O grande Max Webermuito citado, mas pouco lido, chamou atenção para as consequências da intelectualização da vida moderna pela ciência e pelo ideal do progresso. Para Weber, esse progresso era o alvo indiscutível da ciência. A ciência “desencantava” o mundo porque explicava o seu funcionamento sem recursos mágicos. Nas artes, Weber argumenta no seu ensaio A Ciência como Vocaçãonão há progresso. Cada obra de arte é autocontida. Seu valor está confinado ao que ela desperta em cada leitor ou espectador.
Weber sugere que a ciência desfaz o real, explicando como ele funciona, e a arte refaz a realidade usando instrumentos especiais. A ciência modifica o mundo revelando ignorância e onipotência. A arte encanta o mundo celebrando seus deslumbramentos.
A esfera do divertimento, porém, ressuscita esse encantamento, que acontece nas competições estruturadas em conflito como “jogos”. No esporte, existe um inegável espírito democrático fundado num combate que não destrói, porque nos jogos é o perdedor que legitima a vitória do ganhador, ambos vitoriosos numa ética que a vida moderna tende a esquecer. Além disso, há um esforço absurdo de controlar uma bola. Ela é de todos e não é de ninguém, o que confirma essa base igualitária de um esporte que reintroduz a imprevisibilidade na sua prática. Bola que é a base dos inesperados, os quais, ao contrário do mundo da política e da economia, exigem sinceridade e sabedoria ao controlá-la.

O Fluminense perdeu a semifinal da Copa do Mundo de Clubes para o Chelsea em 8 de julho. Foto: Seth Wenig/AP
Tais considerações me perseguem faz tempo. Desde os meus 11 anos, quando, em 1948, me converti ao Fluminense – e, hoje com essas imorais e gratas 88 primaveras –, tenho consciência dessa oposição weberiana entre o finito das artes reveladoras do encantamento do mundo e dos jogos esportivos, que despertam. Escrevo frustrado com o Fluminense, mas totalmente envolvido pelo encantamento promovido pelo ritual futebolístico. Descobrir essa simpatia pelo time é uma questão que me persegue há decanas. As ciências me educam e as artes me sensibilizam, mas o Fluminense me faz sofrer.
Que tipo de solidariedade é essa que tanto aflige? Será o elo promovido pelo viés igualitário do esporte que, diferentemente das contas bancárias e das tecnologias, não permite a acumulação que desencanta?
PS: Esse torneio esportivo ocorre em paralelo à brutalidade de Donald Trump contra o Brasil e as regras da democracia. É um inaceitável exemplo de autoritarismo e revelador de como o encantamento e o desencantamento do mundo convivem numa inevitável dialética. Num dualismo impossível de desfazer.