O Spotify foi etarista comigo

O Spotify foi etarista comigo

Desde que o Spotify me acusou injustamente de ter ouvido mais Dolly Parton que Miles no ano passado, ando achando que retrospectivas são ofensivas e mentirosas. Amante de Coltrane e McCartney, como que eu posso ter ouvido esse tanto de uma cantora country? Impossível: se vejo alguém de bota de salto e espora, cantando as belezas do Tennessee, corro pra debaixo da cama com meu ursinho vermelho.

Na retrospectiva deste ano, a coisa piorou. Porque, junto com preferências anuais, o Spotify resolveu chutar a nossa idade musical. E saiu espalhando. Ele até tenta suavizar o ultraje, dizendo pra “não levar pro lado pessoal”. É tipo comentar “olha, não quero ofender, mas você só tem um testículo”. Conversa mole. Estão jogando pra torcida woke, querendo parecer bonzinho – faço questão de ofender.

E qual seria a minha idade, baseado no que eu escuto? Segura: 81 anos. Quase 30 a mais do que o RG diz. É porque gosto de Led Zeppelin? Imagino que, pra equilibrar e abaixar a idade média, eu precisaria ouvir disquinhos coloridos do Lobo Mau.

Nada contra ter 81 anos: é a idade do Chico Buarque. Eu seria um pouco mais novo que Gil e Caetano, mais velho que Djavan e Lenine. Mas me pergunto: de onde esses caras tiram esse número? Qual o algoritmo que faz essa conta? Eles pegam a idade do cantor, e imaginam que eu e ele estudamos junto desde o maternal? Se eu começar a escutar mais Mozart, vão me dar 270 anos? Se passar a ouvir João Gomes, terei 23?

Trouxe o assunto pra mesa de bar. Todo mundo com 80, 87, 65 anos. Meu cunhado agora tem 90 – deve ter ouvido muito canto gregoriano. Deram 71 pra minha filha, 10 anos a menos do que eu. Já pensou? Pai com 10? É muita testosterona. Com 10 anos de idade, eu só queria saber de roubar chumbinho dos postes pra fazer fichinha de flíper. Nem ouvia música. Gostava mais de ver a novela Dancin’ Days na TV Globo. Que, aliás, tinha uma trilha sonora ótima. Frenéticas e Lady Zú.

E quem autorizou o Spotify a espalhar essa idade mentirosa? Que falta de educação, inventando coisa por aí. Foi a mesma coisa no Ifood: na retrospectiva, disseram que eu só como salada. Se fosse verdade, eu estaria mais magro que a fada Sininho. Toda vez que alguma IA tenta me enquadrar é igual: o algoritmo é burro, e não me conhece.

A cidade que se prepare: todo mundo vai andar de graça no ônibus; não vai ter vaga de idoso sobrando em lugar nenhum. Por outro lado, que bom: agora, basta ouvir João Gilberto pra pagar meia entrada no cinema.

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