Essa planta tem os genes necessários para sobreviver ao aquecimento global – o que isso significa?

Essa planta tem os genes necessários para sobreviver ao aquecimento global - o que isso significa?

Uma das consequências do aquecimento global é a extinção de espécies incapazes de viver em um mundo mais quente. Como a evolução é um processo lento, mudanças rápidas no ambiente podem exterminar parte da vida na terra. Foi o que aconteceu com os dinossauros após o impacto de um meteoro milhões de anos atrás. Esse é o medo que tem contaminado a opinião pública: o aquecimento é rápido demais quando comparado à lentidão da evolução.

Sabemos que a vida é um processo resiliente que se adapta às mudanças ambientais. Os seres vivos surgiram há 3 bilhões de anos e sobreviveram tudo que ocorreu no planeta durante esse tempo. E é bom lembrar que o ser humano não é o primeiro ser vivo a alterar radicalmente o planeta. Foi o surgimento de seres vivos capazes de liberar oxigênio por meio da fotossíntese que transformou radicalmente a atmosfera, adicionando o oxigênio que respiramos à sua composição.

A questão é quão lenta tem que ser a mudança para garantir a sobrevivência da biodiversidade. Ou seja, estamos aquecendo rapidamente demais ou a velocidade é compatível com a capacidade de evoluir dos seres vivos? Na verdade, existem três processos que permitem aos seres vivos se adaptar a um novo ambiente. Um muito lento, outro mais rápido, o terceiro quase instantâneo. O instantâneo são as respostas fisiológicas que ocorrem no nível do indivíduo. A temperatura aumenta e nós transpiramos para refrigerar o corpo. A umidade cai e as folhas fecham seus estômatos. O extremamente lento é o processo evolutivo que aprendemos na escola: mutações surgem ao acaso no nosso genoma e, caso elas aumentem nossa adaptação ao ambiente, geram uma vantagem competitiva para seus portadores.

Mas talvez a mais importante seja a seleção de alelos (formas alternativas de um mesmo gene) já presentes na população. Esse é um processo relativamente rápido. Um bom exemplo são os múltiplos genes que determinam a cor de nossa pele. Para cada um desses genes, cada um de nós possui dois alelos, um vindo da mãe, outro vindo do pai.

Mas na população humana provavelmente existem dezenas de alelos para cada um desses genes. E é a combinação desses alelos que determina a cor de nossa pele. Nós não sabemos como, e sob que pressão seletiva, todos esses alelos surgiram, mas provavelmente foi algo relacionado ao espalhamento do Homo sapiens pelos diversos ambiente ao redor do planeta. Esses alelos são uma espécie de registro histórico de nosso passado, restos das pressões evolutivas que nos afetaram no passado.

O planeta já passou por diversos ciclos de aquecimento. O mais recente foi o fim da última glaciação, aproximadamente 12 mil anos atrás, quando a temperatura subiu 4ºC. Nos últimos 800 mil anos passamos por quase uma dezena de ciclos como esse. E a temperatura que os modelos mais pessimistas preveem para os próximos 100 anos não chega perto da que predominava quando os mamíferos surgiram.

Faz muitos anos que os cientistas imaginaram que todos os seres vivos carregam em seus alelos a história de diversos ciclos de aumento e diminuição de temperatura. Imaginavam que talvez os alelos presentes nas populações atuais fossem registros do que foi selecionado nos períodos mais frios e quentes da história da espécie. E se isso é verdade, muitos seres vivos teriam genes capazes de garantir sua sobrevivência em temperaturas mais altas.

Agora essa hipótese foi comprovada em uma espécie de flor que existe nos Alpes europeus (Dianthus sylvestris). Essa planta vive em diversas altitudes, desde algumas em que nunca neva até altitudes onde o período sem neve é muito curto. Os cientistas descobriram que populações que vivem em diferentes altitudes utilizam diferentes alelos para controlar seu crescimento e seu florescimento, dependendo a temperatura de cada ambiente. Analisando a evolução desses alelos, os cientistas descobriram que eles surgiram no passado distante, centenas de milhares de anos atrás, e foram eles que permitiram que essa planta sobrevivesse os muitos ciclos de aquecimento que ocorreram nos últimos 500 mil anos, principalmente a última glaciação.

A conclusão é que essa planta já possui os genes necessários para sobreviver ao aquecimento global que está ocorrendo hoje. Como um número enorme de espécies já passaram por ciclos de aquecimento global no passado, é provável que resultados semelhantes sejam observados nos próximos anos em muitas outras formas de vida. Não resolve o problema do aquecimento, mas é um consolo.

Mais informações: Alelos antigos impulsionam a adaptação climática contemporânea em uma planta alpina. Ciência

https://www.science.org/doi/10.1126/science.adp5717 2025

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Notícias Recentes