Você já deve ter ouvido “o Brasil é um purgatório” como um desabafo sobre essa corrupção estrutural causada pelo roubo que o Estado pratica na sociedade.
Não é absurdo ligar o purgatório ao Brasil se pensarmos no formalismo do nosso arcabouço jurídico, no qual o processo é tão básico quanto o fervor de uma prece pelas almas do purgatório.
Se o suspeito tiver amigos poderosos e for um “master” criador de “redes de segurança e influência”, nada vai lhe acontecer.
Não fomos fundados por guerras, mas por missas. Catequizados por jesuítas, o catolicismo foi a nossa religião exclusiva até 1890. Não é, pois, casual o elo entre o Brasil e esse espaço intermediário de purgação.
No Brasil, há muitos mediadores entre céu e inferno, entre o certo e o errado. Há o campo do mais ou menos e do jeitinho. Fatos são anulados por múltiplas versões. É grande o contraste com o puritanismo. Nessa variante do cristianismo, só há salvação ou danação. Nela, as crises conduzem a mudanças.

Capa do livro ‘As Almas do Purgatório’, de Michel Vovelle Foto: Michel Vovelle/Reprodução
Tudo ao contrário da ética de intermediação do catolicismo com seus apadrinhamentos terrestres e celestes e a bênção de uma mulher que é a mãe de Deus. O oposto acontece no puritanismo cujo sistema enfatiza o indivíduo.
Somos predispostos a anistiar suspeitos que o nosso sistema jurídico chama expressivamente de “paciente”. O purgatório sacraliza mediadores. Vivemos num palco social hierarquizado entre os pobres que são “ninguém” e os “alguéns” bem relacionados.
O que impressiona nessa cosmologia de purgação é a recorrência do perdão que anula a história e mostra a nossa amnésia relativa a um ponto central da democracia: a igualdade que demanda a difícil consciência de que os cargos públicos devem ser resguardados dos interesses pessoais.
É esse essencial exercício de segmentação dos interesses particulares das exigências igualitárias e universais que sistematicamente negamos. A recusa em encarar conflitos de interesse (ministro ou marido, banqueiro ou escroque, presidente ou militante partidário) promove essa infernal máquina de salvadores da pátria.
O conflito entre os “da casa” e os “da rua” está presente nas sociedades de cosmologia católica. O mundo moderno reprimiu essa dimensão substituindo o purgatório pelo radicalismo político heroico e salvacionista, voltado para a redenção dos oprimidos.
Permanece, porém, a ausência de um projeto nacional que discuta essas dimensões. Coisa difícil quando governos não se preocupam em criar uma linguagem cívica, divorciada dos seus programas interessados em legitimar seus adversários.
PS: Aterrorizou-me a declaração de Trump: “Minha moralidade e minha mente são as únicas coisas que podem me deter”, publicada no New York Times na sexta, 9. Eis uma declaração de poder personalista, contrária aos princípios que construíram os EUA. Valha-nos Deus! l