Tamara Klink cruza rota mortal, testemunha Ártico em colapso e inspira ‘travessias pessoais’

Tamara Klink cruza rota mortal, testemunha Ártico em colapso e inspira ‘travessias pessoais’

Tamara Klink ancorou o veleiro Sardinha 2 no porto de Homer, no Alaska, em setembro, duas semanas depois de concluir a temida Passagem Noroeste em solitário. Nos 45 dias anteriores, quase teve o barco invadido por um urso polar, ziguezagueou para fugir de colisões, presenciou os efeitos das mudanças climáticas no Ártico e colecionou experiências para escrever livros que, em suas palavras, inspiram travessias pessoais.

Viver tudo isso, aos 28 anos, fez parte do processo que a tornou a navegadora mais jovem, a única pessoa latino-americana e apenas a segunda mulher a percorrer a rota cuja história é preenchida por mortes e naufrágios. Orgulhosa, encontrou sinais de orgulho também no pai, o velejador Amyr Klink, ao conversar com ele pela primeira vez após o fim da jornada, já no ancoradouro alasquiano.

“Não acredito”, disse Amyr, famoso por realizações como ser o primeiro a atravessar o Atlântico Sul a remo. “Pois é, pai, terminei a Passagem Noroeste, legal, né? O barco está bem”, respondeu a filha, que logo entendeu o verdadeiro motivo da incredulidade. “Não acredito que você está do lado do barco Time Bandid, da série Pesca Mortal.”

Com o Sardinha 2 ancorado ao lado da embarcação comercial de pesca de caranguejo, protagonista do programa produzido pelo Discovery Channel, a conversa se concentrou na preferência televisiva do pai. “Ele só queria falar sobre isso”, lembra Tamara, rindo, em entrevista ao Estadão.

A reação de Amyr é natural para a velejadora e escritora, que não teve ajuda técnica mesmo crescendo em uma família de navegadores e trilhou o próprio caminho. Do pai, recebeu broncas para ter os pés no chão e nunca subestimar a indiferença do oceano em relação ao ser humano.

“Isso é importante quando a gente é navegador”, diz. “Por mais experiência que a gente tenha, a gente sempre pode ser confrontado com os limites do nosso corpo, do barco. As maneiras mais fáceis de morrer são bobas. O perigo mais presente é o de escorregar, cair no mar e morrer. Muitos navegadores experientes morreram assim.”

‘Coragem para tomar decisões difíceis’

Constantemente exposta ao risco quando está no mar, Tamara testemunhou indícios de outro tipo de perigo, com alcance maior do que a queda de um marinheiro, enquanto fazia sua travessia. Deparou-se com menos gelo do que esperava, o que favorece a navegação, mas evidencia o impacto das mudanças climáticas no Ártico. “Encontrei gelo marinho em só 9% do trajeto. Eu esperava encontrar em pelo menos um terço do caminho.”

A Passagem Noroeste sempre foi temida justamente por causa dos trechos congelados. Tentativas de vencê-los foram empreendidas desde o final do século 19, por interesse comercial, quando a rota foi descoberta como um caminho mais curto entre o Atlântico e o Pacífco. Por lá, só passavam grandes embarcações, equipadas com quebra-gelos, e muitas dessas naufragaram.

A primeira expedição a concluir a rota, em 1905, liderada pelo norueguês Roald Amundsen, a bordo de um barco de pesca de 21 metros de comprimento e com seis tripulantes, durou quase três anos. Exatamente 120 anos depois, Tamara Klink levou 45 dias para fazer a mesma passagem, porém em solitário no Sardinha 2, um veleiro de 10 metros de comprimento.

“Trinta anos atrás, os barcos ainda não conseguiam fazer essa passagem sem um quebra-gelo, quebrando o mar congelado do inverno e abrindo corredores de água líquida para os barcos menores passarem. Hoje, mesmo barcos pequenos conseguem fazer a passagem sem precisar de um quebra-gelo porque tem muito mais água líquida durante o verão”, explica a navegadora.

Ao mesmo tempo em que Tamara fazia sua travessia, outro barco, conduzido pelo americano Ian, de 70 anos, percorria o trajeto e o concluiu com um dia de diferença para a brasileira. Eles se comunicavam e se ajudavam. O desfecho da jornada de ambos elevou para 14 o modesto número de pessoas que tiveram sucesso em navegar sozinhas pela mítica passagem.

