Como nossos ancestrais conseguiram domesticar os cavalos

Como nossos ancestrais conseguiram domesticar os cavalos

Quando criança eu sonhava em ter uma zebra domesticada. Infelizmente os seres humanos nunca conseguiram domesticar zebras. Elas são agressivas e se assustam facilmente. E isso levanta a questão: como nossos ancestrais conseguiram domesticar os cavalos e não as zebras?

OS cavalos foram domesticados 4.500 anos atrás, quase cinco mil anos depois de termos domesticado porcos, vacas, cabritos e carneiros. E muito depois dos jumentos, que já eram usados ​​no transporte de pessoas e mercadorias. A domesticação do cavalo aconteceu nas estepes russas e a análise dos sítios arqueológicos dessa região, do período anterior à domesticação, contém indícios de que os cavalos já eram criados para servir de alimento e para produzir leite. Mas não eram montados.

Algo ocorreu 4.500 anos atrás que permitiu o surgimento dos cavalos de montaria. Agora, os cientistas descobriram que nessa época surgiu uma única mutação em um dos genes (chamado GSDMC) que permitiu sua domesticação.

Existem centenas de esqueletos desenterrados na região em que o cavalo foi domesticado. A descoberta foi feita sequenciando e comparando o genoma de fósseis de cavalos que morreram antes, durante e depois do período em que foram domesticados. A descoberta dessa mutação foi feita comparando as sequências de DNA dessas amostras.

Quando surge uma nova mutação em uma população (imagine um tigre albino) esse animal é único, e na maioria das vezes a mutação desaparece da população ou persiste em poucos indivíduos. Para ela se propagar na população, precisa trazer alguma vantagem reprodutiva para o animal. Por exemplo, se todas as fêmeas são atraídas pelo macho albino, ele vai ter muito mais filhos que os outros machos. E os albinos, aos poucos, substituem os tigres amarelos.

Esse é o processo de seleção natural descoberto por Darwin. Outro processo, também descrito por Darwin, é a seleção artificial: criadores de tigres passam a cruzar propositalmente, e preferencialmente, tigres albinos. Logo a frequência dos albinos aumenta rapidamente. Esse é o método usado pelos criadores de cachorros e vacas para melhorar a raça ou criar novas raças.

Comparando o genoma dos cavalos antes, durante e depois da domesticação, os cientistas descobriram uma variante do gene GSDMC que se propagou muito rapidamente na população durante um período de aproximadamente 200 anos. Essa rápida propagação indica uma enorme seleção a favor do novo gene durante o período de domesticação.

Hoje, todos os cavalos que usamos para montar possuem esse novo gene e os indivíduos sem a mutação praticamente desapareceram. Só esses dados já sugerem que esse gene deve estar relacionado à domesticação. O interessante é que esse gene é bem conhecido, pois ele determina a formação e as estruturas das vértebras e dos discos intervertebrais.

No passo seguinte, os cientistas produziram ratos transgênicos contendo a mesma mutação identificada nos cavalos. Os ratos com essa mutação possuem uma coluna vertebral reforçada e um aumento no tamanho e da força nas patas dianteiras, o que permite que eles sofram menos lesões quando sua coluna é submetida a esforços. O gene GSDMC existe em todos os mamíferos. Em humanos, algumas variantes estão relacionadas a uma doença chamada estenose da coluna vertebral.

O que os cientistas acreditam é que a domesticação ocorreu em duas etapas. Na primeira, os humanos selecionaram animais dóceis capazes de viver em cativeiro que eram criados para carne e leite. Mas esses animais não se deixavam montar, talvez por uma fraqueza nas pernas anteriores (onde se concentra o peso do cavaleiro), talvez pelo fato da coluna vertebral ser mais fraca e os discos menores, o que talvez provocasse dor no animal. Mas, em algum momento, surgiu a mutação no gene GSDMC, e nossos ancestrais descobriram que alguns animais e seus descendentes serviam como montaria.

A partir desse momento somente esses animais passaram a ser colocados para criar, o que provocou uma seleção muito forte a favor da mutação. E, então, todos os animais passaram a ser passíveis de serem montados. E são os descendentes desse primeiro grupo que hoje compõem todos os cavalos que criamos nos mais diversos continentes.

Sem saber nada sobre genética, mas sabendo que as características de um animal tendem a passar para sua prole, há 4.500 anos, nossos ancestrais identificaram os mutantes que podiam ser montados e passaram a reproduzir somente animais com essas características. E foi assim que surgiu o melhor e mais rápido meio de transporte até a invenção do carro.

Mais informações: Seleção no locus GSDMC em cavalos e suas implicações para a mobilidade humana. Ciência https://science.org/doi/10.1126/science.adp4581 2025

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