A economia brasileira, especialmente o mercado de trabalhocontinua desafiando a lógica das expectativas racionais, segundo a qual os agentes econômicos utilizam todas as informações disponíveis para projetar o futuro e, em média, acertam suas previsões. Com a taxa básica de juros acima de dois dígitos há meses, esperava-se uma desaceleração econômica acompanhada de enfraquecimento do emprego. No entanto, apenas a primeira previsão parece se confirmar, já que a taxa de desemprego segue em patamar historicamente baixo.
Não há consenso entre os economistas sobre o que explica a manutenção da baixa desocupação no Brasil, mesmo com a Selic em alta contínua desde setembro de 2024. Atualmente em 15%, a taxa, descontada a inflação, equivale a um juro real de 9,36% ao ano. As mudanças na política monetária costumam levar de seis a nove meses para impactar a economia. Com os aumentos da Selic desde o fim do ano passado, há um estoque de altas de juro freando a atividade e outro que teoricamente ainda começará a desacelerá-la.
No entanto, a taxa de desemprego no trimestre terminado em junho caiu para 5,8% da proporção da População Economicamente Ativa (PEA), segundo os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “É um caso a ser estudado”, diz o ex-secretário do Tesouro Nacional e atual economista-chefe do BTG Pactual, Mansueto Almeida. “Com essas taxas de juros, em qualquer outro país, estaríamos falando em recessão. Não é o que acontece no Brasil”, observa.
Gabriel Galipoloatual presidente do Banco Central (BC)não esconde que uma de suas principais dificuldades é tentar explicar a seus pares o dinamismo da economia brasileira, mesmo com o País carregando uma das maiores taxas de juros do planeta. Em termos nominais, a Selic fica atrás somente do juro básico da Turquia, de 46% ao ano, Argentina com 29% e Rússia em 18%. Em termos reais, descontada a inflação, o Brasil tem a segunda maior taxa do mundo, atrás apenas da Turquia, que convive com um juro real de 14,44% ao ano.
As explicações para o baixo desemprego, neste contexto, são atribuídas a fatores como mudanças estruturais no mercado de trabalho — seja por costumes adquiridos na pandemia, resultados das reformas trabalhista e previdenciária —, e a efeitos de incentivos fiscais, das transferências de renda e da valorização do salário mínimo. Mas falta consenso entre os especialistas.
A sócia e economista da BuysideBrazil, Andrea Damico, afirma ser “bem difícil explicar a resiliência do mercado de trabalho”, mas aponta, entre as possíveis razões, a defasagem temporal do impacto dos juros altos sobre o emprego. Já o chefe de macroeconomia da Kinitro Capital, João Savignon, avalia que, no curto prazo, a força do mercado de trabalho resulta de uma combinação de fatores — com destaque para o dinamismo na criação de vagas, especialmente no setor de serviços.
Mansueto ressalta que os economistas ainda não têm uma resposta definitiva para o fenômeno, apenas hipóteses. Segundo ele, não é comum que, em uma economia em desaceleração, o desemprego continue caindo. Para o segundo trimestre, projeta crescimento de apenas 0,2% do PIB. Há, porém, quem aposte em um avanço de até 0,4%, ainda assim muito distante dos 1,4% registrados no primeiro trimestre.

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse que tem dificuldades para explicar a outros banqueiros centrais a questão da resiliência do emprego no Brasil Foto: Nilton Fukuda/Estadão
“Como a gente vinha aumentando os juros desde setembro, o que aconteceu em janeiro, fevereiro e março foi mais ou menos o esperado: desemprego crescendo. Só que em abril, maio e junho o desemprego caiu, o que é totalmente atípico. Ninguém sabe explicar muito bem o que está acontecendo. Tem várias hipóteses e uma delas é que pode estar tendo uma mudança estrutural no emprego pós-pandemia”, afirmou.
Explicações para resiliência do desemprego
Além de mudanças estruturais, analistas apontam ainda o fim do bônus demográfico e efeitos das reformas trabalhista e previdenciária como possíveis explicações para o desemprego em queda.
Mansueto Almeida diz que a força no emprego, na verdade, vem de apenas alguns setores e que os demais já sentem a desaceleração da economia.
Segundo ele, dados do IBGE mostram que o emprego ligado ao setor de saúde cresceu em todos os anos no pós-pandemia. O mesmo ocorre em atividades ligadas à Tecnologia da Informação (TI) e motociclistas por aplicativos de entregas.
“Quando separamos saúde, entregador em moto e emprego no setor de TI, os outros tipos já estão mostrando desaceleração no crescimento. Contudo, mesmo que não tivesse crescimento dessas vagas, a taxa de desemprego no Brasil ainda estaria baixa, próxima de 8%”, ressalta o economista, acrescentando que ela deve permanecer perto desses níveis. “Esse governo deve terminar com desemprego na casa dos 7%, abaixo de 7,5%”, prevê.
A diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, Solange Srour, afirma que a pandemia provocou queda acentuada na taxa de participação — a parcela da população ativa trabalha ou procura emprego. O efeito foi se dissipando com a recuperação econômica, mas ainda há resistência de parte da população em voltar ao mercado de trabalho, um fator inibidor à oferta de mão de obra.
“Desde o segundo semestre de 2020, a forte elevação das transferências de renda — tanto em volume quanto em valor real — passou a exercer pressão baixista sobre a participação”, diz Solange. Ainda de acordo com ela, a relação entre o benefício médio e salário mínimo se acentuou desde o final da pandemia, reduzindo o incentivo econômico à busca imediata por emprego, sobretudo em faixas de menor renda e qualificação.
Para Mansueto, há dúvidas em relação à abrangência deste efeito. Ele menciona um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) segundo o qual o crescimento dos programas sociais teve um efeito, mas de redução da oferta de trabalho de um grupo específico: mulheres em famílias com crianças pequenas.
“A mãe, como tem um programa social, termina ficando em casa para cuidar dos filhos, o que não é necessariamente ruim. O que esse estudo do FMI mostra é que talvez tenha tido um efeito não tão grande”, acrescenta.
As dúvidas também se estendem a como interpretar os dados de emprego. O economista Rodolfo Margato, da XP Investimentos, destaca que há indagações sobre as classificações das atividades informais dentro da Pnad Contínua. “Existe uma dificuldade em fazer uma análise clara dessas categorias, mas vemos que elas ganharam espaço no todo, com um crescimento muito forte nos últimos anos”, ponderou.
Gabriel Galípolo disse em evento da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), na segunda-feira, 11, que tem dificuldades para explicar a outros banqueiros centrais a questão da resiliência do emprego no Brasil.

Presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, durante palestra na reunião do Conselho Político e Social da Associação Comercial de São Paulo: difícil explicar a resiliência do emprego Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Segundo o presidente do BC, a renda do autônomo vem crescendo mais que a renda formal, historicamente, o que pode estar ligado a regras de reajustes e indexação do mercado de trabalho. No caso do autônomo, a renda ainda está diretamente associada aos movimentos da economia. “Como a economia tem crescido acima do projetado, temos visto a população com desejo de trabalhar nesta modalidade (informal)”, diagnosticou.
Mudança demográfica
Na avaliação do chefe de macroeconomia da Kínitro Capital, João Savignon, parte do nível atual do desemprego se deve não apenas à criação de vagas, mas também à menor pressão por parte de pessoas procurando trabalho. “A taxa de participação sofreu uma queda importante na pandemia e, embora tenha se recuperado, ainda se encontra em um patamar inferior ao observado no período pré-pandemia”, disse.
“A queda na taxa de participação pós-pandemia é um fenômeno mais complexo, tendo sido alvo de estudos por parte do BC, FGV e Ipea, envolvendo tanto os fatores cíclicos (conjuntura)estruturais (Demografia) e de políticas públicas, como os programas de transferência de renda”, observou Savignon.
Segundo Margato, da XP, a mudança do perfil do trabalhador reflete o que já aparece nas projeções de população feitas pelo IBGE para as próximas décadas: a expectativa de desaceleração do número de nascimentos e de envelhecimento da população. Ele aponta que a idade média do trabalho, que décadas atrás girava em torno dos 25 anos, agora está mais próxima dos 40 anos.
Reforma da Previdência e trabalhista
Para Srour, do UBS Global Wealth Management, “reformas estruturais, como a trabalhista de 2017 — que flexibilizou contratações e ampliou a formalização — e a previdenciária de 2019 — que incentivou a permanência de trabalhadores mais experientes na ativa —, contribuíram para reduzir o desemprego estrutural”.
Andrea Damico, sócia e economista da Buysidebrazil, avalia que a reforma trabalhista tornou o mercado de trabalho mais dinâmico. “Isso pode estar, sim, colaborando para essa resiliência mais estrutural. Outro ponto é um componente mais global pós-pandemia, que observamos acontecer em vários lugares do mundo. Tem a questão do trabalho híbrido aumentando a produtividade e isso também contribui para alguma ‘explosão’ salarial”, avalia.
O economista Bruno Imaizumi, da 4intelligence, também cita potenciais efeitos da reforma trabalhista de 2017 e mudanças demográficas e tecnológicas em curso no Brasil como fatores que colaboram com o baixo desemprego. “Todos esses fatores contribuem para uma taxa de desemprego mais baixa, e parte deles não entra no cálculo de hiato do produto ou da Nairu (taxa de desemprego neutra)”, observa.
Mansueto aponta que até mesmo a referência dos especialistas para o nível da Nairu pode ter mudado. “Talvez essa taxa natural de desemprego hoje seja menor. Essa mudança de composição de, por exemplo, setor de serviço intensivo em mão de obra. Quando coloca um bocado de pessoas dirigindo motocicleta para fazer entregas de comida, isso é trabalho intensivo. Isso aumentou bastante pós-pandemia.”