Governo não escuta ciência como deveria, diz nova presidente da SBPC

Governo não escuta ciência como deveria, diz nova presidente da SBPC

‘Ciência precisa estar no TikTok, em linguagem simples’ diz nova presidente da SBPC

Francilene Garcia, professora da Universidade Federal de Campina Grande, defende pesquisa acessível e ciência como política de Estado.

Foto: Jardel Rodrigues/SBPC

Francilene GarciaPresidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)

Professora e pesquisadora da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Francilene Procópio Garcia assumiu, na semana passada, o cargo de presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) para o biênio 2025-2027. Segundo a cientista, uma das principais metas de sua gestão é transformar a ciência em política de Estado e popularizar as informações científicas, tornando-as acessíveis à boa parte da população.

“Precisamos ampliar a voz da ciência”, afirmou, em entrevista ao Estadão. “A ciência precisa estar no Tiktokem linguagem simples e acessível para grande parte da população”, acrescenta.

Francilene, de 58 anos, é cientista da computação e atua em uma universidade federal no agreste da Paraíba que é líder nacional de patentes no setor acadêmico. Para ela, os saltos no setor só ocorrerão se houve planejamento e verba como política de Estado.

Ela também lamenta a falta de escuta do poder público – tanto do Executivo quanto do Legislativo – para o que diz a ciência sobre temas importantes para o futuro do País. “O governo ainda está muito distante do que prometeu em termos de investimento na Amazônia”, critica.

A nova líder da SBPC também cita o exemplo do projeto de lei que flexibiliza o licenciamento ambiental, visto para ela como uma ameaça. Os defensores apontam a necessidade de reduzir a burocracia e a demora nesses processos. “É fundamental que a população esteja mais informada sobre os efeitos desse PL em suas vidas, nas vidas de seus filhos e netos.”

Veja os principais trechos da conversa:

Quais as metas prioritárias para o seu mandato à frente da SBPC?

A SBPC tem 77 anos de presença na ciência brasileira, uma interlocução bem estruturada com as sociedades científicas (são 160 em todo o Brasil). Mas para esta nova gestão, 2025-2027, temos cinco eixos estratégicos. Primeiramente, estamos lutando para transformar a ciência em política de Estado, consolidar no País uma ciência qualificada e de impacto. Precisamos que alguns critérios de impacto entrem nos programas de avaliação. Um segundo eixo importante é trazer os jovens para a SBPC. O que vemos normalmente é uma SBPC muito populada por pesquisadores maduros, laureados. Entendo que, para que algumas mudanças estratégicas ocorram, precisamos dos jovens para romper barreiras. Nosso terceiro eixo é estabelecer novos modelos de gestão e governança para fortalecer infraestruturas científicas. O quarto diz respeito a mostrar à sociedade a importância dos investimentos em ciência, reforçando programas como o “SBPC vai à escola”, e revistas como Ciência e Cultura. Queremos ampliar ainda mais a voz da ciência. A ciência precisa estar no TikTok, em linguagem mais simples e acessível à grande parte da população. E precisamos discutir uma prática mais presente no Hemisfério Norte, mas ainda rara por aqui que é o da filantropia científica. O quinto eixo, considerando a geopolítica global, é provocar de maneira mais presente a inserção internacional e a solidariedade científica em temas como transição energética e estimular a cooperação Sul-Sul. A diplomacia científica precisa ser fortalecida.

Na pandemia, a ciência ganhou muito espaço nas redes sociais. A senhora mencionou há pouco a necessidade de a ciência estar no TikTok. Como estimular esse movimento?

Esse espaço que a gente quer entender mais. O Instituto Serrapilheira (instituição privada de apoio à pesquisa), onde sou presidente do Conselho Científico, tem financiado a qualificação dos canais para falar em linguagens mais atrativas, inseridas nos comportamentos da juventude. Buscamos o fortalecimento desses canais, a organização de diálogo com pesquisadores e cientistas que qualifiquem as informações divulgadas.

Qual a análise faz da ciência hoje no País?

