O preparado homeopático Oscilococcinumusado no tratamento de gripes, é um peculiar exemplo no qual o nada e o infinito se complementam.
Parte 1: O Nada
Tudo começou durante a pandemia da gripe espanholaem 1918. O médico francês José Roy alegou ter descoberto uma bactéria no sangue de pacientes, que, devido ao movimento oscilatório característico, foi batizada de Oscilococo.
Mais tarde, alegou ter encontrado a mesma bactéria também no sangue de pessoas que sofriam de outros males, como reumatismo, tuberculose, sífilis, sarampo e câncer. Seria um “germe universal”, ideia que encontrava alguma ressonância naquela época.
Como ele era homeopata e na homeopatia vale o princípio da isopatia (um medicamento derivado do agente causador da doença é usado para tratá-la), ele buscou esta bactéria em outros locais e achou tê-la visto também no fígado e coração de patos-do-mato (Carina Moschata) saudáveis – que passariam a ser a matéria-prima do preparado homeopático batizado de Oscillococcinum (marca registrada do laboratório francês Boiron).
Em pouco tempo ficou claro que o Oscillococcinum era ineficaz contra câncer, sífilis, sarampo e tuberculose – mas continuou sendo receitado contra gripe (mesmo considerando que desde 1933 já se sabia que a gripe humana tinha origem viral – e não bacteriana).
Mas havia um outro problema: a única pessoa que conseguiu ver a suposta bactéria Oscillococo sob o microscópio fora o próprio descobridor. Sim, nenhuma outra pessoa jamais viu a suposta bactéria – era um relato anedótico do médico francês. O preparado era baseado em algo inexistente.
Parte 2: o infinito
Entra em cena outro princípio-chave da homeopatia: a diluição (“potenciação”). O inventor optou pelo método Korsakov na maior potência (maior diluição): 200K. O soluto é diluído em água na proporção 1:100 (10-2) por 200 vezes. A solução final tem 10-400 do soluto inicial. O que significa isto em termos práticos?
Uma gota numa piscina olímpica? Não, em comparação com o preparado do Dr. Roy, seria concentrado demais: 2×10-11.

Foto: Estadão
Uma gota de ativo diluída em toda a água da Terra? Só 3,6×10-26. Ainda não seria o suficiente.

Foto: Estadão
E se fosse apenas um átomo diluído em toda a matéria existente do universo visível? Seria algo na ordem de 10-82. Acredite, mais concentrado que o Oscillococcinum (10-400). O preparado Oscillococcinum não cabe no universo.

Foto: Estadão
Concluindo: muito pode ser dito sobre estranhezas da homeopatia em geral, como seus princípios pseudocientíficos e diluições altíssimas (a ponto de ser impossível de detectar qualquer molécula restante da substância inicial), mas o Oscillococcinum reina numa situação singular dentro dela, por representar o zero absoluto dividido pelo infinito.

Foto: Estadão
Nota: a despeito do nome do preparado aludir à bactéria vista pelo Dr. Roy, atualmente não há menção textual alguma a ela na embalagem ou na literatura oficial do preparado homeopático. E, ironicamente, assim como não há registro visual da bactéria, não existem fotos do próprio Dr. Joseph Roy.
Nota 2: mesmo sem embasamento científico, a homeopatia é reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina desde 1980.