
Os vencedores da Mostra Território. Foto: Leo Lara
BELO HORIZONTE – Saíram os vencedores das mostras competitivas do CineBH 2026.
Na Mostra Horizonte, para estreantes em longa-metragem, o vencedor foi Cuba y la Noche, de Sérgio Fernandez Borrás, uma produção de Cuba, Espanha e Colômbia. O Destaque do Júri foi para o brasileiro Sabes de Mim, Agora Esqueça, de Denise Vieira. Já o júri jovem escolheu o mexicano Jankee, de Yamel Thompson.
A outra mostra, Território, aberta a diretores não-estreantes, deu seu principal prêmio, o de melhor filme, para Nuestro Cuerpo Es una Estrella que se Expande, de Semillitas e Tania Hernández Velásquez, do México. O Destaque do Júri foi para o brasileiro Telúrica: a Íntima Utopia, de Mariana Lacerda. O júri da crítica, organizado pela Abraccine, escolheu o chileno La Vida que Vendrá, de Karin Cuyul.
Para se entender a dinâmica do CineBH é preciso lembrar que são dois festivais em um. O primeiro compreende as duas mostras competitivas, a Horizonte e a Territórios. A primeira, reservada para filmes de iniciantes em longas-metragens. A segunda, em tese, para diretores mais experientes. Mas, salvo alguma exceção, todos são jovens. Há também as mostras especiais, que variam a cada ano.
A outra parte do festival chama-se Cinemundi e constitui-se de projetos de filmes em várias fases de realização. Eles disputam vários prêmios que os ajudarão a se tornar realidade nas telas, saindo da condição de projetos que ficam no papel.
Esses dois festivais funcionam de maneira autônoma. No Cine Humberto Mauro acontecem as mostras competitivas e mais alguns filmes “avulsos”, que completam o line-up final. O outro festival, o Cinemundi, desenvolve-se em torno de mesas, reuniões, sessões de pitching, etc.
São dois festivais que não se tocam, a não ser no encerramento quando então dividem a noite de premiação.
Dadas as dimensões em jogo, não é de se estranhar que essa noite tenha se prolongado além do tolerável. A deste ano teve quase três horas e meia de duração. Quando já ninguém parecia mais aguentar de cansaço, de tédio ou de fome, um dos entregadores de prêmio brincou: “Vamos acelerar um pouco porque isso aqui está demorando mais do que a festa do Oscar”. Todo mundo riu, mas era pura verdade.
No nosso caso, jornalistas e críticos presentes ao evento, não nos cabe cobrir a segunda parte do evento. A maioria de nós fica com as duas mostras competitivas e mais o que o festival nos apresentar em termos de filmes, atuais ou históricos. Não nos ocupando da Cinemundi, torna-se mais árdua ainda a cerimônia de entrega de prêmios dessa face do CineBH.
Há uma pequena compensação para esse sacrifício. Ficamos sabendo da existência de projetos promissores que, se bem desenvolvidos, serão filmes que nos encantarão no futuro. Isso é uma hipótese. Como se diz, o futuro a Deus pertence, e nunca poderemos prever se algum projeto que pareça ótimo por sua temática e/ou cineasta de quem já conhecemos o trabalho, se transformará em grande filme, ou, pelo menos, num bom filme. Mas já é um indício a ser seguido para ser conferido mais adiante.
Por exemplo, ficamos sabendo do projeto de Aña, de Mariana Lacerda, e a expectativa fica boa quando lembramos que ela é diretora de um filme muito bom, Telúrica: a Íntima Utopia, este aliás premiado com um Destaque do Júri na Território. Ou que o diretor Bruno Goularte, de quem conhecemos anos atrás um documentário chamado 5 Casas, agora foi premiado com o projeto de Primas.
