A guerra entre um pássaro parasita e sua vítima

A guerra entre um pássaro parasita e sua vítima

O cuco é um passarinho folgado. Para se livrar do ônus de chocar e alimentar seus filhotes, ele coloca os ovos no ninho de uma outra espécie. Esse exemplo de parasitismo foi descrito por Aristóteles e investigado em detalhe em um trabalho publicado por Jenner em 1788.

Os cucos (Um cuco cantante e Cuco queria) nunca constroem um ninho nem chocam seus ovos ou alimentam seus filhotes. Por isso, são chamados de parasitas obrigatórios, dependem de outra espécie de pássaro para sobreviver. Após a fecundação, a fêmea fica observando outras espécies de pássaros construindo seus ninhos. Após a vítima colocar o primeiro ovo, o cuco (chamado pelos biólogos de parasita), pousa no ninho e coloca seu ovo do lado do ovo da vítima (chamada pelos biólogos de hospedeiro).

Geralmente, o filhote do cuco nasce antes e seu primeiro ato é matar os outros ovos ou jogar os outros filhotes para fora do ninho. Aí fica sozinho e é alimentado pelo casal de vítimas que pensa que está criando seu próprio filhote. As vítimas não deixam descendentes e gastam toda sua energia alimentando o filhote do cuco espertalhão.

Mas, se a vida dos parasitas fosse tão fácil e a perda das vítimas fosse total, muitas espécies de pássaros parasitados já teriam se extinguido. Mas a seleção natural interfere nesse processo. Vítimas capazes de reconhecer seu próprio ovo apareceram ao longo de milênios e esses passarinhos conseguem matar os ovos do cuco, preservando seus futuros filhotes. Essa capacidade de distinguir os ovos provoca uma segunda onda de seleção natural.

Os cucos passam a produzir ovos mais parecidos com os ovos das vítimas, dificultando seu reconhecimento. Esses dois processos de seleção natural, um que aumenta a capacidade dos cucos de distinguir seus ovos dos do parasita, e outro, em que o parasita produz ovos cada vez mais semelhantes aos dos cucos, provoca uma competição permanente que os cientistas denominaram de corrida armamentista. Um tentando ser mais esperto que o outro.

O resultado dessa corrida armamentista é que na Europa e na Ásia populações de cucos, localizadas em diferentes regiões, parasitam mais de 100 espécies de pássaros e produzem ovos com cores e manchas semelhantes às das vítimas. Enquanto os ovos de galinha que compramos vêm em duas cores, brancos e marrons, os ovos de cucos vêm em diferentes tonalidades de branco, bege, azulados e esverdeados e cada cor pode não ter manchas ou se apresentar com diferentes quantidades de manchas de diferentes tamanhos. Cada um desses ovos é o resultado de uma corrida armamentista entre uma população local de cucos e suas vítimas.

Agora, os cientistas descobriram os genes que definem as cores e as manchas nos ovos. Para isso, eles sequenciaram o genoma de 348 cucos que produzem 15 tipos de ovos distintos.

Nessa análise eles encontraram 13 versões diferentes de um gene que é transmitido pelo cromossoma sexual. Aquele que só existe nas fêmeas. Ao contrário dos mamíferos onde o macho possui cromossomos sexuais distintos (XY), nos pássaros é a fêmea que possui cromossomos distintos (WZ). Descobriram que diferentes cucos, em diferentes regiões do mundo, possuem diferentes combinações desses genes, o que determina as diferentes cores dos ovos. Esses genes codificam pigmentos que são adicionados à casca do ovo durante sua formação.

Este resultado esclarece qual é a arma que os cucos vêm aprimorando para driblar a crescente capacidade das vítimas de distinguir seus ovos dos colocados pelos cucos. Resta agora descobrir quais mecanismos cerebrais foram aperfeiçoados pelas vítimas para distinguir diferenças cada vez menores entre seus ovos e os dos folgados cucos. Não é somente o ser humano que se aproveita de outras espécies.

Mais informações: Arquitetura genômica do mimetismo de ovos e suas consequências para a especiação em cuco parasita. Ciência https://science.org/doi/10.1126/science.adt9355 2025

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