Quem é o cientista brasileiro conhecido como ‘caçador de tornados’

Quem é o cientista brasileiro conhecido como ‘caçador de tornados’

Por que ocorrem tantos tornados no Brasil?

Geógrafo Daniel Cândido, doutor em análise ambiental pela Unicamp, explica a formação desses eventos extremos. Crédito: Daniel Cândido

Ó blockbuster americano Torcidode 1996, mostra os atores Bill Paxton e Helen Hunt como cientistas caçadores de tornados. No Brasil, pesquisadores que correm atrás desses fenômenos existem, mas o trabalho é diferente daquele visto no cinema.

O geógrafo Daniel Henrique Cândidodoutor em análise ambiental pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), registrou 312 tornados no Brasil desde meados do século passado até hoje. Destes, 107 ocorreram nos últimos 13 anos, média de 8 por ano, segundo o especialista.

Cândido começou a pesquisar esses fenômenos para sua tese de doutorado, o que lhe valeu, entre os acadêmicos, o apelido de “caçador de tornados”. Nesta semana, o Brasil voltou a prestar mais atenção nesses fenômenos (mais comuns nos Estados Unidos, onde se passa o filme) após tornado destruir Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, deixando sete mortos e um raio de destruição.

Hoje ele atua na iniciativa privada, como especialista em recursos naturais, mas não tirou os olhos dos eventos extremos. “Depois da tese, continuei pesquisando e catalogando. Este tornado em Rio Bonito do Iguaçu está certamente entre os mais severos que já catalogamos. É parecido com o de Indaiatuba, em 2005, mas foi mais letal por ter atingido em cheio a área urbana”, diz.

O evento no Paraná foi classificado como F3 na escala Fujita, que vai de F0 a F5, conforme a intensidade dos ventos. Cândido diz que o tornado de Indaiatuba foi um F4, tendo até sido cogitado para a escala máxima. Como atingiu a área industrial, destruiu fábricas, mas não deixou mortos.

Na falta de registros oficiais organizados, o pesquisador reuniu dados dos eventos com base em relatos, fotos, vídeos e notícias de jornais, além de pesquisas científicas. “É possível que outros tornados tenham ocorrido no período pesquisado, mas não foram vistos ou não causaram danos expressivos. Na época dos mais antigos, não tínhamos celular nem as tecnologias que hoje são ferramentas importantes para registrar esses fenômenos e seus impactos”, conta o especialista.

Polígono dos tornados no Brasil

Com os dados obtidos, o pesquisador usou técnicas de geoprocessamento para fazer a distribuição dos episódios pelo território nacional, identificando o chamado ‘polígono dos tornados’. No Brasil, o corredor começa no Rio Grande do Sul e avança até o Centro-Oeste, pegando todos os Estados do Sul, mais São Paulo, Mato Grosso do Sul e partes de Minas Gerais e Goiás.

Para o geógrafo, não há surpresa no fato de a região Sul concentrar a maioria dos tornados do Brasil. “A Cordilheira dos Andes a oeste intercepta os canais de umidade que saem da Amazônia e joga para o Sul do País”, explica.

“As massas de ar frio que sobem da Patagônia se encontram com as massas de ar quente e úmido, criando condições para tempestades mais fortes. É uma área relativamente plana com relevo que favorece o encontro de massas de ar”, acrescenta o especialista.

A região favorece também tempestades e chuvas intensas, como as que causaram as grandes enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, e ciclones extratropicais. Ele lembra que em março de 2004, um ciclone extratropical se formou no Atlântico Sul, evoluiu para ciclone tropical e atingiu a terra firme em Santa Catarina com a força de um furacão da categoria 2.

O evento deixou 11 mortos e mais de 500 feridos, além de destruição. “Diferente do tornado, o furacão é de maior amplitude geográfica, podendo atingir centenas de quilômetros”, continua.

Dos 107 tornados registrados desde 2012 no Brasil, 67 ocorreram na região do polígono, sendo 21 no Rio Grande do Sul e 14 em Santa Catarina. São Paulo teve 9 ocorrências, o que coloca a população paulista bem na rota dos tornados. “Como é um Estado densamente povoado, praticamente nenhuma ocorrência fica sem registro”, diz Cândido.

Ele observa que, embora o número de tornados esteja aumentando, não é possível cravar que isso se deve às mudanças climáticas. “É provável que seja, mas precisamos levar em conta que as tecnologias e maior facilidade de registro ajudam a identificar os tornados, contribuindo para engrossar a lista deles. No caso de Rio Bonito do Iguaçu, por exemplo, muitas câmeras de vigilância do comércio e das casas registraram a ação do vento.”

A meteorologista Ana Ávila, do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura da Unicamp, confirma que o Brasil está entre os países com potencial de desenvolvimento de tempestades severas. “Historicamente, os estudos apontam que a Região Sul é predominante para esses eventos. A área de maior risco é o oeste dos Estados do Sul, desde o Rio Grande do Sul, passando pelo oeste catarinense, até o oeste do Paraná.”

