A conversa surgiu entre mim e meu amigo Igor Gandra, a caminho de uma feira educacional. Igor é mais jovem que eu e, como acontece nas boas amizades, discordamos com frequência. Em certo momento, mencionei a perda do foco como algo trágico. Ele ouviu, inclinou a cabeça e lançou a pergunta que mudaria o rumo da conversa:
“E se o foco, essa virtude que exaltamos como essencial, for apenas mais uma peça de museu?”

Talvez as novas competências envolvam aquilo que não se automatiza com facilidade: ética, imaginação, moral, autodomínio, escuta… Foto: Adobe Stock
A pergunta, incômoda por ser justa, desarmou-me. Sempre tive orgulho da minha capacidade de concentração. Estudei piano na juventude, li com disciplina desde muito cedo, enfrentei provas e prazos com perseverança. Atribuo boa parte do meu sucesso profissional à minha capacidade de atenção. O foco, para mim, sempre foi um ativo moral, quase um diferencial ético.
Por isso, ouvir aquilo – vindo de alguém mais jovem, inteligente e bem-intencionado – pareceu-me quase um sacrilégio.
Respondi o que sei: foco é necessário para aprender uma língua, por exemplo. Sem muitas horas de vocabulário, gramática e leitura, jamais teria conseguido dominar outro idioma. Mas ele apontou para o futuro: fones com tradução simultânea já existem – e só vão melhorar.
O processo tradicional de aprender uma língua estrangeira poderá parecer, em breve, um ritual antigo: belo, porém inútil. O conceito de aprendizado também muda. Não se tratará apenas de acumular conhecimento, mas de saber como acessá-lo – e por quê.
Estudar francês por sete anos pode parecer tão útil quanto regular um carburador.
E se ele tiver razão?
Insisti: “E o foco necessário para programar essas inteligências?” Igor sorriu e respondeu: “Algumas já escrevem partes do próprio código. Não é autonomia total – mas ensaiam os primeiros passos”. Silenciei. O futuro não pede licença.
Será que o foco é, hoje, o que foi a caligrafia ontem? Quantas horas da minha infância foram dedicadas ao traço perfeito da letra cursiva? A Finlândia, ao substituir o caderno pela tela, viu a inteligência dos alunos regredir. Mas será que foi pela ausência da caneta ou daquilo que ela simbolizava? A escrita à mão não é apenas forma – era ritmo, silêncio, tato. Mas isso a torna insubstituível?
Uso bem números romanos. Aprendi os pronomes de tratamento com rigor. Sei distinguir Vossa de Sua Alteza; Excelência de Excelentíssimo. Mas, sejamos francos, em quantas situações da vida real isso é demandado hoje? E se a monarquia voltar? Uma consulta ao ChatGPT bastará. O saber continua – de outro modo.
Penso num “admirável mundo novo” que exigirá um cérebro não apenas mais rápido – mas mais flexível. Então, a pessoa sensível perceberá que usei a expressão na última frase entre aspas. Perguntará por algum mecanismo sobre o sentido da frase. O mecanismo responderá com o livro de Aldous Huxley. Uma pesquisa adicional revelará que a expressão vem de Miranda, personagem de A Tempestade, de Shakespeare. Se eu insistir, os programas sintetizarão os livros de Huxley e de Shakespeare e trarão novas referências. Eu, Leandro, levei anos lendo essas coisas. Outros acessarão em segundos. Como defender que meu sistema arcaico seja, de fato, o melhor?
Saber procurando na Barsa é mais profundo do que saber no Google?
Quando surgiram os elevadores, temeu-se a decadência da musculatura humana. Com as calculadoras, previram-se cérebros preguiçosos. E agora, com a IA, receamos a extinção do pensamento.
Há uma nostalgia no ar, e ela é compreensível. Como é difícil admitir que aquilo que nos custou esforço pode não valer mais. É incômodo aceitar que o mérito de ontem não garante relevância amanhã.
Dirigir um carro com câmbio manual. Saber usar o afogador. Regular uma antena com Bombril para ver melhor a novela.
É tentador acreditar que o passado formava pessoas superiores, assim, nossa dor vira esforço e virtude. Talvez tenhamos apenas vivido outra história, com outras exigências. E talvez projetemos no mundo atual a esperança de que ele continue precisando daquilo que sabemos fazer.
O que, então, ainda importa? Curiosidade, senso crítico, capacidade de fazer boas perguntas. Importa a vontade de entender antes de opinar. Respeito pela diferença. Essas virtudes permanecem. O modo de ensiná-las muda.
O foco, talvez, não desapareça – apenas seja reconfigurado. A atenção plena de uma biblioteca silenciosa pode agora habitar mil telas, em miríades de fragmentos. Ainda é possível reencontrá-la. O mundo, progressivamente, valoriza menos quem memoriza fórmulas e mais quem questiona as premissas.
Diante disso, surge uma pergunta inevitável: quais serão as novas habilidades essenciais?
Se algoritmos já leem, escrevem, programam e traduzem, o que restará à sensibilidade humana? Seremos ainda necessários? Ou apenas decorativos?
Talvez as novas competências envolvam aquilo que não se automatiza com facilidade: ética, imaginação, moral, autodomínio, escuta. A arte de demorar-se em algo só pelo prazer de compreender. Talvez sejamos educados, enfim, não para vencer as máquinas, mas para permanecer humanos.
Foco, caligrafia, carburadores, pronomes de tratamento? Posso equivaler tudo – ou meu museu de memórias é apenas uma sinapse inútil?
Qual sua esperança de sobrevivência neste mundo sempre novo, mas nem sempre admirável?