Neste palco da vida, como dizia Shakespeare, virei bisavô. E isso vale meu sorriso e esta crônica

Neste palco da vida, como dizia Shakespeare, virei bisavô. E isso vale meu sorriso e esta crônica

Justifica uma crônica e um sorriso feliz. Você se faz pai e a sua maior ventura é ver o filho como pai. Temos filhos e eles nos ajudam a construir nossas vidas e pessoas, pois os papéis sociais – filho, irmão, namorado, noivo, marido, cunhado, tio – nos constroem neste mundo que Shakespeare chamava de palco, que é vida porque nela entramos e saímos desempenhando papéis.

O papel de pai é uma entrada majestosa, o de tio e, sobretudo, o de avô reitera ventura e bem-aventurança.

A paternidade – e eu peço vênia por ter nascido homem – é um papel que produz orgulho porque faz você enxergar o seu pai como um companheiro e, eventualmente, produz a experiência maravilhosa de ser amigo do seu filho.

Virando bisavô, você se reconhece como um fundador das linhagens que você, como antropólogo, estudou Foto: Estoque Idebug, Inc/Adobe

Virar avô, como tornar-se tio, porém, é entrar num papel social muitas vezes inesperado, porque é indireto e pode estar fora de seus projetos. É um papel indiferente precisamente numa esfera da vida – casa e família – na qual pensamos ter controle total já que o governo é essa merda que se sabe.

Os pais dos pais e os seus irmãos têm conosco elos de simpatia, porque suas obrigações com nossa “criação” não são mandatórias. Amar pai e mãe é um dever dispensável para com tios e avós.

Virei avô faz tempo. Hoje posso ensinar esse papel que, ao contrário do de pai, dispensa orientação, porque você não projeta ser avô nem avó. Você simplesmente recebe o papel. Netos podem ser esquecidos ou ignorados, filhos têm o nosso “sangue” – esse símbolo definitivo de um elo perpétuo conosco. Aos pais devemos a vida, com avós e tios gozamos de uma liberdade que relativiza o bíblico “honrar pai e mãe”.

Mas o que acontece quando você envolve nos seus braços e sente nos seus lábios o calor de um rostinho em flor, pedindo para virar gente? Agora essa pessoinha não é sua, nem de seus filhos. Agora ela é o filho ou a filha de um filho ou filha!

Eis a maravilha! Não é neto, é bisneto. É o rebento de neta ou neto revelado em carne, sangue e afeto, que você não pensou ou planificou. É a prova da sua coragem de viver com amor e no amor. Virando bisavô, você se reconhece como um fundador das linhagens que você, como antropólogo, estudou –, mas somente agora você tem a experiência concreta da corrente de vida construída por você.

No fundo, lá no fundo, bisnetos e bisnetas exprimem graciosamente a necessidade da finitude. Porque esses você, conformado e sem nenhum ressentimento, não vai conhecer.

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