Nobel de Medicina premia descobertas que abrem caminho para terapia mais segura contra o câncer

Nobel de Medicina premia descobertas que abrem caminho para terapia mais segura contra o câncer

Qual é a importância do Prêmio Nobel de Medicina de 2025?

José Eduardo Krieger, professor no Instituto do Coração, explica como descoberta ajuda a entender os mecanismos de ação do sistema imunológico.

O Prêmio Nobel de Medicina de 2025 foi concedido para três cientistas que estudam tolerância imunológica periférica – os americanos Mary Brunkow, Fred Ramsdell e o japonês Shimon Sakaguchi -, anunciou a Academia Sueca de Ciências nesta segunda-feira, 6. As descobertas desse trio abriram caminhos para novos tratamentos contra doenças autoimunes e o câncer.

O sistema imunológico é crucial para a nossa sobrevivência e saúde. Sem ele, seríamos altamente vulneráveis aos vírus e bactérias. Por meio desse sistema, o corpo combate patógenos e guarda um tipo de memória para saber qual é a melhor forma e a mais rápida e eficaz de reagir a esse problema em uma nova infecção.

A tolerância imunológica periférica é uma das formas que o corpo utiliza para evitar que o sistema imunológico se desregule e ataque os seus próprios tecidos em vez de combater os invasores estranhos.

As descobertas desse trio de pesquisadores impulsiona o desenvolvimento de tratamentos médicos para câncer e doenças autoimunes. Além disso, pode ajudar na condução de transplantes mais seguros.

“As descobertas sobre as células T regulatórias (Tregs) e o gene FOXP3 mostraram como o sistema imunológico aprende a distinguir entre o que deve atacar e o que deve proteger. Esse equilíbrio é o que nos mantém saudáveis”, explica o médico Bruno Solano, pesquisador do IDOR Ciência Pioneira e da Fiocruz/BA.

“Quando ele falha, surgem doenças autoimunes (como diabetes tipo 1, lúpus, artrite reumatoide, esclerose múltipla). Quando é excessivo, tumores e infecções podem escapar da vigilância do sistema imune.”

Segundo Solano, também membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências (ABC), as descobertas abriram caminho para novos tratamentos capazes de controlar o sistema imunológico de forma mais precisa.

““(As descobertas estão) na base do desenvolvimento de terapias celulares com Tregs, que já estão em fase de testes clínicos para prevenir rejeição de transplantes e tratar doenças autoimunes”, contou Solano. “Também ajudam a tornar as imunoterapias contra o câncer mais seguras e eficazes.”

Em meados dos anos 1990, Sakaguchi, da Universidade de Osaka (Japão), descobriu uma classe de células além do sistema central, o que explica como o corpo se protege de doenças autoimunes.

Mary Brunkow e Fred Ramsdell – das Universidades de Princeton e da Califórnia, respectivamente – fizeram outra descoberta crucial em 2001, quando apresentaram a explicação para a vulnerabilidade particular de uma linhagem específica de camundongos a doenças autoimunes.

Eles, hoje com 64 anos, descobriram que os camundongos tinham uma mutação em um gene que nomearam Foxp3. Também mostraram que mutações no equivalente humano deste gene causam uma doença autoimune grave, a IPEX.

Dois anos depois, Sakaguchi, hoje com 74 anos, conectou esses achados científicos, ao provar que o gene Foxp3 controla o desenvolvimento das células que ele próprio havia identificado em 1995. Essas células – hoje chamadas de Células T regulatórias – monitoram outras células imunes e garantem que o sistema imunológico não ataque os próprios tecidos do corpo.

“O sistema imunológico é altamente específico: precisa reconhecer e atacar agentes estranhos, como vírus e bactérias, sem reagir contra o próprio organismo. Parte desse controle ocorre na chamada tolerância central, dentro do timo e da medula óssea. Mas outro mecanismo igualmente essencial acontece fora desses órgãos, na tolerância imunológica periférica, tema reconhecido pelo Nobel de Medicina de 2025″, explicou Solano sobre o trabalho desenvolvido pelos colegas. “As descobertas laureadas elucidaram esse processo, com a identificação das células T regulatórias e do papel do gene FOXP3, que atuam como um freio para impedir respostas autoimunes. Esses achados explicam como o corpo mantém o equilíbrio imunológico.”

Com o entendimento disso, os avanços possíveis são:

  • evitar que as células T formem uma parede de proteção em tumores, o que prejudica o tratamento contra certos tipos de câncer
  • promover a formação de mais células T, o que é útil no tratamento de doenças autoimunes
  • atuar para que as células T não atuem na rejeição de um órgão transplantado, como um rim ou fígado

O vencedor (ou vencedores) receberá uma medalha de ouro, um diploma e 11 milhões de coroas suecas (o equivalente a cerca de R$ 6,2 milhões).

No ano passado, o prêmio de Medicina ficou com os americanos Victor Ambros e Gary Ruvkun pela descoberta das moléculas de microRNAs e seu papel na ativação e desativação de trechos do DNA.

A programação segue:

  • Terça-feira, dia 7: Física
  • Quarta-feira, dia 8: Química
  • Quinta-feira, dia 9,: Literatura
  • Sexta-feira, dia 10: Paz
  • Segunda-feira, dia 13: Economia

A cerimônia de entrega dos prêmios está marcada para 10 de dezembro, como ocorre todos os anos, aniversário da morte do químico sueco Alfred Nobel (1833-1896), criador da premiação.

Criado em 1901, o prêmio já foi entregue 627 vezes para 976 pessoas e 28 organizações. O Brasil nunca recebeu um Nobel, embora alguns nomes já tenham figurado nas listas de apostas.

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