Veja o trailer de ‘Truque de Mestre 3’
Crédito: Paris Filmes/Divulgação
Em determinado momento de Truque de Mestre 3J. Daniel Atlas (Jesse Eisenberg) diz para Jack Wilder (David Franco) que eles são mágicos, não super-heróis. Esse pequeno trecho, quase insignificante em uma cena cheia de pirotecnia, é um sintoma maior do longa que chegou aos cinemas nesta quinta-feira, 13. Afinal, o diretor Ruben Fleischer (Veneno) parece não saber mais como fazer essa franquia crescer sem transformá-la em algo que ela nunca pretendeu ser.
Na história, parte do grupo de mágicos chamado de Os Quatro Cavaleiros (Eisenberg, Franco, Woody Harrelson e Ilha Fisher) se reúne novamente, anos depois, após serem invocados pelo Olho. No entanto, não são só os veteranos que partem para mais uma missão envolvendo assalto e mágica. Um grupo de jovens descolados, interpretados por Justice Smith, Dominic Sessa e Ariana Greenblatt, entra no caminho dos tais Cavaleiros com mais truques e ilusionismo na manga.

‘Truque de Mestre 3’ tem personagens demais em trama inchada Foto: Paris Filmes/Divulgação
Como sempre, a base deste novo Truque de Mestre é a mágica. Esses sete ilusionistas — mais participações especiais aqui e ali — são os responsáveis por impedir que uma magnata (vivida por Rosamund Pikecom um sotaque russo questionável) leve a melhor na venda de um diamante gigante. Tudo, em comparação com os dois filmes anteriores, tenta ser maior, mais impactante, mais grandioso. É a necessidade de fazer sequências que se justifiquem por terem histórias mais complicadas, e não melhores — o que inevitavelmente leva a problemas.
Quando a mágica vira CGI
Truque de Mestre 3desde o primeiro momento, soa mais como um filme de super-herói do que como um filme de mágica. É algo que o segundo longa-metragem já tinha de alguma forma, mas que aqui se torna impossível de ignorar. Os truques deixam de ser engenhosos e surpreendentes para se tornarem espetáculos de efeitos visuais — e quando tudo é feito por computador, onde está a ilusão? Onde está o encanto de não saber como aquilo foi feito?
O problema central é simples: mágica funciona pela limitação, pela impossibilidade aparente. Quando os personagens começam a fazer coisas que claramente só são possíveis com CGI, perde-se toda a graça. Não há mais o prazer de tentar descobrir o truque, porque você sabe que não há truque, apenas pixels. Fleischer, que já demonstrou em Veneno sua preferência pelo caos visual, parece perdido aqui. As cenas de ação são frenéticas e editadas de forma confusa, tornando difícil acompanhar quem está fazendo o quê.
Personagens demais e roteiro em retalhos
A adição de novos personagens jovens é, ao mesmo tempo, o melhor e o pior do filme. Justice Smith, Dominic Sessa e Ariana Greenblatt trazem energia, mas isso significa que o roteiro precisa fazer malabarismos entre sete personagens principais, e nenhum deles recebe desenvolvimento satisfatório.
Os veteranos ficam relegados a papéis secundários em sua própria franquia. Eisenberg parece entediado, Woody Harrelson tenta salvar suas cenas com carisma puro, e Isla Fisher e Dave Franco praticamente desaparecem. Os novos Cavaleiros são apresentados de forma apressada e nunca ganham profundidade real. No final, é difícil se importar com qualquer um deles, principalmente com atuações questionáveis de Smith e de Greenblatt.
Rosamund Pike, uma atriz talentosíssima, está completamente desperdiçada como vilã caricata. Não há tensão real, não há sensação de perigo. Mesmo quando os Cavaleiros são “capturados”, sabemos que vão escapar facilmente, porque este é um universo onde nada tem consequências reais.
Quatro roteiristas são creditados, e isso transparece em cada cena. O filme parece uma colcha de retalhos de ideias desconexas, com piadas que não funcionam, reviravoltas previsíveis e diálogos artificiais. As revelações finais tentam recriar a surpresa do primeiro filme, mas caem completamente chapadas. Quando tudo pode ser uma ilusão, nada importa.

Morgan Freeman, coitado, faz apenas uma pequena ponta como Thaddeus Bradley Foto: Paris Filmes/Divulgação
Há algo curiosamente datado em Truque de Mestre 3. Ele parece um artefato de 2013, quando esse tipo de thriller de “gente esperta fazendo coisas espertas” ainda tinha apelo. Sabemos exatamente o que esperar: truques elaborados, reviravoltas previsíveis, personagens arrogantes. Não há risco, não há ousadia, não há nada que justifique esta sequência além do potencial comercial.
O truque que não funciona mais
Seria injusto dizer que o filme é completamente desprovido de méritos. Há sequências genuinamente divertidas, especialmente nas interações entre os personagens originais. Uma cena deles tentando escapar de um tanque, por exemplo, é a essência da franquia. O elenco se esforça ao máximo, e há um senso de humor autoconsciente que funciona ocasionalmente. Quando abraça sua natureza de entretenimento descartável, Truque de Mestre 3 consegue arrancar alguns sorrisos.
Mas no fim, o filme é vítima da armadilha comum das sequências: mais é confundido com melhor. Mais personagens, mais truques, mais efeitos — no lugar de mais coração, mais criatividade ou mais razão de existir. Ao transformar tudo em espetáculo de CGI, o filme trai sua própria premissa e esquece o que tornava o conceito original interessante.
Como o próprio filme admite, eles são mágicos, não super-heróis. A pena é que ninguém tenha levado esse aviso a sério. Ao tentar ser tudo, Truque de Mestre 3 esquece de ser o que importa: mágico.