Mesmo com investimento comparativo à porcentagem do PIB (Produto Interno Bruto) bem abaixo de outros países (o Brasil investe em ciência o equivalente a 1,2% do PIB)não só das economias líderes, mas também de algumas que chegaram mais recentemente, como as dos tigres asiáticos, a ciência brasileira é muito resiliente e produtiva. Sobretudo quando olhamos para algumas áreas, como a saúde. Nesta área temos um desenvolvimento significativo na produção de conhecimento e na transferência de conhecimento para o setor produtivo, chegando à população na forma de mais qualidade de vida. De meados do século 20 para cá, o Brasil tem dado mais atenção aos investimentos em ciência, sobretudo investimentos nas universidades públicas e na infraestrutura de pesquisa, mesmo em áreas de fronteira do conhecimento. As unidades de pesquisa do Ministério da Ciência e Tecnologia têm missões estratégicas importantes. Somos hoje o 16º país na produção de conhecimento científico e estamos buscando uma ciência de mais impacto. Olhando para os desafios globais, o Brasil tem condições de liderar em algumas áreas, como evitar novas epidemias e saber combatê-las. Na transição energética, temos soluções como o álcool. Temos ainda ativos de biodiversidade. O Brasil ainda não tem o nível de investimento de outros países que veem a ciência como política de Estado, mas temos uma infraestrutura de pesquisa que faz boa ciência, relações de colaboração internacional visíveis e reconhecidas. Nos falta projeto de longo prazo para que a ciência possa ajudar o País a se tornar mais justo socialmente, com soberania em áreas importantes e estratégicas. No caso da Inteligência Artificial (IA), por exemplo, não podemos brigar pela liderança global, mas ter tecnologia própria e soberania. O Brasil sabe fazer, contribui para a ciência global; só precisa ajustar algumas questões, como investimentos, gestão e governança.

Por que não temos um projeto de longo prazo?

Ficamos 14 anos sem ter uma conferência nacional de ciência, tecnologia e inovação até o ano passado. Em 2024, conseguimos realizar a 5ª conferência e elaborar uma proposta para um Plano Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação. Uma das metas do plano é até 2030 estarmos investindo o equivalente a 2% do PIB em ciência e, até 2050, chegarmos a, pelo menos, 3%. A ideia é termos, ainda para este ano, uma estratégia nacional e, a partir disso, um plano decenal, que apresente metas alinhadas com o setor produtivo para segurança alimentar, descarbonização. O plano decenal precisa trazer metas, diretrizes estratégicas. Precisamos mudar a forma de produção e fazer as coisas acontecerem. Temos de colocar a ciência, o conhecimento e a pesquisa como pilar do Estado, vencer os problemas históricos e avançar.

Como o Brasil deve se posicionar diante do governo de Donald Trump, nos Estados Unidos, marcadamente anticiência?

Nessa nova organização da geopolítica global, Donald Trump estabelece desinvestimentos em várias áreas, como saúde, produção de vacinas. Isso faz com que o Brasil, nesse novo projeto, tenha de repensar como se posicionar sem perder o fôlego, sem desacoplar das ações que já vêm desenvolvendo. Essa nova geopolítica não é apenas relacionada a questões de ciência, mas arrasta políticas tarifárias. O plano precisa ter a capacidade de se adequar e se reformular a cada adversidade. É um novo modelo de planejamento e desenvolvimento com o qual não tínhamos o hábito de lidar. A diplomacia científica precisa estar presente.

A ciência é escutada como deveria pelo governo?

Ainda não é escutada como deveria. O maior exemplo é o da COP-30 (a Cúpula do Clima das Nações Unidas, que será realizada em Belém em novembro)um momento importante diante dos desafios da nova geopolítica global, em que a ciência precisa ser mais ouvida. Os modelos de escuta são muito protocolares, precisariam ter mais flexibilidade. O governo ainda está muito distante do que prometeu em termos de investimento na Amazônia. Além da escuta, é preciso propor mecanismos de diálogo e interconexão entre entidades. Não temos na política científica nenhum mecanismo de governança que coloque as diversas pastas em contato quando estão tratando de questões relacionadas. No caso do “PL da Devastação” (nome dado pelos críticos ao projeto de lei que flexibiliza o licenciamento ambiental)aprovado no Congresso, por que não ouvir a ciência em relação às consequências para os próximos dez anos? É fundamental que a população esteja mais informada sobre os efeitos desse PL em suas vidas, nas vidas de seus filhos e netos.

O Brasil não deveria liderar os debates científicos em algumas áreas, como aquecimento global, sobretudo agora, às vésperas da COP-30 e diante da saída dos EUA das discussões?

O Brasil já lidera em algumas áreas, como o programa do etanol. Várias regiões do Nordeste têm presença forte de plantas de geração eólica, solar, híbrida e de hidrogênio verde. Mas ainda não temos capacidade de produzir elementos da cadeia produtiva como um todo. Precisamos ter diretrizes de política industrial, com prazos e metas assentados. Não estamos tão atrás, mas precisamos avançar.

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