Essa transformação está acontecendo não ao longo das gerações, mas ao longo da nossa, da geração do Ian, esse velejador de 70 anos que fez a passagem em solitário ao mesmo tempo que eu. E vão continuar acontecendo se a gente não tiver coragem de tomar decisões difíceis agora

Tamara Klink, velejadora e escritora

A velejadora não sabe dizer se o termo ativista lhe cabe, por não estar organizada dentro de um grupo, mas tem a convicção de que não pode deixar de falar sobre algo vivenciado de forma tão concreta, ainda mais em tempos de negacionismo climático. “É muito frustrante ver que tem gente que perde energia e atrapalha a nossa espécie, tentando tirar o foco do que é importante, que é a nossa sobrevivência e de outras espécies.”

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Além daqueles que atrapalham, Tamara se incomoda com quem poderia fazer alguma coisa e não faz, especialmente as lideranças políticas. Por isso, dá muita importância à Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025, a COP30, a ser realizada em Belém, entre os dias 10 e 21 de novembro deste ano.

“A gente gostaria muito que fossem ambiciosos, à altura dos desafios que a gente vai ter pela frente. A gente ainda tem tempo de reverter algumas tendências climáticas, antes de chegar nos pontos de não retorno. O ponto de não retorno que eu mais conheço é o do gelo marinho do Ártico e da Antártica”, diz.

“A partir do momento que a gente não tiver mais essas pedras de gelo flutuando na água e refletindo a luz do Sol de volta para a atmosfera, a gente vai estar como se fosse em um copo de Coca-Cola gigante, debaixo do sol quente. O verão tem 24 horas de luz solar por dia e a gente vai estar nesse líquido preto que vai estar o tempo todo absorvendo a radiação solar. Isso vai fazer o planeta aquecer cada vez mais rápido.”

Experiências compartilhadas e travessias pessoais

Tamara voltou do Ártico com uma mensagem coletiva como principal legado da viagem. Não se distanciou, contudo, do senso de aventura e das reflexões existenciais que a tornaram tão popular como escritora e criadora de conteúdo nas redes sociais.

Quando a gente tem o privilégio que poucas pessoas têm de ir atrás dos sonhos, realizá-los e aprender tanto, é uma obrigação escrever relatos da melhor maneira que puder e da forma mais sincera que conseguir. Busco escrever de uma maneira que dê às pessoas o desejo de fazer suas próprias travessias

Tamara Klink, velejadora e escritora

Seus diários, fruto de um hábito incentivado pela mãe, Marina Klink, se transformam em livros – caso do Nós, no qual relata a travessia do Atlântico que fez em 2021, da França ao Brasil – e vídeos, dedicados à avó Ana e recebidos como fonte de inspiração por quem os consome.

“Minha mãe falava que era para gente não esquecer, mas hoje vejo como algo muito mais útil, inclusive, que é o de se ver. O diário dá essa chance de a gente enxergar o que está dentro da gente, fora do nosso corpo. Meu pai sempre falou que o que fez ele ser navegador não foi ter feito navegações, foi ter escrito bons livros sobre navegações.”

Em contrapartida, as experiências vividas durante as navegações ajudam a escrever bons livros. O próximo de Tamara será sobre o período de invernagem que fez na Groenlândia, por oito meses, entre 2023 e 2024, e integrou o projeto da travessia da Passagem Noroeste, pois era sensato se preparar para a possibilidade de ficar presa no gelo por tempo indeterminado.

Ursos, tempestades e zonas não cartografadas

A preparação para cruzar a rota foi de muito estudo e novos aprendizados. Cada um teve seu momento de ser colocado em prática, inclusive como lidar com a invasão de um urso polar no barco. Pouco antes de passar pelo Estreito de Bellot, um corredor apertado de 35 km de comprimento e cerca de 1 km de largura, onde muitos barcos já naufragaram, Tamara recebeu um aviso, por rádio, de que um urso estava tentando subir no Sardinha 2.

Ela estava dormindo e acordou assustada, mas conseguiu espantá-lo com o barulho do motor. Em último caso, teria de recorrer ao rifle que guarda no barco, seguindo os protocolos da região para esse tipo de defesa.

“Eu estava na região que tem mais ursos polares e isso é um tema muito polêmico no Brasil, onde não temos ursos polares. Então, a gente não vive da caça e da pesca, mas lá não é nada polêmico. Eu tive de aprender como as pessoas do lugar fazem para reconhecer comportamentos perigosos ou não perigosos dos ursos polares e poder reagir da melhor forma possível, para que todo mundo fique vivo e bem”, explica.

