Passado um século desde o nascimento de Riley Ben King, a emoção não acabou – ao contrário do que ele cantava na chorosa obra-prima do blues A emoção se foi.
BB King (1925-2015), que completaria 100 anos nesta terça-feira, 16 de setembroainda é reverenciado e redescoberto por novas gerações. No panteão dos grandes guitarristas da história, o homem que deixou a miséria dos campos de algodão no sul dos Estados Unidos foi capaz de conquistar o mundo com as notas aconchegantes de sua Gibson Les Paul, apelidada de Lucille.

B.B. King, fotografado em 2004 no Bourbon Street, se tornou símbolo da casa de shows localizada em Moema Foto: Valeria Goncalvez/ Estadão
Quem visita o Bourbon Street Music Clubno bairro paulistano de Moema, logo se depara com o instrumento emblemático (e autografado) dentro de uma cúpula, exposto tal como um artefato sagrado que evoca o espírito do padrinho da tradicional casa de shows inspirada em Nova Orleans, berço do jazz nos EUA, e idealizada pelo empresário Edgard Radesca.
Tudo começou em 1993, quando Radesca precisava de um grande nome para inaugurar o Bourbon. Mesmo sem dinheiro após finalizar as obras do espaço, o gestor conseguiu o contato do escritório do astro e descobriu que ele faria uma turnê na América do Sul. Organizou, então, uma vaquinha entre amigos para tentar contratá-lo. Sem muitas esperanças, fizeram uma oferta e, dias depois, foram surpreendidos com a notícia de que o valor seria suficiente para que King realizasse quatro apresentações no local.

A guitarra de B.B. King, autografada por ele, no Bourbon Street Music Club Foto: Alex Silva/Estadão
“Foi um acontecimento na cidade de São Paulo”, lembra o sócio de 78 anos. “Depois dessa estreia, ele veio mais sete vezes até a sua morte. Viramos representantes do B.B. King no Brasil. Sempre nos demos muito bem. Ele era uma pessoa humilde e afável. Mas, é claro, com apenas um olhar ele colocava a banda dele no lugar – exigia que todos estivessem barbeados, arrumados e fossem pontuais”, complementa.

Edgar Radesca, fundador do Bourbon Street, organizou mais de 40 shows de B.B. King no Brasil Foto: Alex Silva/ Estadão
Radesca passou a organizar concertos do ‘Rei do Blues’ fora do Bourbon, em outras capitais brasileiras e até em Buenos Aires, com duas noites esgotadas em 2010 no estádio Luna Park, que comportava 6 mil pessoas.
“Ao todo, foram 41 shows. Estive com ele em todos”, afirma o empresário. “Quando o levamos para a Argentina, fazia 12 anos que ele não pisava lá. Tenho uma admiração muito grande pelo público argentino. Se ele tiver que escolher entre a refeição e o ingresso, ele escolhe o ingresso”, brinca, sobre o entusiasmo e fanatismo dos hermanos.

B.B. King, fotografado em 2010, morreu aos 89 anos em 2015, após ter sofrido AVCs, diabetes, Alzheimer e problemas cardíacos Foto: Paulo Pinto/ Estadão
A fruta que quase derrubou o ‘Rei do Blues’
Com isso, a relação frutífera entre contratante e contratado se transformou em amizade e gerou histórias inesquecíveis. Certa vez, Radesca teve a honra de receber King para almoçar em sua casa horas antes de um show. O cardápio, preparado por Célia, mulher de Radesca, incluía peixe, frango assado (de televisão) e muitas frutas.
“Naquele dia, ele adorou as mangas, comeu bastante. De noite, quando começou o show, tudo corria normalmente até que ele deixou o palco. Eu nunca tinha o visto fazer aquilo, então eu saí da minha mesa e corri para o camarim. Ele estava no banheiro. Enquanto isso, a banda seguia tocando. Então, ele saiu, voltou ao palco, abriu um sorrisão e, esfregando a barriga, disse: ‘manga…’ (risos)”, conta o diretor do Bourbon.

B.B. King, fotografado em 2016, está no panteão dos grandes guitarristas da história e conquistou o mundo ao transmitir emoção inigualável pelas notas aconchegantes de sua Gibson Les Paul Foto: Jonne Roriz/AE
BB King morreu em maio de 2015, aos 89 anos, após ter sofrido com AVCs, diabetes, Alzheimer e problemas cardíacos. Radesca fez questão de comparecer ao funeral público em Las Vegas, cidade onde o artista residia, antes da cerimônia mais privada no Mississipi, sua terra natal.
“Havia uma pastora que comandava a cerimônia e convidada muitas pessoas a falarem. Eu senti necessidade de homenageá-lo e fui todo nervoso com o melhor inglês que eu tinha. Contei nossa história e disse que passei a admirá-lo não apenas como músico, mas como ser humano. Destaquei que ele tinha um carinho especial pelo Brasil. E ganhei algumas palmas, o que foi bom”, rememora.
Aos interessados em se aprofundar na vida e obra do bluesman que inspirou uma legião de discípulos, de Eric Clapton a John Mayer, é recomendado conferir o livro de memórias Uma Vida de Blues (Ed. Generale) e o documentário BB King: A Vida de Riley (2012), narrado pelo ator Morgan Freeman.
Tributo no Bourbon Street
Para celebrar a efeméride, o Bourbon promove nesta terça, às 21hum tributo a B.B. King com a participação de sua filha, Claudette Kinge guitarristas como Nuno Mindelis e Luis Carlini (ingressos à venda pela Sympla).