Como medir o envelhecimento e prever a morte

Como medir o envelhecimento e prever a morte

Costumamos medir a duração de nossa vida em anos. Essa medida de tempo é baseada em um relógio astronômico, a duração de uma volta da Terra em volta do Sol.

Essa é uma maneira de medir o tempo que é externa ao que acontece no nosso corpo. Mas funciona razoavelmente bem. Conseguimos acompanhar com quantos anos uma criança troca os dentes. Mas esse relógio astronômico não mede o tempo interno do nosso corpo, aquele que determina nosso envelhecimento e morte.

Diferentes pessoas ficam com cabelos brancos em diferentes tempos do relógio astronômico. Sabemos também que certas doenças aceleram o envelhecimento e certos cuidados retardam a morte. E que diferentes partes do corpo envelhecem de maneira diferente em cada pessoa. Algumas têm um coração que envelhece antes do cérebro, outras têm um cérebro que passa a falhar muito antes do coração. O resultado é que o relógio astronômico (anos decorridos) não é útil para prever a data da morte ou a velocidade do envelhecimento.

Parece que finalmente temos uma ferramenta que permite acompanhar o processo de envelhecimento e prever nossa morte com maior precisão. Foto: Adobe Estoque

É por esse motivo que os cientistas vêm tentando construir um relógio para medir nosso envelhecimento com base em fenômenos que ocorrem no interior do nosso corpo. Faz décadas que versões simples desses relógios têm sido propostas.

Podemos construir um relógio baseado no aparecimento e decadência de habilidades mentais, ou no acúmulo de placas nas artérias e assim por diante. Relógios desse tipo têm a capacidade de prever o momento da morte e a velocidade do envelhecimento de maneira mais precisa que o simples passar do tempo astronômico, mas eles são pouco generalizáveis para toda a população pois acompanham somente um aspecto do processo.

Um relógio baseado em fenômenos que ocorrem no nosso corpo tem duas vantagens: ele mede de maneira precisa o envelhecimento de cada parte do corpo, em cada indivíduo (lembre que cada um de nós tem um genoma diferente e vive experiências diferentes ao longo da vida), e permite validar com precisão os efeitos de medicamentos que diminuam ou afetem o ritmo do envelhecimento. E se ele for muito bom, permite prever com precisão a data da morte.

A novidade é que os cientistas desenvolveram um relógio desse tipo. Nosso genoma possui por volta de 20 mil genes. Em cada tecido, em cada célula, e em cada momento, uma fração desses genes está ligada (se expressam) e outros estão desligados. Existem tecnologias que permitem fazer uma minúscula biópsia e remover um pedaço de cada tecido. Esse tecido pode ser colocado em uma máquina que determina quais dos 20.000 genes estão se expressando no momento em que o tecido foi colhido. E isso pode ser repetido em cada tecido muitas vezes ao longo da vida de uma pessoa.

Para construir e calibrar o relógio foram analisadas 11.000 amostras coletadas em 25 tecidos diferentes ao longo da vida de quatro espécies de mamíferos (camundongos, ratos, macacos e humanos). Essas amostras foram retiradas de indivíduos saudáveis, com doenças, ou tratados com drogas que retardam o envelhecimento. A quantidade de dados é imensa.

Com esses dados, foi possível fazer uma espécie de mapa temporal que descreve quando e onde cada um dos 20.000 genes está ligado ou desligado ao longo da vida de um animal, até logo antes da morte. É o ritmo, a sequência e a velocidade com que esses genes ligam e desligam no corpo que determina o passar do nosso tempo interno. E esse mapa pode ser facilmente correlacionado com cada acontecimento no nosso corpo, o nascer dos dentes, a falha cerebral, o envelhecimento do fígado. Isso porque é exatamente o ligar e desligar de genes que determinam esses processos.

Os cientistas conseguiram selecionar 20 conjuntos de genes, cada um com entre 30 e 630 genes, cuja análise permite acompanhar o envelhecimento de um indivíduo, o progresso de doenças crônicas e o efeito de drogas. E permite prever com razoável precisão a probabilidade de morte no futuro próximo. O interessante é que esses mesmos genes funcionam para acompanhar a vida das quatro espécies analisadas.

Com base nesses dados, produziram um software que calcula nossa idade interna. Você coloca os dados de expressão gênica e ele informa, por exemplo, que seu fígado, no momento da coleta, está à beira do colapso.

Como essas medidas de expressão gênica ainda são muito complexas e caras, não devemos esperar que essa tecnologia chegue rapidamente aos laboratórios de análises clínicas ou hospitais, mas ela já está sendo usada para avaliar drogas e procedimentos que podem retardar o envelhecimento.

Parece que finalmente temos uma ferramenta que permite acompanhar nosso processo de maturação e envelhecimento e prever nossa morte com maior precisão. É um relógio que permite acompanhar e medir a passagem do tempo como ela ocorre no corpo de um mamífero. É um grande passo, mas não sei se gostaria que me informassem quando é provável que vou morrer.

Mais informações: Marcas transcriptômicas universais do envelhecimento e mortalidade dos mamíferos. Natureza https://doi.org/10.1038/s41586-026-10542-3 2026

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