Ana participou de projeto liderado por um pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) no qual foram levados instrumentos e sensores para a fronteira da Argentina com o Brasil para avaliar as condições para tornados. “Havia cientistas americanos e argentinos também. Foram ali porque é exatamente a área de risco do Brasil, onde podem ocorrer eventos potencialmente mais severos”, diz.

A meteorologista afirma que, apesar disso, o Brasil está longe de competir com os Estados Unidos nesse quesito. “Lá, eles têm uma temporada propícia, são altos riscos, vários tornados acontecendo simultaneamente, em escalas maiores até, porque a escala do tornado, de acordo com a intensidade dos ventos, vai até F5, que ainda não tivemos aqui.”

Para ela, nem sempre o tornado mais letal é o mais severo. “Este que aconteceu no Paraná está entre os mais letais, até por conta da área que ele atingiu. Pegou uma área urbana inteira, o que favorece o desastre. Depende muito da intensidade do fenômeno e da área em que ele ocorre. Se você tem um F3, em uma área urbana, realmente o desastre é imenso. O impacto está associado também à hora que acontece, o tipo de região e de construção.”

O meteorologista Franco Vilella, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), diz que a falta de uma estatística com registros oficiais não permite afirmar que os tornados estão ficando mais frequentes no País. “Por se tratar de um fenômeno localizado – um tornado pode ter de uma dezena de metros a uma dezena de quilômetros de diâmetro – podem não ser visualizados por terem ocorrido à noite ou por ter sua constatação visual prejudicada por causa da chuva ou por às vezes durarem menos de um minuto.”

As ocorrências podem ser inferidas por meio dos danos provocados ou por assinaturas típicas em radares meteorológicos que podem ser corroborados pela análise de índices atmosféricos. O Inmet não opera radares meteorológicos e não tem um banco de dados de tornados. No país, segundo o meteorologista, ainda não existe um banco de dados unificado com metodologias aceitas amplamente acerca da ocorrência de tornados.

Os 10 tornados mais severos no Brasil

Os tornados são classificados de F0 a F5 conforme a velocidade dos ventos, seguindo a tabela da Escala Fujita:

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60–110 km/h 120–170 km/h 180–240 km/h 250–320 km/h 330–410 km/h 420–510 km/h

A classificação inicial de um tornado pode mudar, depois de estudos e análises sobre os impactos que causou. Estes foram os dez com maior letalidade, não sendo necessariamente os mais severos nessa ordem:

  1. 1959 – União da Vitória e Palmas (PR), Canoinhas (SC) / 90 mortes: Um tornado atingiu as três cidades na divisa entre o Paraná e Santa Catarina, deixando um rastro de destruição e mortes. Bois foram levados pelo vento. Especialistas o categorizam entre F3 e F4.
  2. 1989 – Ivinhema (MS) / 17 mortes: Atingiu o centro do município, levando casas desde o alicerce e derrubando um clube onde estavam mais de 400 pessoas. Com mais de 160 feridos e ventos de mais de 250 km/h, foi categorizado entre F3 e F4.
  3. 1948 – Canoinhas/Matinhos (SC) / 16 mortes: Residências, escolas rurais, serrarias e casas foram destruídas. Veículos foram arremessados a centenas de metros. Mais de 80 pessoas ficaram feridas. Foi classificado como F3.
  4. 1991 – It (SP) / 15 óbitos: Com ventos de até 300 km/h, lançou para fora da pista um ônibus de estudantes, causando a maioria das mortes. Dobrou e retorceu 20 torres de transmissão, destruiu um hotel de luxo. Entre F3 e F4.
  5. 1992 – Borrazópolis (PR) / 12 mortes: O tornado atingiu uma faixa estreita da cidade, mas seu impacto foi muito grande, com destruição de tudo o que estava no caminho. Ao menos 200 pessoas ficaram feridas. Classificado como F3.
  6. 2025 – Rio Bonito do Iguaçu (PR) / 7 mortes: No dia 7 de novembro, a cidade foi arrasada pelo fenômeno com ventos de 330 km/h e classificação F3. Cerca de 750 pessoas ficaram feridas. Uma das mortes aconteceu em Guarapuava, cidade próxima.
  7. 1992 – Almirante Tamandaré (PR) / 6 mortes: Em maio daquele ano, a cidade foi atingida por um tornado, com a destruição completa de 430 casas. Além das mortes, houve 105 feridos. O evento foi classificado como F3 na Escala Fujita.
  8. 1997 – Nova Laranjeiras (PR) / 4 mortes: O fenômeno destruiu 80% da cidade. Muitas casas foram levadas pelos ares, inclusive as do prefeito e do vice na época. Ao menos 80 pessoas ficaram feridas. Especialistas colocaram o tornado como F3.
  9. 2009 – Guaraciaba (SC) / 4 mortes: O tornado, causado por uma super célula, atingiu oito comunidades na zona rural e havia sido classificado inicialmente como F3. Após a análise de casas de alvenaria que foram implodidas, foi reclassificado para a categoria F4.
  10. 2013 – Taquarituba (SP) / 2 mortes: A força do vento derrubou o ginásio de esportes, causando a morte de um jovem de 21 anos, e tombou um ônibus, matando o motorista. Centenas de casas foram danificadas e 74 pessoas ficaram feridas. Classificado como F2.

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