UM segurança pública no Brasil enfrenta um placar desfavorável: “Já está 7 a 1 para a criminalidade”, alertou o ex-procurador-geral de Justiça do Rio de Janeiro, o advogado José Eduardo Ciotola Gussem. “Se não nos unirmos e não nos organizarmos, vamos perder cada vez mais.”
O diagnóstico sobre a necessidade urgente de o Estado se tornar “mais organizado que o crime organizado” foi o foco da palestra Da Pesquisa ao Algoritmo: O Impacto da Tecnologia na Segurança Públicanão São Paulo Innovation Week (SPIW)maior festival global de tecnologia e inovação. O evento é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, até sexta-feira, 15.
O advogado José Eduardo Ciotola Gussem, sócio do escritório Gussem Lemos Bastos e ex-procurador-geral de Justiça do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, em palestra no no São Paulo Innovation Week (SPIW). Foto: Júlio César Almeida/Estadao
Com nomes de destaque no debate sobre segurança pública, o painel mostrou que a única forma de reverter esse jogo é por meio do uso de tecnologia.
O melhor festival global de tecnologia e inovação aterrissa em uma das cidades mais potentes do mundo.
“O ser humano nunca vai ser substituído. Sempre vamos ter o policial em campo. Mas hoje não conseguimos mais distanciar a tecnologia do trabalho investigativo. Temos muito mais policiais trabalhando internamente, nos nossos laboratórios, fazendo cruzamentos de dados. Isso cria provas mais robustas”, defendeu o delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, Artur Dian.
“O nosso sonho de consumo é que a tecnologia chegue de forma rápida e eficaz para a gente mostrar que o Estado pode ser mais organizado que o crime organizado”, afirmou o procurador-geral de Justiça de São Paulo, Paulo Sergio de Oliveira Costa.
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Câmeras corporais
Oliveira Costa avalia como vital o uso de câmeras corporais pelos agentes de segurança. “Serve como proteção para o cidadão e, principalmente, para o próprio agente.”
Para o procurador-geral, porém, o equipamento não é estratégico apenas em casos de violência policial, mas em todas as investigações. “A gravação é uma prova extremamente preciosa na construção e defesa do caso para a Justiça.”
Palestra ‘Da investigação ao algoritmo: o impacto da tecnologia na segurança pública’ no São Paulo Innovation Week. Foto: Júlio César Almeida/Estadao
“As imagens mostram o caminho do crime. A vítima entrou por aqui. O primeiro tiro foi nesse local. Ela andou dois metros e caiu aqui”, exemplifica.
Ele ainda destacou que o Ministério Público de São Paulo está em tratativas com a Prefeitura da capital para a implementação das câmeras também pela Guarda Civil Metropolitana (GCM), que conta com um efetivo de 7.500 homens. “Por ora, depende do Orçamento municipal”, disse, sem informar prazos nem perspectiva de que a medida ocorra ainda neste ano.
Monitoramento de redes sociais
O delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, Artur Diancita como exemplo de uso da tecnologia o núcleo de observação e análise digital da corporação, que, segundo ele, foi essencial no combate aos ataques em escolas. “A tecnologia foi fundamental para descobrirmos onde era a mobilização desses adolescentes. Muitas vezes, pensamos que é na deepweb. Mas eles estão no Instagram e no TikTok.”
De acordo com o delegado, o grupo já salvou mais de 384 pessoas em casos de mutilação e suicídio por meio do monitoramento das plataformas. “Através desse rastreamento cibernético, conseguimos detectar que uma menina cometeria suicídio ao vivo no TikTok. Então, ligamos para a mãe dela para avisá-la e conseguimos salvar a jovem.”
Combate a feminicídios
Com uma gestão na Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (2023-2025) marcada pelo recorde de feminicídios no Estadoo deputado federal Guilherme derrete (PL-SP) defendeu o uso de tecnologia para enfrentar o cenário.
Ele destacou como uma das principais inovações de sua administração na pasta o uso de tornozeleiras eletrônicas e aplicativos de celular para monitorar o cumprimento de medidas protetivas da Lei Maria da Penha. Em caso de violação à restrição de distância da vítima, o programa aciona policiais para o local onde o agressor estiver para garantir a proteção da vítima.
“Era frustrante para nós (agentes de segurança e do Judiciário). Havia mulheres que às vezes tinham 10, 15 medidas protetivas, ou seja, todo o sistema criminal fez o seu trabalho. As polícias militar e civil atuaram e investigaram. O Ministério Público se manifestou. O Poder Judiciário concedeu a medida protetiva para aquela mulher. Só que somente o peso da lei não estava garantindo a segurança dela. Ou seja, mulheres com 15 medidas protetivas sofriam feminicídio”, aponta Derrite sobre o cenário antes do uso do dispositivo.
Segundo o ex-secretário, a eficácia do projeto foi de 100%. “Nenhum dos monitorados conseguiu se aproximar da vítima por conta do uso da tecnologia para romper o ciclo da violência.”
São Paulo Innovation Week

Público assiste palestra ‘São Paulo como Laboratório de Inovação Urbana’ no São Paulo Innovation Week (SPIW). Foto: Felipe Rau/Estadão
O São Paulo Innovation Week, maior festival global de tecnologia e inovação, é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, até esta sexta, 15.
Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias do evento, estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre muitas outras.