Há gente de quem nunca ouvimos falar mas apresentaram e foram premiados por projetos que parecem muito atraentes. São os casos de A Luta não Pode Parar, de Éverton Bélico, e Coração Americano, de Aiano Benfica. Prometem documentar a luta sindical em São Paulo nos anos 1970 e a resistência à opressão que se expressa no cancioneiro engajado dos anos de chumbo.
O mais premiado foi Muganga, de Rodrigo Rybeiro, que venceu na principal categoria (melhor projeto segundo o júri oficial, formado por Joana Oliveira, Fred Burle e Jesús Pimentel).
Enfim, sempre é bom constatar que o cinema está em andamento e que podemos esperar bons filmes para um futuro breve, se o céu não cair sobre nossas cabeças. São especulações, por enquanto, mas, já premiados, têm enorme chance de se tornarem realidade.
Mas, enfim, o nosso campo como críticos é o de obras feitas. Duas mostras competitivas e de filmes latinos. Como já escrevi acima, amostras de um cinema latino jovem, o que significa, potencialmente, ideias novas, inquietações próprias da geração, ousadia de que ainda não tem compromisso de acertar, alguma juvenília. Houve de tudo isso, inclusive entre os premiados.
Gostaria, mas não posso dizer que estive sempre de acordo com os júris. Premiar Cuba y la Noche, de Sérgio Fernandez Borras, me pareceu um exagero. Trata-se de um filme sobre revoltas do bairro de San Isidro em Havana Velha, com empenho de artistas, ativistas e moradores – todos, ou, ao que se diz, contrários ao regime de Miguel Diaz-Canel. As imagens, todas na vertical, foram captadas pelos celulares dos participantes.
Pode-se perfeitamente ser solidário com jovens que buscam liberdade, oportunidades e democracia. Mas seria mais interessante haver um pouco de contexto. Falo de contexto histórico, não de passar a mão na cabeça do regime. Agora, desconhecer, ou negar mesmo que o bloqueio dos Estados Unidos tenha mantido a asfixia sobre a Ilha durante décadas, me parece negar a realidade. Ou um dos aspectos determinantes da realidade. Falta ao filme a História (agá maiusculo) de Cuba a dar relevo a essa manifestação de jovens. O diretor assume que é mesmo anticastrista. Para ele, o regime inaugurado pela Revolução de 1959 está na origem de todos os males da Cuba contemporânea. O embargo comercial, a truculência de Trump, nada disso tem importância. Uma espécie de cegueira voluntária, desculpável talvez num diretor que vive no exílio, mas que não deveria escapar ao crivo do júri.
Da mesma forma, a premiação do mexicano Nuestro Corpo es una Estrella que se Expande parece se dever mais ao cânone identitário atual do que a qualidades cinematográficas da obra. Por outro lado, discutir todas as questões pelo lado do corpo ( a tal política do corpo…) me parece um tanto redutor, narcísico, para não dizer infantil. Caberia ao júri filtrar esse tipo de imaturidade e não estimulá-la. Havia alternativas, mesmo que a seleção de competidores, em si, também possa ser questionada.
Na Horizonte, eu lembraria de Si Vas para Chile, de Amílcar Infante e Sebastián González Méndez, cinema urgente e questionador sobre a situação criada com a migração em massa de venezuelanos no norte do país.
Ou mesmo Jankee, de Yamel Thompson, filme problemático mas instigante sobre uma estudante de cinema mexicana que registra em falas e imagens seu relacionamento com um jovem cubano. Coloca, talvez, problemas éticos, que estão aí para serem discutidos mesmo.
Já em Território, Calle Cuba, de Vanessa Batista, é muito mais madura, além de emocionante, com seu retrato da complexa realidade cubana a partir de quatro personagens. Foi ignorado.
Também melhor seria o chileno La Vida que Vendrá, de Karin Cuyul, com sua dialética de esperança e frustração com a cordilheira que divide nossos países em progressismo e conservadorismo e, vez por outra, descamba para o fascismo mais cru. Por sorte, o júri da crítica elegeu este belo e dilacerado filme.
