Ivair Gontijo, engenheiro brasileiro da Nasa, explica particularidades das viagens ao Planeta Vermelho.
A plateia que lotou o auditório principal da Faap no São Paulo Innovation Weekmaior festival global de tecnologia e inovação, realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, no início da noite desta quinta-feira, 14, não assistiu a uma palestra tradicional. Sem roteiro definido, o astrofísico Marcelo Gleizer e o divulgador científico Pedro Loos conduziram uma discussão sobre ciência, filosofia, tecnologia e dilemas éticos contemporâneos.
A proposta era essa mesmo: discutir, em clima de improviso, a partir de uma ideia simples: as perguntas que movem o mundo. Em vez de apresentar respostas prontas, os dois reforçaram a importância da dúvida e do questionamento, algo raro numa época em que todas as respostas são conseguidas com bons cliques.
Gleiser é um dos intelectuais brasileiros de maior projeção internacional, sendo o primeiro latino-americano a vencer o Prêmio Templeton, em 2019. Do outro, Pedro Loos, criador do Ciência Todo Dia, canal de divulgação científica com milhões de seguidores e que trata de temas complexos em linguagem acessível.
O melhor festival global de tecnologia e inovação aterrissa em uma das cidades mais potentes do mundo.

O astrofísico Marcelo Gleiser e o divulgador científico Pedro Loos no São Paulo Innovation Week Foto: Gonçalo Junior / Estadão
Foi um encontro entre duas gerações de comunicadores da ciência. Gleiser, mais filosófico e cauteloso diante das promessas tecnológicas. Loos, mais otimista em relação ao potencial transformador das novas fronteiras da exploração espacial e da inteligência artificial.
Mesmo assim, os dois convergiram em um ponto central: ciência não é um conjunto de certezas absolutas, mas um processo de investigação. E o público – alguns até sentados no chão depois que todos os lugares foram ocupados – embarcou nessa caminhada.
Interesses por trás da corrida espacial
A exploração espacial foi um dos temas iniciais. Ao comentar o programa Artemis, da Nasa, que pretende levar seres humanos novamente à Lua, Loos afirmou acreditar que iniciativas privadas podem abrir caminho para uma exploração mais ampla do espaço.
Gleiser, por sua vez, alertou para os interesses econômicos. “Na época da Apollo, havia uma disputa geopolítica. Hoje existe um interesse privado, de exploração econômica.”
Quando o assunto migrou para Marte, Gleiser foi ainda mais incisivo e criticou a ideia de transformar o planeta vermelho em uma alternativa para a sobrevivência humana. Essa “possibilidade” está presente em discursos futuristas.
“Somos 8 bilhões de pessoas. Quem vai decidir quem vai para Marte? Quem fica? Existe uma visão elitista nessa narrativa de abandonar a Terra porque não conseguimos resolver nossos próprios problemas”, disse.
Loos concordou que a colonização marciana está distante da realidade prática e afirmou que, hoje, a principal justificativa plausível para missões ao planeta é científica.
Leia também
Estamos sozinhos?
Ao abordar a vida extraterrestre, Gleiser e Loos revelaram abordagens diferentes para a mesma inquietação.
Loos acredita que, dadas determinadas condições químicas, a vida tende a surgir naturalmente. Citou inclusive indícios de antigos depósitos minerais em Marte que sugerem que o planeta pode ter abrigado formas de vida bilhões de anos atrás.
Gleiser enfatizou o tamanho da incógnita científica. “A vida complexa existe na Terra há cerca de 500 milhões de anos. Não sabemos ainda como exatamente ela surgiu aqui. Astrônomos olham para o universo e enxergam infinitos planetas possíveis. Biólogos lembram que ainda não entendemos o nascimento da vida nem no nosso planeta.”
O físico também levantou uma hipótese discutida por pesquisadores: a possibilidade de que a vida na Terra tenha surgido a partir de microorganismos transportados em meteoritos vindos de Marte. “Se isso fosse verdade, nós seríamos marcianos”. Vários riram na plateia.
O encontro terminou com uma reflexão sobre o papel do Brasil na produção científica global. Gleiser criticou a dependência brasileira de commodities e afirmou que o País ainda falha em transformar conhecimento em tecnologia competitiva.
“Somos uma potência agropecuária e de mineração. Quantas marcas de tecnologia produzidas aqui fazem parte do cotidiano das pessoas? Ainda não criamos tecnologia competitiva globalmente”, afirmou.
Ó São Paulo Innovation Weekmaior festival global de tecnologia e inovação, é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, até sexta, 15. Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias do evento estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre muitas outras.