O maior risco, contudo, estava mesmo nas condições ambientais encontradas ao longo da passagem. Mesmo com as mudanças causadas pelo degelo acelerado, a fama terrível da Passagem Noroeste se exibiu diante dos olhos da navegadora brasileira.

A mítica em torno do local é tão grande que ele já foi pano de fundo para narrativas ficcionais, como a série Terror, cujo enredo insere monstros marítimos na história real dos navios HMS Erebus e HMS Terror, que desapareceram em busca da rota. Naufragadas em 1845, as duas embarcações britânicas de guerra – ou melhor, o que sobrou delas – foram encontradas já no século 21. O Erebus em 2014 e o Terror em 2016.

“Eu tinha esse fantasma dos naufrágios, das viagens que deram errado, das mortes que aconteceram no caminho, e toda a reputação horrível recente de navegadores que fizeram essa passagem, dois, três, cinco anos atrás. Falavam: foi a navegação mais difícil que eu já fiz, mais complicada e mais imprevisível onde já naveguei. Eu me perguntava se eu daria conta, fiquei surpresa. Realmente, tudo que disseram de ruim era realmente ruim.”

Tempestades entram na lista de tudo aquilo que se confirmou ser realmente ruim. Apesar de favorecer a navegação no aspecto mais básico, ao deixar o caminho mais limpo de água sólida, o degelo tem impacto direto nas condições meteorológicas.

“Quanto menos gelo a gente tem, mais intensas são as tempestades”, explica. “Me dar conta de que eu teria de navegar muitas vezes contra o vento, contra a corrente, contra as ondas, fazer muito ziguezague em corredores apertadinhos, foi um pouco difícil no início. Mas uma vez que eu integrei que a viagem seria assim, eu ficava menos abalada quando o tempo estava ruim. Eu só aceitava e comemorava quando ele estava melhor.”

Pouco se podia confiar na previsão do tempo, por haver escassez de dados meteorológicos da região, e era importante saber analisar nos mínimos detalhes a cartografia do local. Tamara aprendeu a ler cartas de gelo por satélite e estudou os comportamentos das placas de gelo, sempre em deslocamento.

Para isso, contou com a ajuda do navegador brasileiro Igor Bely, que fez a passagem há um ano ao lado do parceiro Betão Pandiani. Mesmo com todo estudo havia, ainda, grande risco ao passar por zonas não cartografadas.

“Tem várias regiões onde não existe cartografia do fundo, então a gente navega em uma carta branca escrito: ‘zona não cartografada’. Você fica torcendo para não ser você a pessoa que vai descobrir que tem um navio naufragado logo abaixo da superfície, uma pedra que ninguém nunca passou por ou um banco de areia que ninguém nunca encontrou ou nunca escreveu na carta.”

As condições hostis, o pouco tempo de sono e o desgaste físico não impediram Tamara de apreciar a viagem tão singular que se propôs a fazer. Avistar uma única gaivota no meio da neblina ou mesmo a simples constatação de ver os estudos funcionado ao serem colocados em prática eram fonte intensa de prazer para a navegadora.

Prazer não é uma palavra que costuma aparecer nos relatos de navegação. Principalmente quando a gente pensa nos relatos polares, que romantizam e elogiam muito o sofrimento, a virilidade, a dor. Fiz muita terapia para entender que eu tinha, sim, direito de me divertir em um lugar hostil, porque é possível. Eu amo navegar. Quando estou no mar, meu prazer vem das coisas que vejo ao redor.”

Tamara Klink, velejadora e escritora

O deleite da velejadora também vem do tempo consigo e a capacidade de rir de si, mesmo em situações adversas. “O humor tem se tornado uma ferramenta para lidar com meus erros de maneira mais inteligente do que só ficar sofrendo. Rio muito de mim mesma, tenho muito diálogo comigo mesma, como se eu fosse duas pessoas dentro da minha cabeça.”

Embora os fatores externos estejam presentes o tempo todo durante a expedição, a vida interna de Tamara ao longo das viagens é intensa. Lembrar dos amigos e perceber a presença deles em seus próprios gestos, assim como a influência das amizades em sua trajetória, era algo recorrente..

“A gente dá muito valor para o amor romântico, que às vezes dura um nada. Inclusive, institucionalmente, para o Estado, é mais importante o amor romântico, mesmo que ele dure menos do que as nossas amizades. Eu sinto que isso está pouco presente principalmente quando a gente é mulher, muito menos nos filmes, que dão menos importância às amizades femininas do que às masculinas. Na maior parte dos filmes onde as mulheres aparecem e tem nome, elas estão sozinhas.”