Fora das mostras, a grande atração dessa edição foi sem dúvida a presença da diretora paraguaia Paz Encina. Cineasta consagrada, acompanhou e comentou as sessões de três dos seus longas – Hamaca Paraguaya, talvez o mais conhecido deles; Exercícios de Memória e Carta a un Viejo Master, dedicado ao nosso grande documentarista Eduardo Coutinho.
Após a sessão deste último, Paz contou que o filme teve origem num convite da produtora carioca Duas Mariolas, de Filipe Bragança e Marina Meliande. Ela deveria fazer um filme, e este seria sobre o Rio de Janeiro. Topou na hora. Mesmo porque a relação com Coutinho (1933-2014), com quem nunca esteve em pessoa, é a de uma discípula com seu mestre.
Ela imaginou, não refilmar, mas voltar ao ambiente de um dos documentários de Coutinho de que mais gosta, Edifício Master. Como se sabe, Coutinho foi a esse prédio de classe média em Copacabana, conversou com moradores e, dessas falas e reações, tirou um documentário hoje clássico.
Paz teve muitas dificuldades. Não encontrou, com uma única exceção, os antigos moradores do Máster. Muitos deles haviam mudado de endereço, outros, morrido. Os síndicos atuais colocaram dificuldades para a diretora, restrições de locais filmagem, horários, etc. Ela chegou a pensar em desistir, que com as imagens obtidas não teria um filme.
Quis filmar mais. Foi falar com a montadora Jordana Berg, que também editava os filmes de Coutinho. Jordana lhe disse que Coutinho costumava pensar de outra forma diante da aparente carência de material: “Isso é o que eu tenho, e o que eu tenho me define”.
A frase acabou virando um mantra de todo o CineBH. Mesmo diante de carências que vemos no cinema latino-americano, é isso que temos; e é isso que nos define. Que sirva como estímulo à coragem e não como conformismo.
LISTA DE PREMIADOS
MOSTRA HORIZONTE
Mejor Largometraje / Melhor Longa-metragem – JURI OFICIAL HORIZONTE
CUBA Y LA NOCHE
Direção/Dirección: Sérgio Fernández Borrás
Destacado del Jurado / Destaque do Júri OFICIAL HORIZONTE
SABES DE MIM, AGORA ESQUEÇA
Direção/Dirección: Denise Vieira
Mejor Largometraje / Melhor Longa-metragem – JURI JOVEM HORIZONTE
JANKEE
Direção/Dirección: YAMEL THOMPSON
MOSTRA TERRITÓRIO
Mejor Largometraje / Melhor Longa-metragem JÚRI OFICIAL TERRITÓRIO
NUESTRO CUERPO ES UNA ESTRELLA QUE SE EXPANDE
Direção/Dirección: Semillites Hernández Velasco e Tania Hernández Velasco
Destacado del Jurado / Destaque do Júri OFICIAL TERRITÓRIO
TELÚRICA: A ÍNTIMA UTOPIA
Direção/Dirección: Mariana Lacerda
PRÊMIO ABRACCINE
LA VIDA QUE VENDRÁ
Direção/Dirección: KARIN CUYUL
PRÊMIOS PROJETOS 17º BRASIL CINEMUNDI
JÚRI OFICIAL – 17BCM – Joana Oliveira, Fred Burle, Jesús Pimentel
MUGANGA, DIREÇÃO DE RODRIGO RIBEYRO E PRODUÇÃO DE JULIA ALVES.
WIP – O2 PÓS – Ana Sanz
PRÊMIO 1º PROJETO
BOM RETORNO, DIREÇÃO DE BRENO ALVARENGA, PRODUÇÃO DE CAROL SILVA.
PRÊMIO 2º PROJETO
FOGO ADENTRO, DIREÇÃO DE DANIEL CALIL, PRODUÇÃO DE RENATO OGATA, ELIANE FERREIRA, LUDMILA RODRIGUES.
