Morreu Odete Roitman. Na noite desta segunda-feira, 6, a personagem brilhantemente interpretada por Débora Bloch não remake de Vale Tudo levou um tiro certeiro no quarto de hotel de luxo no qual morava, com vista para a Praia de Copacabana O assassino, claro, ainda é desconhecido. Será revelado apenas no último capítulo, tal qual na primeira versão, exibida em 1988.
Me desculpem aqueles que defendem a independência de versão atual, escrita por Manuela Diasmas, nesse caso, comparar é fundamental. Odete, a original, interpretada por Beatriz Segall, morreu por engano, apesar de quase todos os personagens terem algum motivo para dar cabo à vilã das vilãs.

Odete Roitman morreu. Melhor seria mantê-la viva Foto: TV Globo/Divulgação
Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères foram fiéis ao folhetim, a base da novela. Ao escolherem Leila, uma mulher ciumenta, que atirou em Odete por meio de uma porta de vidro, sem saber que ela era, trouxeram a surpresa. Leila pensou que o marido, Marco Aurélio, estava em companhia de sua amante, Maria de Fátima. Atirou com a fúria de uma mulher traída, usando a arma que o marido levara em uma pasta, em uma das cenas mais perfeitas da história das telenovelas brasileiras. Os tiros doeram nos telespectadores. O público foi ao delírio com a revelação da assassina, dias depois.
Manuela Dias foi por outro caminho a novela toda. De início, optou por ressignificar o que, no passado, era julgado como uma fraqueza moral de Odete: o gosto por garotões. Viúva, em 1988, ela se encontrava com eles no que se chamava de garçonnière, um apartamento para encontros amorosos. Chegou a sofrer violência de um deles e foi humilhada pelo michê César Ribeiro, o único pelo qual ela se apaixonou.
Viúva novamente agora, Odete levava seus namorados para dentro do hotel de luxo no qual morava – e no qual foi assassinada. Em vez de ser humilhada por César, casou-se com ele. César, defendido por Cauã Reymond, é um dos suspeitos do assassinato de Odete. Os motivos? Além de um pueril medo de ser assassinado por ela, ele quer botar a mão em 50% de tudo o que era dela, junto com seu parceiro, Olavinho.
Essa foi uma das justificativas que Manuela pôde arrumar para um dos cinco suspeitos já anunciados por ela: além de César, Marco Aurélio (Alexandre Nero), Celina (Malu Galli), Maria de Fátima (Bella Campos) e Heleninha (Paolla Oliveira) estão na lista.
A Odete criada por Manuela conquistou o público. Suas frases espirituosas e, mais uma vez, muito por conta do trabalho de Débora Bloch, caíram no gosto da audiência. Odete continuou classista e preconceituosa, mas bem menos do que no passado.
Manuela para justificar o assassinato de sua protagonista, cedeu à tentação do mercado audiovisual atual e transformou Odete em uma serial killer na reta final da novela. Uma reviravolta estranha.
A personagem tentou matar Marco Aurélio, por descobrir que ele desviava dinheiro de sua empresa; matou Ana Clara, que ameaçava revelar que ela escondia um filho doente; e encomendou a morte de Maria de Fátima, que a chantageava pelo mesmo motivo de Ana Clara. A Odete de 1988 jamais sujaria as mãos de sangue dessa forma.
Marco Aurélio, César e Maria de Fátima são os únicos que, de fato, manifestaram explicitamente a vontade de matar Odete. Seria muito óbvio se a autora escolhesse um deles. Ainda comparando com a versão anterior, nenhum dos três queria mesmo a morte da vilã. Eles se contentavam com dinheiro e se alimentavam de falcatruas e golpes. O desvio moral deles era esse – e aí está o vale tudo que motivou Braga a criar a trama.
Restam, então, da lista de suspeitos divulgada pela emissora, a pacífica Tia Celina e Heleninha, filha de Odete. Heleninha, embora tenha motivos, merece o apaziguamento de seus traumas do passado. Tia Celina, que Manuela prometeu empoderar, mas, até o momento, não cumpriu, merece a felicidade, enfim, e não ser uma fratricida.
“Odete Roitman é altamente viciante”, disse Odete no capítulo desta noite, instantes antes de morrer. Manuela Dias tem razão. Teria mais lastro se Odete continuasse viva. A do passado, já tem seu lugar na história, com um final brilhante. A do presente, pode ficar pelo caminho, e a pergunta da vez será: quem se importa com quem matou novamente a Odete Roitman?