Meu plano de previdência é ter o tempo só pra mim. É ambicioso. Já pensou? Não precisar gastar nem um segundo pra resolver as tretas de outra pessoa, só pensar em adiantar o meu lado? Um sonho possível – mas difícil.
Porque primeiro vou ter que abraçar o desperdício das horas. É diferente de jogar dinheiro fora, porque com grana você pode tentar recuperar o prejú. Sei lá como; se soubesse já estaria rico. Com horários, é diferente. Até Marcel Proust lidou com o assunto, naquele Em Busca do Tempo Perdido – em sete volumes. Não posso comentar porque não li. Ler sete (!) livros sobre o tempo perdido me parece, enfim, perda de tempo.
Até daria. Como vou ter tempo de monte, e daí que estou lendo sete livros sobre o mesmo assunto? No dia seguinte, tenho mais 24 horas só pra mim. Mas tenho outras preferências. Aquele programa que as pessoas constroem facas do zero – quer diversão mais inútil? Eu tombo a cabeça e deixo a baba bovina escorrer.
Largados e Pelados também. É surreal: a produção larga duas pessoas peladas no meio do mato, e eles que lutem. Adoro ver a quantidade de picadas de pernilongo, as pessoas comendo larva pra sobreviver. Às vezes, penso em me inscrever no programa – porque emagrece. É mais barato que Monjauro. Porém, desconfio que me ver pelado seria ruim pros índices de audiência.

Ter um tempo para si é difícil. Alguém sempre pede alguma coisa Foto: Tracy King – stock.adobe.com
Pra fazer o nada bem-feito, a pessoa tem que evitar tudo que seja enriquecedor pro intelecto – ou pro ambiente. Exige disciplina, porque facilmente alguém arruma coisa útil pra você cuidar. Minha mulher é ótima nisso. Sabadão, eu na rede ouvindo Miles pela milésima vez – e ela vem com um quadro pra pendurar. Aí tem que buscar escada, pegar o martelo de carne da cozinha (o outro não sei onde está) – dá trabalho. Vira projeto. Chega de noite, a vigilância tem que ser maior: as pessoas convidam pra sair. Ir num bar, ainda mais agora? Não acho necessário. As bebidas de casa foram aprovadas diretamente por Baco; são super saudáveis. Tenho até Absinto, 66% de álcool. Uso mais pra limpar o rejunte do banheiro, mas tem gente que gosta.
Preguiça é ostentação. Estive na Bahia, e eles entendem de opulência horária. Pedi risoto de rabada em um restaurante. Quatro horas esperando o prato chegar, depois mais doze pra digerir. Esnobei mesmo: tenho tempo, vou gastar como eu quero. Andando pelo Pelourinho logo depois, gemendo, procurando um Epocler pra comprar, vi uma camiseta sensacional: “não que eu vá, mas onde é hoje mesmo?”. É como comprar carro: pergunto o preço por educação – mas prefiro economizar o meu patrimônio.