100 anos de B.B. King: como o guitarrista virou padrinho de tradicional casa de shows em SP

100 anos de B.B. King: como o guitarrista virou padrinho de tradicional casa de shows em SP

Passado um século desde o nascimento de Riley Ben King, a emoção não acabou – ao contrário do que ele cantava na chorosa obra-prima do blues A emoção se foi.

BB King (1925-2015), que completaria 100 anos nesta terça-feira, 16 de setembroainda é reverenciado e redescoberto por novas gerações. No panteão dos grandes guitarristas da história, o homem que deixou a miséria dos campos de algodão no sul dos Estados Unidos foi capaz de conquistar o mundo com as notas aconchegantes de sua Gibson Les Paul, apelidada de Lucille.

Quem visita o Bourbon Street Music Clubno bairro paulistano de Moema, logo se depara com o instrumento emblemático (e autografado) dentro de uma cúpula, exposto tal como um artefato sagrado que evoca o espírito do padrinho da tradicional casa de shows inspirada em Nova Orleans, berço do jazz nos EUA, e idealizada pelo empresário Edgard Radesca.

Tudo começou em 1993, quando Radesca precisava de um grande nome para inaugurar o Bourbon. Mesmo sem dinheiro após finalizar as obras do espaço, o gestor conseguiu o contato do escritório do astro e descobriu que ele faria uma turnê na América do Sul. Organizou, então, uma vaquinha entre amigos para tentar contratá-lo. Sem muitas esperanças, fizeram uma oferta e, dias depois, foram surpreendidos com a notícia de que o valor seria suficiente para que King realizasse quatro apresentações no local.

“Foi um acontecimento na cidade de São Paulo”, lembra o sócio de 78 anos. “Depois dessa estreia, ele veio mais sete vezes até a sua morte. Viramos representantes do B.B. King no Brasil. Sempre nos demos muito bem. Ele era uma pessoa humilde e afável. Mas, é claro, com apenas um olhar ele colocava a banda dele no lugar – exigia que todos estivessem barbeados, arrumados e fossem pontuais”, complementa.

Radesca passou a organizar concertos do ‘Rei do Blues’ fora do Bourbon, em outras capitais brasileiras e até em Buenos Aires, com duas noites esgotadas em 2010 no estádio Luna Park, que comportava 6 mil pessoas.

“Ao todo, foram 41 shows. Estive com ele em todos”, afirma o empresário. “Quando o levamos para a Argentina, fazia 12 anos que ele não pisava lá. Tenho uma admiração muito grande pelo público argentino. Se ele tiver que escolher entre a refeição e o ingresso, ele escolhe o ingresso”, brinca, sobre o entusiasmo e fanatismo dos hermanos.

A fruta que quase derrubou o ‘Rei do Blues’

Com isso, a relação frutífera entre contratante e contratado se transformou em amizade e gerou histórias inesquecíveis. Certa vez, Radesca teve a honra de receber King para almoçar em sua casa horas antes de um show. O cardápio, preparado por Célia, mulher de Radesca, incluía peixe, frango assado (de televisão) e muitas frutas.

“Naquele dia, ele adorou as mangas, comeu bastante. De noite, quando começou o show, tudo corria normalmente até que ele deixou o palco. Eu nunca tinha o visto fazer aquilo, então eu saí da minha mesa e corri para o camarim. Ele estava no banheiro. Enquanto isso, a banda seguia tocando. Então, ele saiu, voltou ao palco, abriu um sorrisão e, esfregando a barriga, disse: ‘manga…’ (risos)”, conta o diretor do Bourbon.

BB King morreu em maio de 2015, aos 89 anos, após ter sofrido com AVCs, diabetes, Alzheimer e problemas cardíacos. Radesca fez questão de comparecer ao funeral público em Las Vegas, cidade onde o artista residia, antes da cerimônia mais privada no Mississipi, sua terra natal.

“Havia uma pastora que comandava a cerimônia e convidada muitas pessoas a falarem. Eu senti necessidade de homenageá-lo e fui todo nervoso com o melhor inglês que eu tinha. Contei nossa história e disse que passei a admirá-lo não apenas como músico, mas como ser humano. Destaquei que ele tinha um carinho especial pelo Brasil. E ganhei algumas palmas, o que foi bom”, rememora.

Aos interessados em se aprofundar na vida e obra do bluesman que inspirou uma legião de discípulos, de Eric Clapton a John Mayer, é recomendado conferir o livro de memórias Uma Vida de Blues (Ed. Generale) e o documentário BB King: A Vida de Riley (2012), narrado pelo ator Morgan Freeman.

Tributo no Bourbon Street

Para celebrar a efeméride, o Bourbon promove nesta terça, às 21hum tributo a B.B. King com a participação de sua filha, Claudette Kinge guitarristas como Nuno Mindelis e Luis Carlini (ingressos à venda pela Sympla).

Ouça B.B. King

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