinos em 2025. Crédito: Liniker, cantora e compositora

Quando eu tinha quinze anos, minha mãe me levou para assistir a uma apresentação de Ney Matogrossocantor que ela simplesmente venerava. O ano era 1982 e, embora o regime militar tivesse dado sinais de enfraquecimento, tínhamos ainda de conviver com um departamento de censura pouco simpático à arte –somente maiores de dezoito anos podiam ter acesso a Ney e seus rebolados ditos libidinosos.

Meus pais tiveram então a ideia de me transportar dentro do porta malas do carro –eles podiam parar perto do palco– e me tirar do esconderijo cinco minutos antes de Ney entrar em cena. Santa ideia: lembro dele de trajes indígenas, ao som de Metamorfose Ambulantede Raul Seixas, e gastar a libido com Por Debaixo dos Panosde Antonio Barros e Cecéu, além de realizar um dos melhores shows que vi na vida.

Minha mãe, que se foi em 2021, hoje certamente levaria um Sérgio adolescente para assistir à Tchau, tchau, cajuturnê que a cantora Liniker estreou no dia 11 de julho no Nubank Parque, em São Paulo, para um público estimado em 48 mil pessoas (e com a vantagem de ser um show censura livre). Ela se identificaria com as letras, que falam em boa parte sobre relações amorosas; adoraria a combinação de soul com o samba paulistano dos anos 1990, e se impressionaria com a performance de Liniker no palco –penso que até falaria algo sobre a coreografia e a beleza das pernas dela.

Ney Matogrosso conta pedido feito ao diretor de Homem com H: ‘Só pode ter verdade’

Cantor fez apresentação junto a Arnaldo Antunes na Rio Innovation Week e falou sobre cinema, música e inovação. Crédito: Alvorada

Ney Matogrosso e Liniker, claro, são destaques em seu campo de atuação, mas de estilos e filosofias diferentes. O primeiro é homossexual assumido (embora se cercasse de uma certa ambiguidade no início da carreira), mas não transformou sua homossexualidade em bandeira ou discurso –a militância era expressa no palco e nas atitudes. Liniker integra a geração que o escritor João Silvério Trevisan chama de “estilística desmunhecada” ou “estética viada”: popstars de caráter artivisita e anti-homofóbico, assumidamente gays (ou trans ou queer) e militantes, ainda que no caso da cantora, a exemplo de Ney, isso aconteça mais no discurso do que nas letras. A intersecção entre essas duas figuras acontece no fato de ambas terem saído de sua bolha –a comunidade LGBTQIA + – para serem aclamados pelas mais diversas classes de plateia.

Faz pelo menos oito anos que a geração transguei ou trans-viada (para ainda ficarmos nas definições de João Silvério Trevisan) tem escrito sua história no pop brasileiro do século 21: do estouro de Pabllo Vittar com a canção Nocautede 2017, a Serenata de GGprojeto de samba de Gloria Groove em 2024, o país assistiu a uma profusão de intérpretes drag queen, trans e gays a construir uma carreira respeitável dentro do cenário nacional –eu destacaria, por exemplo, os trabalhos recentes de Catto, Johnny Hooker e Assucena como prova de excelência. Mas são obras restritas a uma fatia do mercado e não tiveram ainda a merecida aclamação popular.

Com o álbum ‘Caju’, Liniker atraiu muitos ouvintes nas plataformas digitais Foto: Cyril Zingaro/Keystone via AP

Liniker frequenta outro patamar. Egressa da banda Os Caramelows, que integrou de 2015 a 2020, a popstar se destacou inicialmente em A Mulher do Fim do Mundoshow de Elza Soares (1930-2022), onde fazia um dueto com a dama do samba na canção Malandro. Indigo Borboleta Anilseu primeiro trabalho solo, foi lançado em 2021 e impressiona pela voz forte, pelo modo particular de unir elementos da música preta brasileira e americana e trazer a participação especial de Milton Nascimento na faixa lalange.

O talento de estreia se confirma em Cajude 2024, um trabalho na contramão do mercado musical dos dias de hoje: canções longas num universo que professa que elas não podem passar de dois minutos. Composições que valorizam os versos até eles desembocaram no refrão, quando a norma é que eles sejam entregues logo de cara, além de uma trupe de convidados que vai do combativo grupo BaianaSystem à dupla Anavitória, passando por Lulu Santos e Pabllo Vittar.

O ano de 2026 assistiu ao lançamento de dois novos singles da cantora, Charme e Melhor Notíciaque trazem referências que vão de Prince ao samba soul paulista.

É admirável também a maneira com a qual ela conduz a carreira, construindo uma base fiel de fãs e não se vê posts ou publicações comerciais –as famosas publi– em suas redes sociais. Liniker, claro, ainda não existe no universo das rádios, mas explode em plays nos streamings, onde o chamado engajamento tem falado, na maioria das vezes, mais do que o critério artístico. Mas construiu um público interessado e disposto a consumir muito mais a música do que atitude e discurso –que diga-se, também se fazem presentes. Estima-se que tenha uma média de 2,5 milhões de ouvintes mensais.

Eu tive o meu quinhão de admiração quando a assisti no carnaval de Recife, em fevereiro deste ano. A abertura com Voltei, Recife, na qual ela cantou e dançou frevo, foi o ponto de partida para uma performance arrebatadora que seduziu o público presente no marco zero da cidade. Acometido por uma gripe forte, no entanto, esperarei por outra oportunidade para assistir a Tchau, tchau, caju. Nesse momento, lembrarei da minha mãe e sua ideia tresloucada e abençoada de me colocar dentro do porta mala de um carro para assistir àquele show de Ney Matogrosso.

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