Crenças limitantes ainda atrapalham as mulheres

Tamara tem uma visão clara do quanto ser mulher lhe proporcionou uma experiência diferente à vivida pelos navegadores homens. Mesmo que seja parte de uma geração que teve a oportunidade de ter referências femininas de navegação, como Isabelle Autissier e Florence Arthaud, ainda foi subestimada dentro do próprio meio. Muitas vezes, teve de lidar com a condescendência de homens com preocupações esdrúxulas.

“Um mito muito comum, por mais idiota e absurdo que seja, que é ‘e se tiver um barco no meio do mar, que descobrir você sozinha e desviar da rota’. Eu falava: ‘Eu acho que não vai ter nada que eu possa fazer para evitar isso’. Mas eu tenho certeza que tem menos chance de isso acontecer do que aqui no porto de pesca”, conta.

“A gente continua tendo várias barreiras bem idiotas e que perder muito tempo e energia, superar estereótipos limitadores, crenças limitantes que a gente pode ter sobre nós, porque a gente é criada em um contexto onde as mulheres ainda são desincentivadas a arriscar, a correr perigo. Quando tem um acidente, falam que ‘estava despreparada’. A gente recebe mais críticas quando algo dá errado do que nossos pares de outro gênero.”

Ver outra mulher se arriscando em uma atividade extrema contempla os ideais de Tamara. Por isso, ela se vê refletida em atletas como a surfista de ondas gigantes Maya Gabeira, com quem se comunica por mensagens, mas ainda não teve a oportunidade de conhecer pessoalmente.

Esse pensamento passa longe de deslegitimar outras mulheres cujas vidas não são tocadas pela adrenalina de estar em um veleiro no Ártico ou surfando uma onda gigante. A navegadora entende que riscos diários fazem parte da experiência feminina em qualquer contexto.

Eu não me sinto mais corajosa do que uma caminhoneira ou uma entregadora de aplicativo. Eu tenho a chance de fazer uma atividade que toca o imaginário das pessoas, mas que não é nem mais glamourosa, nem mais grandiosa, nem melhor ou mais especial. A única diferença é que eu tive a chance de ter escolhido estar lá

Tamara Klink, escritora e velejadora

Conquista sem troféu

A reflexão se aplica a como Tamara vê sua atividade em relação à sociedade de forma geral, não apenas às mulheres. Da mesma maneira que seus feitos inspiram comentários sobre sua coragem, também atraem questionamentos, que não chegam a incomodá-la.

“Tem pessoas que vão falar: ‘uau, que incrível, que corajosa, que máximo’. E pessoas que vão falar: ‘uau, mas por que ela está fazendo isso? Não serve para nada’. Vocês chamam ela de corajosa, mas ela não é corajosa. Tem um monte de gente no Brasil que vive uma vida mais dura, enfrenta desafios maiores’. Eu concordo.”

Há até um estranhamento em ser chamada de corajosa. “Acho engraçado. Eu sou tão medrosa que eu não tive coragem de não ir atrás da navegação”. É inegável, contudo, que suas viagens e relatos inspiram coragem em seus leitores e seguidores, conforme ouve sempre que encontra um deles.

No porto de Homer, onde orgulhou o pai por ancorar ao lado do Time Bandid, foi recepcionada sem pompas, como qualquer barco de pesca local. Uma pessoa, contudo, a esperava. A brasileira Thaísa, que a acompanha nas redes sociais, viajou de Anchorage, cidade grande a 4 horas de Homer, para presenciar o que imaginava ser uma grande recepção à heroína do Ártico.

“Eu trouxe essas flores, essa cartinha, porque eu achei que ia ter helicópteros dos seus patrocinadores, da televisão brasileira vindo aqui te filmar, achei que não ia conseguir falar com você”, afirmou Thaísa.

Pensou também que a velejadora estava acompanhada de uma equipe técnica. “Quer ser minha equipe técnica?”, sugeriu Tamara. Então, a fã a ajudou a levar o barco para o outro lado da baía e colocá-lo no seco. Baixaram as velas, tiraram os cabos e colocaram o Sardinha 2 em abrigo.

“Quando chego da viagem não tem um troféu, tem o mesmo cais de pesca de todos os outros pescadores. Terminei essa viagem no meio do mar, o mesmo de minutos atrás. Não teve fogos de artifício ou linha de chegada, só segui navegando por mais 15 dias até finalmente poder parar em um porto. Para mim, o troféu era ter concluído o projeto para o qual eu me preparei.”

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