Itamar Vieira Junior fala sobre seu novo romance ‘Coração sem Medo’
Livro encerra a ‘trilogia da terra’ iniciada com Torto Arado. Crédito: Taba Benedicto/Estadão
Um dos escritores de maior sucesso no Brasil hoje, Itamar Vieira Junior lança seu novo romance, Coração Sem Medoesta semana. O livro, que finaliza a Trilogia da Terrainiciada por Torto Aradojá começa a chegar em algumas livrarias neste fim de semana.
Primeiro romance do autor ambientado no espaço urbano, Coração Sem Medo se passa em Salvador, onde Rita Preta, a personagem principal, vê a sua vida transformada quando vê um dos seus três filhos sumir sem deixar rastros na comunidade onde mora.

Itamar Vieira Junior na sede da editora Todavia, em São Paulo; autor de ‘Torto Arado’ encerra sua trilogia com ‘Coração Sem Medo’ Foto: Taba Benedicto/ Estadão
Na sua jornada em busca de respostas, ela enfrenta as possibilidades de perder seu emprego, seu relacionamento amoroso com um caminhoneiro, e até mesmo a própria vida, ameaçada pela atmosfera de violência e arbítrio que envolve o desaparecimento. Leia entrevista com o autor.
O lançamento é da editora Todavia.
Leia trecho de ‘Coração Sem Medo’, de Itamar Vieira Junior
Fazia muito tempo que Rita Preta não recordava o infortúnio que marcou sua vida de maneira definitiva, e assim continuaria não fosse a chuva repentina que transformava, à sua frente, o espaço entre a avenida e o meio-fio num pequeno riacho. Era sempre assim: imagens que despertavam memórias distantes, boiando e submergindo na corrente das lembranças. A água arrasta folhas secas, sacolas plásticas, fragmentos de objetos, papéis e até mesmo pequenos animais. A lembrança então chega renovada e repleta de detalhes. Ela aperta a bolsa contra a cintura e ajeita o guarda-chuva para se proteger do aguaceiro que prometia parar a cidade. Algumas pessoas sobem no banco do abrigo do ônibus enquanto outras se reúnem debaixo da cobertura de concreto — cuja área é insuficiente para proteger os que buscam fugir do dilúvio. Para se resguardar, dois homens se posicionam atrás da placa lateral de um anúncio de protetor solar. Eles ficam sob o vidro pontilhado de umidade condensada, resultado do calor que aquece a atmosfera.
Enquanto as pessoas se aglomeram num espaço minúsculo para não chegarem encharcadas ao seu destino, Rita Preta deixa de acenar para dois ou três ônibus em que poderia subir, com alguma dificuldade, e talvez pudesse chegar sem atraso ao supermercado onde trabalha. Tudo seguiria seu fluxo natural se não persistisse uma desconfortável angústia que a deixa paralisada por um instante. Seus olhos vagam em direção à água, que continua a correr para desembocar num bueiro. O fluxo se torna então o rio da infância; um véu claro banhado pela luz que atravessava o céu de um dia nublado. O tempo a desafiar o conhecimento meteorológico dos moradores do campo sobre as chances de que uma precipitação ocorra.
O rio, caminho sinuoso por onde percorrem seres e saberes, sonhos e mistérios, como contaram certo dia os mais velhos. Rita brinca com os irmãos, e se alguém pudesse contemplá-los de longe, divisaria uma paisagem tranquila. Rita, menina, risca a terra com um galho seco. Desenha assim a vida: um barco, o rosto da mãe, a agitação dos irmãos, uma casa, um filho, depois mais filhos e o mar, aquele mesmo mar que banhava o lugar de destino de sua mãe, onde as histórias haveriam de começar e terminar, como a própria vida. As crianças saltam nas águas do rio como se trotassem um cavalo alado. No outeiro, a casa velha e Carmelita, que os observa da porta dos fundos em meio à lida. O reflexo do branco das nuvens cega as duas por um momento. Rita e a avó; pelo menos a primeira vê a matriarca apertar os olhos para se certificar de que os netos estão próximos e a seu alcance. Então a menina entrevê por um instante a silhueta da mulher diminuindo, sumindo, voltando para casa. Tudo naquele momento parece tão insignificante, e talvez por isso fosse sentido, mesmo passado tanto tempo, como a calmaria que costuma anteceder as tormentas. Ela abandona o galho, entra na água. Remove um cascalho da beira, outro do leito, e os segura com as mãos, e quando percebe seus ombros já estão submersos. É aí que seus pés flutuam e os seixos caem, devolvidos ao rio. Rita sente que precisa se segurar em algo para não ser levada. A correnteza a arrasta e a cabeça se move para tentar encontrar os irmãos. Seu corpo cresce e se afasta da margem, e os pés flutuam, se enroscam em pequenas ilhas de vegetação. A tranquilidade da paisagem dá lugar à inquietação, e o rumor que ecoa pelo ar é o do desespero, e também o de uma tromba-d’água.
As águas, as águas daquele instante, correm para sempre e sem destino.
Um pedaço de lona para nos pés de Rita Preta, e dentro de alguns minutos a chuva cessará, assim como o pequeno riacho que se formou próximo ao meio-fio irá se extinguir, deixando um rastro confuso de detritos. Mas antes que abandone as imagens e aquele estranho sentimento, velho conhecido, ela volta à memória do próprio corpo, à memória da dor que se replicou depois, incessante, enquanto tentava se segurar à terra, aos galhos, ao mato que flutuava no rio, à vida, para não ser arrastada em definitivo. Sente então que cresceu durante a batalha travada para viver, e por isso seus ossos doeram ao longo de todo o ano.
A tempestade dura poucos minutos, mas o suficiente para que o caos se instaure na cidade. Trânsito interminável, desabamentos de casas junto às encostas, um homem desaparecido depois de ser arrastado pelas águas até um bueiro. Rita precisa chegar ao trabalho antes das dez horas, mas com as ruas alagadas, os semáforos quebrados e vários carros deixados no meio do caminho, iria demorar muito mais. Ela não está tão úmida a ponto de ficar com cheiro de tapete molhado; tinha guardado a camiseta do uniforme amarelo na bolsa. Voltar para casa está fora de cogitação; a empresa está se “reestruturando”, seja lá o que isso signifique, e ela precisa daquele emprego. Na bolsa, o porta-documento e, por trás de um pequeno quadrado de acrílico, aquilo que mais importava: as fotografias três por quatro de seus filhos.
A coleção de livros que Itamar Vieira Junior levou da Bahia para o Rio de Janeiro
Fizemos um tour pela biblioteca do autor; veja. Crédito: Imagens: Júlia Pereira | Edição: João Abel
Coração sem Medo
- Autor: Itamar Vieira Junior
- Editora: Todavia (336 págs.; R$ 89,90; R$ 64,90 o e-book)