Elogio ao nada: o que o filósofo do cansaço me ensinou sobre a urgência de parar – e dançar

Elogio ao nada: o que o filósofo do cansaço me ensinou sobre a urgência de parar - e dançar

Importante pensar no nada. Vários filósofos vêm indicando a mente vazia para a saúde – da sociedade e do corpo. Os gregos antigos, por exemplo, incentivavam o ócio (que chamavam de scholē).

Para Aristóteles, era a condição mais elevada da humanidade. Um tempo livre onde a pessoa podia se dedicar ao que realmente importava: criar, imaginar e ficar de bôua. Era bom para o pensador e melhor ainda pra civilização – porque dessa cabecinha grega oca surgiram ideias transformadoras para a medicina e para o teatro; apareceu a lógica, o Teorema de Pitágoras e até a própria democracia. Não há relatos de TDAH em Atenas ou Esparta.

Corta para o século 21. Veio então um sul-coreano, o Byung-Chul Han, filósofo também. Ele escreveu o livro Sociedade do Cansaço.

Nesta obra, o autor defende que estamos numa sociedade que busca produtividade e desempenho o tempo todo. Postando, fazendo live, dando pitaco na vida dos outros, topando fazer zoom no domingo às nove da manhã – vocês conhecem o esquema. O mesmo sujeito que na Grécia ficava pensando na morte da bezerra, comendo pão pita com azeite e inventando a democracia, agora não desliga do celular e sofre de Transtorno de Ansiedade Generalizada.

Segundo o Byung-Chul, esse comportamento de atenção constante se assemelha ao do bicho selvagem – que, se marcar touca, acaba atacado por outros bichos. Não sei o impacto nos animais, mas isso deixa os humanos estressados, ansiosos e deprimidos. O cérebro não descansa, sempre se exercitando. Aí fica doendo que nem acontece com os músculos.

A sociedade está mais preocupada com sua produtividade e esquece que o ócio tem inúmeros benefícios Foto: Robert Latawiec/Adobe Stock

E qual seria a saída para o coreano; de que maneira a gente se diferenciaria dos bichos – ficando longe de transtornos modernos? Segura essa: dançando. Animais não têm ritmo nem samba no pé. Funciona como metáfora de leveza; uma existência capaz de curtir um groove – em vez de ficar buscando rendimento e tarja preta. É o contraponto à sociedade do cansaço. Enquanto nela estamos o tempo todo correndo atrás do rabo, na dança a gente só quer aumentar o som e rebolar feito Elvis.

Adorei a ideia. Não que eu seja um John Travolta ou um Bruno Mars – mas, quando acontece, a única performance que importa sou eu escorregando de joelhos ao som de Prince. Tocando guitarra imaginária. Brother, eu solto a franga e reinvento a Fórmula de Bhaskara. Me sinto ótimo. Na música, tenho muito mais opções do que nas farmácias. Michael Jackson é tão eficiente quanto Frontal e não precisa de receita azul. Com ainda uma vantagem: dá pra dançar a dois.

Veja também

CLÓVIS DE BARROS: ‘Há uma angústia em ser livre. Por isso os livros de autoajuda fazem sucesso’

No episódio de hoje, o filósofo e escritor Clóvis de Barros topou mostrar seu acervo de livros.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Notícias Recentes