Luc Besson se amedronta e foge do ridículo em ‘Drácula: Uma História de Amor Eterno’

Luc Besson se amedronta e foge do ridículo em ‘Drácula: Uma História de Amor Eterno’

O que leva um cineasta a adaptar, nas telonas, a história do Drácula em plena década de 2020? Afinal, o livro de Bram Stoker foi lançado em 1897 — há quase 130 anos — e o primeiro filme inspirado no vampiro está prestes a completar 100 anos, em 2031. Será que tanto tempo depois, e após tantas adaptações já lançadas nos cinemas e na TV, ainda há espaço para mais uma releitura, mais uma versão, para mais um Drácula nos cinemas?

‘Drácula’, de Luc Besson, fica entre o ridículo e o sério, entre o ‘camp’ e o épico Foto: Paris Filmes/Divulgação

Luc Besson, cineasta francês de O Quinto Elementoignora essa exaustão ao redor do livro de Stoker e lança mais uma versão da clássica história. O longa-metragem Drácula: Uma História de Amor Eternocomo o próprio título diz, não quer focar no horror da jornada de um vampiro, mas sim na história de amor ao seu redor.

Nela, Vlad (Caleb Landry Jones) sofre muito após a morte de sua amada. Relutante em aceitar seu fim e renegando Deus, o príncipe da Transilvânia se torna uma criatura quase sem alma. Vaga por aí, entre séculos, sempre procurando a falecida. A religião se torna quase um ato de violência para Vlad, mas ele ainda se agarra ao conceito da reencarnação para crer, tal qual um verdadeiro fiel, que sua amada irá voltar. Basta apenas esperar.

No entanto, durante essa longuíssima espera, ele se torna o Conde Drácula, vampiro que mata as pessoas ao seu redor e transforma outras em uma criatura semelhante a ele. Como fazer quando a amada ressurgir? Como ela irá lidar com uma criatura tão vil e pecaminosa?

Entre a cruz e a espada

São essas as questões que norteiam o trabalho de Besson. Não pense, porém, que o cineasta francês vai fundo nisso. Um tanto confuso, nessa dicotomia do cinema autoral europeu e a necessidade de se provar eficaz para o mercado americano, Besson fica em cima do muro. De um lado, um belo filme que reflete sobre amor, solidão e a finidade da vida, até com reflexões teológicas surgindo aqui e ali; do outro, a tentativa de descolar um Blockbuster em cima dessa história, inserindo até mesmo gárgulas digitais na história.

Fica um tom dúbio, quase bipolar, que predomina na maioria dos trabalhos mais recentes de Besson — escapa apenas Dogmano único filme digno de nota após A Família e Lucyde 2013 e 2014, respectivamente. É um cinema estranho, que nunca deixa o acamparo brega, o ridículo entrar confortavelmente dentro da proposta de roteiro, assinado por Luc.

Aliás, o único que parece entender o tom certo de Drácula: Uma História de Amor Eterno é Caleb Landry Jones. O ator, que já tinha brilhado em Dogmanvolta a mostrar plena consciência de seu trabalho. Aqui, faz um Drácula sarcástico, até mesmo um tanto estranho demais. Tudo bem que, em alguns momentos, ele parece estar uma esquete do SNLmas, no fundo, o ator encontra o drama do personagem mesmo carregado de maquiagem.

Visual do ‘Drácula’ de Besson é parecido com o ‘Drácula’ de Coppola Foto: Paris Filmes/Divulgação

Ou seja: Besson puxa o tom do filme pra baixo, sempre com uma seriedade desconcertante, enquanto Caleb Landry Jones compreende os caminhos desta nova adaptação e tenta algo novo. Se Drácula fosse mais Dogmantalvez fosse um dos filmes do ano. Mas, como nem chega perto e não se pode trabalhar com imaginação, o resultado é um filme inegavelmente morno, que parece não ter objetivos claros de se diferenciar.

Nada de novo no front

E é aí que surge o grande pecado de Drácula: Uma História de Amor Eterno. Sem o acamparsem o humor, sem o brega, o longa-metragem entra numa longa fila de adaptações. O visual do vampiro se assemelha (e muito!) ao adotado por Coppola em sua adaptação. Já a história de amor e obsessão conversa mais com os dois Nosfer mais recentes: o de 1979, de Werner Herzog, e o mais atual, de 2025, dirigido por Robert Eggers.

Não há grandes novidades ao redor desse Drácula de Besson. É como se tudo fosse uma eterna reprise de histórias, produções e estéticas que já vimos. Ele pega uma pitadinha de Coppola ali, outra de Herzog aqui. Talvez não tenha dado tempo de se inspirar em algo de Eggers, mas com certeza os dois olharam na mesma direção. A diferença é que o cineasta por trás de Nosfer conseguiu não apenas ser mais rápido, como também mais certeiro.

No novo Dráculafaltam a ousadia e a criatividade de um cineasta que, no passado, já impactou o mundo com os aliens e o Bruce Willis de O Quinto Elementoque emocionou com o já clássico O Profissional e, mais recentemente, que não teve medo de transformar Scarlett Johansson em um Pendrive — literalmente! — no divertido, criativo e ousado Lucy.

A maior ousadia de Drácula é colocar as tais gárgulas digitais como os servos de Vlad e, no final, transformá-las em outra coisa (sem spoilers!), tentando alcançar uma reviravolta que não existe e ninguém está interessado. Até Christoph Waltz, coitado, não sabe o que fazer como o padre que enfrenta o Drácula. O material é esquecível e nós, público, só temos a lamentar: perdemos a oportunidade de ver uma das adaptações mais estranhas de Stoker.

Dirigir um novo Dráculatantos anos depois do primeiro filme e com tantas adaptações na memória, surge apenas com duas possibilidades: prepotência ou uma grande ideia. Cá entre nós, Besson mirou no segundo, mas acertou no primeiro motivo. Fez um filme apenas para mostrar que tem uma adaptação dessa na filmografia — e nada mais.

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