Fui a Portugal quatro vezes e concluí: ser estrangeiro em um mundo de abismos não é fácil

Fui a Portugal quatro vezes e concluí: ser estrangeiro em um mundo de abismos não é fácil

Fui algumas vezes a Portugal. A primeira, em 1974, foi quando tirei proveito de uma conferência sobre rituais em Viena e, na volta, passei dois dias em Lisboa para, como ordena o linguajar turístico, “conhecer” a cidade.

Assim fiz, adicionando ao olhar do jovem turista de 38 anos sem escudos, a demanda antropológica de ter uma experiência da cultura da qual sou uma parcela insignificante e, por isso mesmo, interessada em compreendê-la. Queria saber como Portugal recebia forasteiros que paradoxalmente compartilhavam sua língua e resultavam de sua riquíssima história. Uma saga inauguradora do que chamamos de “mundo moderno”, pois foram os navegadores lusos que — por mares nunca dantes navegados, como afirma Camões — destamparam o mundo. Esse mundo que, hoje, Donald Trump se esforça para isolá-lo de si mesmo.

Dessa visita, guardo um episódio revelador. Um americano e eu dançamos com uma mesma moça e ela reclamou do cheiro de corpo do ianque. Essa observação, que remete à oposição entre “sujo e limpo”, estampou o parentesco entre Lisboa e Niterói!

A segunda visita ocorreu em 1980, quando percorri muitas cidades do país num mini Morris. Deste feita, segui o protocolo antropológico e escrevi um diário-de-campo com religiosa disciplina. Nele, escrevi muitos episódios de fraternidade cultural imediata quando, por exemplo, falava com um recém-conhecido dono de uma pousada sobre “saudade” ou sobre a frustração com o governo que, àquela época, estava sofrendo um terremoto em Portugal.

A terceira vez, que sempre concluía as histórias de fada e inveja que minha tia Amália contava para cinco meninos, dos quais eu era o mais velho e hoje o único sobrevivente, foi quando participei de um seminário dedicado a Gilberto Freyre. Ali, descobri a desagradável dificuldade de entender a linguagem formal dos colegas lusos.

Nesta quarta e, certamente, última vez, voltei a para discutir futebol como esporte. Essa esfera social que congrega diversão com competição física e celebração de massa.

Agora fui a Lisboa, Coimbra e Porto, onde visitei minha neta Estela que, como advogada, ajuda os que, como ela, buscam construir a vida em outras terras. Ser colocado no papel de estrangeiro não é fácil neste mundo que as diferenças entre povos reproduzem a miséria dos abismos de classe, raça e gênero.

Foi, pois, por meio do III Colóquio INTC Futebol, idealizado por Carmen Rial e coordenado por Fabio Machado Pinto, que voltei a aportar no Porto; e lá rever minha neta Estela e minha filha Maria Celeste, fazendo o gol de placa de estar acomunado da Christina, minha treinadora e querida mulher. Encontrei um porto no Porto. Fiquei feliz ancorado por três amadas mulheres.

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