Mauricio de Sousa faz 90 anos e família revela memórias afetivas com o criador da Turma da Mônica

Mauricio de Sousa faz 90 anos e família revela memórias afetivas com o criador da Turma da Mônica

Na última edição da Bienal do Livro de São Paulo, em 2024, Mauricio de Sousa circulou pelo pavilhão do evento de surpresa. Cercado por seguranças, ele foi conferir o estande da Turma da Mônicauma das atrações mais movimentadas da feira. Não demorou para que fosse cercado por fãs que queriam trocar uma palavra com o homem responsável por alguns dos personagens mais amados do Brasil.

Pelas limitações da idade, Mauricio já não faz mais tardes de autógrafo. Mas, por décadas, ele passava horas e horas assinando revistinhas e sorrindo para fotos. A família que o acompanhava nos eventos dizia que já estava tarde, que ele precisava jantar e descansar. Mas Mauricio sempre insistia em ficar até o final, até que a última criança da fila voltasse para casa feliz.

Quem conta isso é Marcos Saraivade 39 anos, neto de Mauricio e filho da Mônica, aquela que inspirou a personagem. Segundo ele, o contato com os fãs é a coisa que mais dá energia ao quadrinista que, nesta segunda-feira, 27, completa 90 anos de idade. Marcos foi um dos familiares que conversou com o Estadão para celebrar o legado do Mauricio e revelar algumas das memórias afetivas com o patriarca da família.

Além do neto, a reportagem conversou com Alice Takeda (mulher de Mauricio de Sousa), Marina, Mauro e Mauricio Sousa (filhos do casal, de 40, 39 e 37 anos, respectivamente) e Marcelo Sousa (de 27 anos, filho de Mauricio com Marinalva Pereira dos Santos, com quem ele viveu um relacionamento durante um período separado de Alice).

Mauricio também é pai de Mariângela, Mônica e Magali (de 66, 65 e 64 anos), de seu primeiro casamento, com Marilene. Com ela, também teve Mauricio Spada, que morreu em 2016, aos 44 anos, vítima de enfarte. Do segundo casamento, com Vera Lúcia Signorelli, vieram as gêmeas Vanda e Valéria, de 55 anos.

São gerações, idades e experiências diferentes, mas a família garante que a relação é boa. Parte dela se reuniu na última terça-feira, 21, para a pré-estreia de Mauricio de Sousa – O Filmecinebiografia do quadrinista em cartaz nos cinemas. Na ocasião, ele, que parou de dar entrevistas recentemente, apareceu de cadeira de rodas e foi ovacionado pela plateia.

Mauricio: empresário, artista e pai

Essa imagem de Mauricio cercado por admiradores foi comum durante a infância de todos os filhos do artista, mas mais ainda para os caçulas. “Tinha a sensação de que eu dividia o meu pai com o Brasil inteiro”, lembra Marina. Ela sentia ciúmes quando as pessoas paravam o pai na rua. Com o tempo, o sentimento se transformou em orgulho.

Um dos grandes autores brasileiros, responsável por aproximar muitas gerações de brasileiros da leitura por causa de suas histórias em quadrinhos, Mauricio de Sousa saiu de Mogi das Cruzes para São Paulo em busca de viver dos desenhos. Começou como repórter policial do antigo jornal Folha da Manhãaté que finalmente emplacasse uma tirinha no papel.

Inspirado pela própria família e pelas memórias de infância, Mauricio criou personagens que começaram a cativar todo o Brasil. Seu grande triunfo veio na década 1960, com a criação da Turma da Mônica. Com as crianças do bairro do Limoeiro, Mauricio construiu um império e tornou-se uma das figuras mais conhecidas do País.

Por trás de tudo isso, ele também é pai, marido, avô e bisavô. Mas esses papéis também são inseparáveis do artista e empresário. “É muito difícil separar o Mauricio marido do Mauricio profissional. Nós moramos e trabalhamos juntos. Sempre estamos falando de algo relacionado à arte”, diz Dona Alice, como é chamada pelos funcionários da MSP Estúdios.

“Os dois tinham esse universo muito forte. Almoço, jantar e viagens eram Turma da Mônica. De certa forma, sempre fizemos parte disso, da empresa. Por isso que eu e o Mauro temos isso nas nossas entranhas”, diz Marina. Hoje, ela e o irmão integram a diretoria executiva da empresa do pai. Marcos e Marcelo também trabalham na empresa. Dona Alice e Mônica fazem parte do conselho, presidido por Mauricio de Sousa.

O outro lado de Mauricio

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A regra, no entanto, é clara: na empresa, Mauricio é Mauricio. Em casa, é o papai. “Ele sempre foi muito carinhoso, de pegar, abraçar, tanto ele comigo, quanto eu com ele. E sempre muito preocupado com o bem-estar dos filhos”, descreve Mauro. A palavra “carinhoso” é repetida por todos.

“Ele é uma pessoa muito do bem, pacífica, diplomática. Não tem tempo ruim para o meu pai”, diz Mauricio. Isso não significa que ele não é bravo. “Tiveram algumas situações, como uma criança levada que fui, em que eu aprontei algumas e meu pai teve que intervir para apaziguar a situação”, lembra o caçula de Dona Alice.

Marcos se lembra das viagens à chácara do avô no interior de São Paulo, quando as crianças se juntavam. “Ele saía no meio da madrugada para andar pela chácara e ver o que as crianças estavam fazendo. Nós nos escondíamos, ficávamos com medo dele”, recorda ele com um sorriso. “Ele tinha esse lado de cuidar, mas às vezes passava para a bronca.”

