Não me ofereça luz!
Por Paulo Rosenbaum
Na guerra da linguagem ganha quem consegue instrumentalizar melhor o que se convencionou chamar de narrativa. Neste momento histórico, testemunhamos o totalitarismo de matizes ideológicas dispares, mas que tem em comum os adeptos da violência, entusiastas de violações coletivas, além de racistas contumazes que convenceram parte da opinião publica mundial de que atos não civilizacionais são, não apenas aceitáveis, mas justificáveis.
Era mais do que evidente que o fato de grandes mídias mundiais e governos, equivocados ou bem subsidiados, terem elegido Israel e os judeus sob o já manjado disfarce de “sionistas” como os campeões mundiais da ignomínia teria consequências, estamos colhendo-as.
E, evidentemente, clamam pela falência da segurança publica, e pela ruptura dos contratos sociais conquistados pelas democracias ocidentais. Um choque de grandes proporções está em curso e a balística ainda não pode prever a direção da trajetória.
E não importa mais saber o grau de determinação que os inimigos da humanidade possuem, mas apenas formular a minha ação, vale dizer, a nossa, e a de todos que sabem que o mal, sob pena de cometermos erros antigos, não pode ser tomado como uma abstração.
Não, agora não, não me ofereça luz alguma.
Antes precisamos entender a extensão das sombras que vem percorrendo o mundo. E então você me pergunta: se ainda faz sentido escrever? E se sabemos de fato o que é que está acontecendo?
E eu já te respondo, o único sentido em ainda insistir neste hábito de redigir poemas, símbolos e atuar nos cada vez mais reduzidos rincões de esperança, é que, ao saber o que se passa na realidade. não temos escolha. Saber não, pressentir.
O fundamento de tudo isso não está nas justificativas, mas nas entrelinhas. Chanuká, a festa baseado num evento histórico de um punhado de heróis que se opôs à escravização, e às tentativas de anular a identidade de um povo. Uma festividade cujo tema foi assim sintetizado por Howard Fast: “a primeira obediência à Deus é a resistência à tirania”.
Não se trata das lamparinas que sobreviveram mais do que deveriam, nem em se conformar em saber que tudo faz parte de um tempo linear, que um dia será, com aproximações sucessivas, um evento transformador, e que moldará um outro semblante para a humanidade.
Pois quais são os nossos objetivos para este mundo? E porque deveríamos nos convencer de que a paz é apenas um conceito como outro qualquer, e não um dos fundamentos da vida?
Por outro lado, a paz só é conquistada com consensos. E, sem consensos, a paz não passa de uma autoilusão, um consolo sem consistência. Quer saber por que continuamos? Porque nada está garantido sem uma boa dose de contundência para resistir aqueles que tentam calar a liberdade através do horror. E da negação dos códigos que erguemos coletivamente com muita dor dos povos, e fazendo sacrifícios absurdos.
É por isso que lutamos.
O mal-estar não está restrito à civilização e à cultura, encontra-se fincado nas capitulações, nas concessões ao imperdoável, nos interesses não explicitados, e, principalmente, no materialismo, que quer revisar a história humana com uma lente encomendada pelas ideologias.
Não, agora não, obrigado, ainda não me ofereça qualquer luz.
Estou com dificuldade para detectar quais seriam os caminhos remanescentes para proceder com o fique olamum antigo conceito que significa “consertar o mundo”. O obstáculo pode ser as lágrimas que agora aparecem solitárias, derramadas pelas pessoas inocentes chacinadas na Austrália, em Israel, nas universidade americanas, no Sudão e em várias localidades onde a negligência e a omissão permitem que os agressores tenham mais poder e capacidade de se organizar do que as populações.
Entretanto, o que me impede mesmo de achar perspectivas, são as sombras que ainda estão ofuscando minha capacidade de enxergar dentro da névoa. Névoa criada por avalanches de pautas de superfície, enquanto aquelas que realmente importam são ignoradas, suprimidas ou canceladas.
Estamos enfrentando algo conhecido dentro de um contexto ignorado. É que o tempo cíclico nos arrasta à mitologia da destruição como inexorável. E sabemos quão inútil tem sido a repercussão pedagógica das guerras. E ainda não temos a coragem, a força e a convicção necessárias para abraçar aquela promessa que nos guiaria até um destino melhor.
Se não há acaso, e é a necessidade que vigora, qual então afinal seria a nossa missão?
Não me ofereça luz, não até que todos enxerguem.
Ser farol é ser alvo. E quem disse que desejamos ser guias? Somos apenas embarcações prospectando um estado de bem comum. E estamos um pouco fartos de ser preferidos pelos que não toleram nem a vida, nem os vivos. Cogito, como o fantasma que sai de cena, e talvez fosse mesmo um bom roteiro, andar sem rumo até a curvatura do planeta para sermos esquecidos.
É, neste momento sobrevêm uma decisão contra intuitiva que afirma: desistir não é uma opção.
A tirania do terror somente será superada quando compreendermos que não se pode pautar a sobrevivência pela tutela da eterna reatividade. Nem com lamúrias. Nem com as denúncias que se funcionam como catarses nas redes e seus algoritmos — uma ditadura digital astuta — fortalecem o denunciado, enquanto enfraquecem o que se quer combater.
Tampouco devemos nos submeter à omissão das instituições e da inapetência dos governos pela justiça. E então retomo o lema de Fast sobre a atitude dos Macabeus, cujo resumo seria “não helenizamos, nem seremos helenizados”
O único sentido da permanência é ser quem devemos ser, como certa vez exigiu um sábio polonês de Kotsk.
Nem mais nem menos. No caso dos judeus, apenas um povo.
E agora sim, convocamos todos que desejarem oferecer luz, qualquer luz: é chegada a hora.
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