Vulcânicos e baixos: Napoleão, Alexandre e Getúlio Vargas. Parece que o tamanho estimulava sonhos grandes, energia e caráter ousado. Será um padrão? O corpo exíguo intensifica a alma?
Pensei em tudo isto quando conheci Maria Adelaide Amaral. Havia a neve do tempo depositada nos cabelos. O olhar… Ah, que olhar! Olhos de eletricidade! As pupilas perscrutam o mundo e devassam tudo.

Maria Adelaide Amaral faz aniversário neste domingo, 1º. Foto: Werther Santana/Estadão
Adelaide é uma “força da natureza”, algo que se diz de um furacão ou de alguém pouco limitado a molduras ou conceituações. Rebelde sempre, inquieta, rápida (muito), dotada de vontade férrea e indômita, acima de tudo indômita.
Qual seria o traço que salta logo ao conhecê-la? Sem chance de erro: a sinceridade. Inimiga da falsidade, diz o que pensa à queima-roupa. De tudo que se possa acusar, hipocrisia jamais fará parte do quadro. Adelaide tem uma metralhadora giratória na consciência. Jorram verdades e alguns… palavrões.
O talento é evidente. Inteligência reconhecida em todos os lugares. Nela abundam criatividade e intuição. Maria Adelaide Amaral excede o corpo franzino como um vulcão de palavras e de ideias. É uma deliciosa contadora de histórias, mesmerizando a mesa.
É amiga leal, sem nenhuma dúvida. Isso não a impede de ver a alma dos membros do inner circle, inclusive dos porões onde guardamos nossos retratos que Oscar Wilde esboçou. Ela sabe da fealdade de cada um e aceita. Nunca foi moralista. Adelaide entende a espécie humana em geral e o gênero amigo em particular. Não convive com querubins, ainda que deteste mau-caratismo. Adelaide aceita contradições.
A memória? Um duplo prodígio! Lembra-se do muito que leu com a precisão de Funes, a personagem “memoriosa” de Borges. Cita com precisão. Escolhe a frase e engasta na conversa como ourives hábil. Surpreende. Impacta o ambiente. Alegra com o gênio agudo. Mas também espanta por ser a fonte cultural do teatro e da televisão do Brasil. Lembram daquela versão de Otelo antiga, representada em São Paulo? Ela se lembra e analisa. Conhecida de muitos e convidada como um prêmio para qualquer produção: é a Mnemósine da arte.
Adelaide é impaciente como eu. Não veio ao mundo com a virtude de Jó. Mulher de fé densa, comunga de uma metafísica especial. Ama seus filhos e netos. Cultiva os amigos com visitas aguardadas. Chega e sai como uma razzia islâmica no Mediterrâneo medieval. É exigente nas comidas, mas não pelo aristocratismo, todavia pelo genuíno prazer gastronômico. Odeia mesa pretensiosa.
Portuguesa de berço, brasileira de alma, paulistana no imo do coração. Sua casa está povoada de livros, cartazes, fotos de personagens importantes com ela. Compartilhou a vida cultural deste país inebriada como o barco de Rimbaud. Conversou, amou, influenciou e compartilhou todas as grandes ações culturais do último meio século.
Por vezes, ela baixa a guarda. Debaixo da alma haurida no Douro, deixa entrever uma miríade de sentimentos delicados, mil folhas de caboclos e de duquesas. O jato íntimo emerge como um cetáceo que respira depois das profundezas.
Uma vez, na casa dela, durante uma missa de Natal, ela me convidou e pediu que eu dirigisse os cantos. O celebrante era um dedicado homem de Deus, mas a fé não estimulara a afinação. Então, criei músicas, dirigi e reformulei o canto da liturgia adelaidiana com minha veia de mestre-capela cético. Quando cantávamos Seja fielela me dirigiu o olhar e murmurou, a sotto voce, “obrigada!”. Foi um lampejo.
Doutra feita, quando a levamos em casa após uma peça, ela se aproximou do rosto do Vitor e encostou a bochecha dela na dele, manifestando com voz e epiderme seu afeto. Foi lindo, original e espontâneo.
Ela não proclama tudo, mas eu a vejo em testemunhos indiretos. Tardiamente, li Morangos Mofadosde Caio Fernando Abreu. De repente, no meio de um conto, ele escreve que dedicava a Maria Adelaide Amaral. Perguntei e ela me falou da amizade com o escritor gaúcho. Esta é uma de milhares de histórias de amizades, livros, peças e séries de TV.
Paola Prestes (amiga de vida toda), Vitor Fadul e eu vamos a eventos e jantamos. Temos um grupo de zap chamado ágape, a forma refinada de amor-doação. Temos experimentado a sutileza do afeto genuíno com admiração pelas idiossincrasias de cada um.
O que se pode dizer de uma amizade genuína? Aquilo que Montaigne exprimiu sobre La Boétie. Por que amo Adelaide? Porque era ela, porque era eu. Somente isto. Sem adjetivos a mais. É Adelaide.
Minha confreira da Academia Paulista de Letras parece ter vivido muitas vidas em uma. Viajou bastante, conheceu muita gente, amou e passou por desafios, do sequestro do irmão a um câncer. Houve uma trilha de lágrimas e de amores. Fortaleceu-se e tornou-se indispensável aos que a cercam. Virou, para mim, superlativa: Adelaidíssima, Adelaidérrima.
Como outra lusa de truz, é uma “pequena notável” que as moiras fizeram cruzar o oceano e, da sua trípode sibilina em Higienópolis, profetiza para todos que a cercam sobre um mundo melhor e possível, mais justo, mais inteligente e mais sutil. Eu me emociono ao pensar nela e na biografia fulgurante que o talento dessa mulher construiu.
Obrigado, minha vida, em meu nome e do Vitor, em nome da Paola e de todas as pessoas que podem ostentar no currículo estar ao seu lado. Sigo feliz. Amanhã, dia 1º, completo 63 anos. Orgulho-me de amigos tão especiais, meus verdadeiros presentes, como Maria Adelaide Amaral. Minha vida se enche de esperança no ágape da amizade. Parabéns a nós pelo amor e pela amizade.