O filho caçula, Marcelo, reconhece que Mauricio é um pai diferente para cada filho. “O pai que a Vânia e a Valéria tiveram é um pai muito diferente do que pai que ele foi pra mim, para a Mônica. O pai do Marcelo, que ele já teve com mais idade, com 63 anos, é um pai muito mais filosófico. Não é um Mauricio que jogava bola, que ensinou a andar de bicicleta. Mas é um pai que a gente conversava sobre tudo.”

Algumas das melhores memórias de Marcelo com Mauricio são em jogos do Corinthians. “Ele ia assobiando o hino, mesmo sem ser corintiano”, diz o filho (Mauricio já declarou ser torcedor do São Paulo, assim como sua principal personagem, a Mônica). O filho caçula também conta que o pai está sempre atrasado, enquanto Mauro revela que Mauricio é muito esquecido.

Certa vez, Mauricio chamou a polícia na MSP Estúdios, acreditando que seu carro havia sido roubado. Quando chegaram lá, ele descobriu que a chave do veículo estava em seu próprio bolso, e que ele havia apenas esquecido que estacionou o carro em um lugar diferente.

As lições de Mauricio de Sousa…

E o que Mauricio ensinou aos filhos? Para Dona Alice, que divide três deles com o quadrinista, é bonito ver como ele ensinou a importância do cuidado com as crianças. “Ele ensinou muito aos filhos a sempre colocar as crianças em primeiro lugar e a prestar muita atenção nelas.”

Para o neto Marcos, isso também foi passado para o lado profissional. “(Ele fala para) sempre estarmos com o olhar para as crianças, estar perto delas, entendendo do que elas estão brincando, quais são as necessidades delas”. No lado, pessoal, diz que Mauricio ensinou a “olhar o copo meio cheio, valorizar o dia a dia.”

Marina ecoa o sentimento: “Ele realmente sempre foi assim, independentemente se estava dando bronca ou não, de falar: ‘gente, vai dar tudo certo’”. Marcelo compartilha um conselho: “O meu pai sempre me disse que quando uma porta se fecha, uma janela se abre. Para você não abaixar a cabeça e continuar olhando para os lados.”

Mauro destaca a humildade. “Sendo o que ele é, ele é uma pessoa extremamente humilde, que gosta da simplicidade da vida, do sorriso das pessoas”. Mauricio diz que o pai é uma inspiração em muitos sentidos, mas principalmente como artista: “Não consigo nem dimensionar o privilégio de poder ter um pai dessa magnitude.”

Mauro completa: “Meu pai é muito cabeça aberta. Está sempre disposto a aprender e, com 90 anos, não tem medo de dizer que ele não sabe”. Há alguns anos, Mauro revelou em uma publicação no Instagram que Mauricio havia lhe perguntando o que era uma pessoa trans. Ele argumenta que essa disposição a aprender também foi o que fez o desenhista virar o que virou.

Um legado que perpassa gerações

Em 90 anos de história, é inegável que Mauricio e a Turma da Mônica impactaram gerações. Marina recorda uma situação em que, prestes a subir ao palco em um evento, uma funcionária relatou a ela algo comovente: a maior alegria de sua avó durante a pandemia da covid-19, internada em um hospital, era ler as revistas da Turma da Mônica. “Isso é o que nos move. O combustível do dia a dia é entender como o Mauricio impacta a vida das pessoas.”

“O maior legado do Mauricio, indiscutivelmente, é o que ele passou de cultura para as crianças”, afirma Dona Alice. “É o que ele fala com muito orgulho, com muito brilho nos olhos: que ele é o maior alfabetizador do Brasil, o maior incentivador à leitura”, acrescenta Mauro.

Marcelo, que viu o pai ser parado inúmeras vezes em idas ao cinema, diz que é possível entender o impacto do trabalho e da vida do pai nesses momentos de interação com o público, “quando as pessoas voltam à infância ao se deparar com algum elemento da Turma da Mônica”.

“E há vários outros, ele tem um legado gigantesco para toda a comunidade artística brasileira”, argumenta Marcos, enquanto Marina aponta que esse legado “imensurável” e ainda será descoberto ao longo de muitos anos. “Ele é um patrimônio cultural de uma importância inestimável para o Brasil”, afirma Mauricio.

O reconhecimento que importa

Em 2023, Mauricio se inscreveu para a Academia Brasileira de Letras, movimentando discussões sobre histórias em quadrinhos e a chamada “alta literatura”. Quando perdeu a eleição para o filólogo Ricardo Cavaliere, se viu defendido por parte do público que não compreendia como o homem que teve papel tão grande no incentivo à leitura não teria espaço na principal instituição literária do País.

Falta reconhecimento a Mauricio, então? “Acho que a ABL perdeu sim, mas sinto que meu pai já sente um reconhecimento tão genuíno do público que isso já é satisfatório para ele”, argumenta Mauro. Marina completa: “Ele não fica chateado. Acho que existe uma frustração porque o universo dele são os quadrinhos. Mas a perspectiva que ele viu ali é que ele levantou uma discussão muito importante para o mercado de quadrinhos”.

“É o reconhecimento das crianças e do público que o faz grande”, afirma Dona Alice. “O Mauricio não se preocupa muito com chancelas. Nunca foi apegado a isso”, diz Marcos. “Obviamente, ele tem muitas homenagens. Ele se orgulha muito de tudo isso, mas nunca trabalhou para isso. Quando você vai a uma Bienal do Livro e vê o Mauricio sendo ovacionado, é isso que recarrega as energias dele.”

Aos 90 anos, Mauricio já não pode mais passar horas assinando revistinhas. Mas o que a família deseja é que a energia do público continue chegando até ele, para que ele possa seguir celebrando um legado que, como Marina disse, é imensurável.

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