WIP – MISTIKA – Eduardo Gasparian
BOM RETORNO, DIREÇÃO DE BRENO ALVARENGA, PRODUÇÃO DE CAROL SILVA.
WIP – THE END – Maisa Joanni
SOL A PINO, DIREÇÃO DE ANA DO CARMO E PRODUZIDO POR RUBIAN MELO.
FOCO MINAS – CINECOLOR, CTAV, EDINA FUJII, PARATI FILMS – Yanis Gaye
A LUTA QUE NÃO PODE PARAR, DIREÇÃO DE EWERTON BELICO, PRODUÇÃO DE VITOR GRAIZE.
DOCBRASIL – CINECOLOR, CTAV, DOT, EDINA FUJII, O2 PÓS, PARATI FILMS – Leonard Cortana
AÑA, DIREÇÃO DE MARIANA LACERDA, PRODUÇÃO DE CAROL FERREIRA.
CONECTA – Paola Castillo
AÑA, COM DIREÇÃO DE MARIANA LACERDA E PRODUÇÃO DE CAROL FERREIRA.
DOCSP – Paulo de Carvalho
PRIMAS, DIREÇÃO DE BRUNO BARRETO E PRODUÇÃO DE MARINA TORRE.
DOCSP STUDY CENTER- Paulo de Carvalho
A LUTA QUE NÃO PODE PARAR DIREÇÃO DE EWERTON BELICO, PRODUÇÃO DE VITOR GRAIZE.
#LINK – Isona Admetlla
1º PREMIO
EM NOME DO PAI E DO FILHO, DIREÇÃO DE GABRIEL FREIRE, PRODUÇÃO DE MARÍLIA CUNHA.
2º PRÊMIO
PRIMAS, DIREÇÃO DE BRUNO GULARTE BARRETO, PRODUÇÃO DE MARINA TORRE.
RIDM – Séverine Roinssard
PRIMAS, DIREÇÃO DE BRUNO GULARTE BARRETO, PRODUÇÃO DE MARINA TORRE.
EURODOC – Leonard Cortana
CORAÇÃO AMERICANO, DIREÇÃO DE AIANO BEMFICA, PRODUÇÃO DE TATIANA MITRE.
CASA LATINA FILMS – Gregório Rodriguez
1º PREMIO
CORAÇÃO AMERICANO, DIREÇÃO DE AIANO BEMFICA, PRODUÇÃO DE TATIANA MITRE.
2º PRÊMIO
AÑA, DIREÇÃO DE MARIANA LACERDA, PRODUÇÃO DE CAROL FERREIRA.
NUEVAS MIRADAS – Ivette Liang
O PRESIDENTE NEGRO, DIREÇÃO DE GABRIEL F. MARINHO, PRODUÇÃO DE CAROLINA VILLALOBOS
BURNING – Diego Castillo
CAVALO, COM DIREÇÃO DE VALENTINA HOMEM E PRODUÇÃO DE MAYRA FAOUR AUAD.
MECAS – Paulo de Carvalho
BOI DE CONHAS, DIRECCIÓN DE DANIEL BAROSA, PRODUCCIÓN DE SABRINA GARCIA E NIKOLAS MACIEL.
MAFF / PROJETO PARADISO – Leo Ordonez
KIKI – UMA PONTE ENTRE MUNDOS, DIRIGIDO POR DARIO ALDANA, WERÁ ALEXANDRE E PATRICIA PARA YXAPY, E PRODUZIDO POR SIRLI FREITAS.
FILMES DE PLÁSTICO – Maurílio Martins e André Novais
DONA DA MINHA CABEÇA, DIREÇÃO DE NASH LAILA, PRODUÇÃO DE LETÍCIA SIMÇES E JOÃO VIEIRA JR.
MENÇÃO ESPECIAL, com consultoria coletiva
BPM: BATIDAS PELO MUNDO, DIREÇÃO DE GABRIEL MARCOS, PRODUÇÃO DE MARINA SOARES