O Céu Radiante do Brasil

Lei de Cotas completa 34 anos, resiste a ataques e permanece fundamental para inclusão da população com deficiência no trabalho

Albert Einstein, 112 Mercer Street, Princeton, Nova Jersey.

Prezado Albert,

Espero que estejas bem e a salvo. Sua saúde?

Você não faz ideia dos dias que estamos vivendo por aqui. Corrijo-me você faz ideia. Receba nosso solidário apoio pelo que vocês estão sentindo.

Confidenciaste que tua imaginação era incontrolável. O inimaginável, até para você, é de como a razão anda fora de moda.

A racionalidade ocidental tem sido derrotada pelo enciclopedismo artificial. Eles pretendem substituir o sentido, ênfase e contexto da linguagem das palavras e das coisas.

Quando li as notícias senti uma dor intransmissível, que percorreu todos os trajetos, e não para mais em nenhum ponto. Uma dor difusa, assim como o mal estar do espírito destes dias. Sei que você está em contato, mas Sigmund não deixaria passar nada disso em branco, teria escrito sobre isso, caso estivesse com alguma vitalidade.

Não é somente constatar a dissonância cognitiva (ou seria ressonância incognoscível?) que percorre as ruas, parlamentos, e o poder pelo mundo. É, especialmente, a forma com que os absolutos – isto é, o que imaginávamos comoconsensos — tem sido desafiados.

Isto é, aqueles consensos que pensávamos comungar — aversão aos valores inimigos da humanidade–, sério, aqueles que, até pouco tempo, me pareciam cláusulas pétreas.

Então vamos abrir o jogo:  a multidão declarou unilateralmente que não existem mais cláusulas.

Pétreas ou não.

Também declarou que os contratos sociais podem ser unilateralmente abolidos. E de que a gritaria – temo porque isso só deve piorar com a aceleração da técnica nas comunicações — tem mais relevância do que a reflexão e a interlocução.

Além disso, a história parece que precisa de um aval ideológico para permanecer crível.

É como se o processo histórico pudesse ser remetido via alguma equação sua, como a sua previsão de “buraco de minhoca”(acho que era isso que você sugeria, não?)a um estagio anterior e retroagir até a idealização dos acadêmicos com suas teses de ofício que não exigem comprovação. Note, amigo, que a história poderia chamar-se de “eventos de protagonismo programáveis com antecedência.”

Ou seja, desejam uma história sem percurso cronológico. Não se trata apenas da situação terrível que o regime de facínoras na Alemanha – respaldados pelas leis de Nuremberg — impôs aos judeus e aos “não arianos” sic. Podes acreditar neste pacto, sugerido por Neville? Até a Grã Bretanha Abert?E justo hoje ele acaba de tomar na cabeça, para ser elegante. Se me perguntar dos políticos da França, bem você sabe, eles já possuem um currículo famoso! Mas e as várias nações do vosso velhíssimo continente? Como explicas que eles tem cedido, e dado pleno aval à uma complacência que poupa tiranos e monstros?

Acho que é algum contexto histórico sem precedentes e nunca se repetirá. Salvo engano.

A farsa se propaga em todas as direções: ódio aos judeus, racismo justificacionista, e acredite o revisionismo histórico: como se as todas as colonizações pudessem ser abolidas, e revertidas ao estadiamento prévio. Querem recolocar o ovo de volta para dentro da galinha, talvez, se me permite o chiste, através do teu buraco do verme eles consigam fazer a história desaparecer em suas cartolas dementes.

Meu sábio colega, onde é que estamos? Como chegamos a isso?

Seja honesto com este seu camarada: enlouqueci, ou o torpor afetou minha capacidade analítica? Leio sobre pessoas razoavelmente cultas e informadas fazendo vigílias em apoio aos assassinatos sistemáticos?

Calam-se sobre as atrocidades e defendem o indefensável.

Te relembra algo quando o argumento para ir aos Sudetos foi “os falantes de alemão na região estavam sendo oprimidos”? Por favor, explique-me sobre como impunemente eles legitimam a tática de agressão?  E ficam inertes quando multidões marcham acriticamente em busca da notoriedade. Sem falar nas milícias e gangues do terror que eles criaram para apoiar ações armadas – a imprensa os tem chamado de “Sturmabteilung” — contra civis, minorias religiosas e chacinam e indiscriminadamente.

Não é mais possível que tenhamos chegado a este nível patológico de condescendência. Os países não tem mais como resolver os problemas que criaram com este grau de populismo irresponsável. E aqui, na minha terra, não pense que é muito diferente não, não sei para onde iremos, e nada posso falar mais para que esta missiva não seja interceptada. Só posso dizer que as Pedras Brancas estão cheias de manchas.

Me pergunto quem são estas pessoas, que, no comando, ainda não compreendem o papel da liberdade?

Como bem ponderou um pensador dos nossos, as revoluções costumam começar com exortação à liberdade e empatia, e terminam – com raríssimas exceções– em tirania e opressão. Costumam evocar os direitos humanos para, em seguida, sufoca-los sob a alegação que precisam salvaguarda-los.

Impossível, apesar de cansativo, deixar de mencionar as hostes anti-judaicas que sob os mais distintos disfarces álibis e narrativas hoje pregam abertamente o racismo, a intolerância e a discriminação. Pensemos juntos o que os populistas  ganham ao excitar e criar fraturas sociais onde elas nem mesmo existem?

Qual mundo legaremos às próximas gerações se normalizarmos o culto da morte, o fanatismo justificacionista, as hostes filonazistas e de adoradores de Stalin conquistarem cada vez mais adeptos?

Dê uma luz aqui para nós Albert.

Saudações,

Seu, Pontes.

Ps – Nunca me esqueço de nossa interlocução no Rio de Janeiro quando você nos visitou em 1925 para acompanhar o eclipse no Rio Grande do Norte. Ainda guardo com carinho seu bilhete, lembra-se?”A questão que minha mente formulou já foi respondida pelo radiante céu do Brasil”,

Me despeço com um Shalom.

OBS – Esta carta nunca chegou ao destinatário. Foi retida e arquivada sob o carimbo “Censurada” durante a ditadura de Getúlio Vargas.

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