Você sabe qual é a diferença entre associação criminosa e associação terrorista?
Crédito: Gonçalo Junior | Estadão
Foto: Ricardo Balestreri/Acervo PessoalRicardo BalestreriProfessor de Urbanismo Social e Segurança Pública do Insper
Ó Rio de Janeiro iniciou um caminho efetivo para lidar com o problema da violência urbana quando adotou o modelo das Unidades de Polícia Pacificadora (ACIMA) em 2008, mas viu o programa sair dos trilhos quando deu escala ao modelo sem ter estrutura para a ampliação. Esta é a opinião de Ricardo Balestreri, coordenador do núcleo de Urbanismo Social e Segurança Pública do Insper.
Balestreri aponta o urbanismo social adotado por Medellín como exemplo para o Rio e outras cidades brasileiras tomadas por facções criminosas, como o Comando Vermelho. A cidade colombiana, nos anos 1980 e 1990, era vítima da insegurança e do narcotráfico, cujo retrato mais famoso é o cartel de Pablo Escobar.
Nos anos 2000, além do enfraquecimento dos grupos armados, Medellín investiu em transformações sociourbanas, como alargamento de ruas, a criação de estruturas de mobilidade (escadas elétricas rolantes) e espaços de convivência, entre elas praças e bibliotecas.
Hoje, a cidade de 2,5 milhões de habitantes tem os menores índices de homicídios em quarenta anos. “Se Medellin conseguiu mudar a segurança pública, por que o Rio de Janeiro não pode?”, questiona Balestreri.
Ele – que foi secretário nacional de Segurança Pública e secretário da área em Goiás – avalia que a megaoperação policial na semana passada no Rio, que teve 121 mortosentre eles quatro policiais, expõe o fracasso da política de combate ao crime do governo fluminense ao longo das últimas décadas.
Veja abaixo os principais trechos da entrevista concedida pelo especialista ao Estadão.

Ricardo Balestreri, especialista em segurança pública e professor do curso de Urbanismo Social e Segurança Pública do Insper Foto: Ricardo Balestreri/Acervo Pessoal
O que é possível fazer para conter o avanço das facções no Rio?
No Centro de Estudos de Cidades do Insper, colocamos na mesa esse paradigma: podemos mudar o Brasil, mas temos de tratar segurança pública junto com urbanismo social. É o que Medellin fez: era uma das piores cidades do planeta e hoje virou um modelo. Você vai na Comuna 13, naquelas comunidades que eram dominadas por bandidos, e caminha sem medo de ter sua integridade violada. Se Medellin conseguiu mudar a segurança pública, porque o Rio não pode?
Dá para fazer, mas tem de fazer com técnica e seriedade. Não com bravatas, explorando emoções, com promessas falsas. Dizer que ‘bandido bom é bandido morto’, ouvimos há 40 anos e não resolveu nada.
Os bandidos não são bonzinhos, são uma tirania e precisam ser combatidos. Territórios precisam ser retomados, mas a grande questão é como se retomam esses territórios. É com racionalidade, sem explorar emoções baratas da população. E o Estado precisa congregar todas as secretarias e órgãos e entrar nesses lugares abandonados.
Uma ação policial com mais de uma centena de mortes e uma grande cidade como o Rio paralisada: como chegamos a isso?
Temos uma longa trajetória dessas invasões policiais a comunidades no Rio de Janeiro. Começou nos anos 1980, se intensificou com as chamadas megaoperações nos anos 90. A Universidade Federal Fluminense (UFF) fez uma pesquisa sobre o volume dessas operações entre 2007 e 2021 e chegou ao impressionante número quase 18 mil operações invasivas desse tipo. São operações, não policiamento, que é o que as classes média e alta têm no Brasil para sua proteção.
Os pobres no Brasil não têm direito a policiamento, os pobres têm direito à operação policial
Ricardo Balestreri, especialista em segurança pública
Desse número de operações, quase 600 terminam em matança. E a UFF mediu e chegou a um índice de eficiência inferior a 2%. Mas essa é a tradição do Rio de Janeiro. Uma segurança pública efetiva foi substituída por esse espetáculo, esse circo que se arma sempre e que é uma forma de responder à legítima insatisfação popular.
Essa operação não segue padrões técnicos internacionais. Quando reúne 2,5 mil policiais para entrar em favela que tem bandidos superarmados, terá parte de policiais com know how e experiência e uma parte sem. Arrisca a vida de policiais para aproveitar o efeito midiático da operação, aplacar o sentimento de insegurança da população e conquistar um caminhão de votos. Mas foi um fiasco porque, no mundo todo, quando policial morre, não é um sucesso. A morte de quatro policiais em um dia é um horror em qualquer país civilizado. É ridículo quando o governador (Cláudio Castro) fala que a operação foi um sucesso.

Moradores recolheram corpos de mortos em operação da polícia na zona norte do Rio Foto: Pedro Kirilos/Estadão
A operação poderia ter sido conduzida de forma diferente?
Em vez de fazer de forma técnica, baseada em evidências e dados, utilizando os conhecimentos históricos daquilo que funciona em segurança pública, o Estado do Rio opta por um jogo de cena midiático que leve a população a acreditar que finalmente vai acontecer alguma coisa que modifique o quadro dramático em que vive o Estado em termos de criminalidade. Obviamente nunca dá resultado nenhum. Tudo o que gera é medo, pânico nas comunidades mais vulneráveis.
Após quatro décadas de operações em favelas, o crime está cada vez mais pujante, mais rico, mais infiltrado inclusive nas instituições públicas mais elevadas, inclusive na política.
Ricardo Balestrer, especialista em segurança pública
É possível dizer que o governo fracassou no combate às facções?
Nesses 15 anos, com 18 mil operações que não alteraram em absolutamente nada a situação no Rio, as pessoas deveriam se dar conta do populismo e da demagogia que está por trás disso, mas não conseguem. E isso segue como um looping que piora cada vez mais.
No Brasil temos dois níveis de criminalidade organizada. Esse nível de “máfia” que é o PCC (o Primeiro Comando da Capital) em São Paulo, mais sofisticada, mais bem aparelhada, com infiltração em grandes negócios, e temos na segunda posição o Comando Vermelho que não tem esse nível de máfia, mas está tentando chegar lá.
Uma característica é que essas facções menos organizadas atuam na conquista de território e de capital humano, em meios para trabalhar. No Rio de Janeiro, há uma ação muito mais violenta e mais cruel do que nos territórios dominados pelo PCC, que também é brutal, mas se contém porque prejudica os negócios.

O governador do Rio reclamou da omissão do governo federal.
Em que pese o governo federal ter dormido muitos anos nessa questão (da segurança no Rio)de alguma forma ele está fazendo esforços importantes, como mostra a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da Segurança Pública que foi rejeitada por governadores de direita. Como é possível que vários Estados tenham inteligências, algumas com muita competência, e não compartilhem as informações?
A União se propõe a ser coordenadora desse processo. Não quer invadir competência, quer que as informações sejam compartilhadas, o que é obvio em qualquer país com segurança pública organizada no mundo.

Medellín, na Colômbia, tem sido apontada como exemplo de urbanismo social e redução da violência urbana Foto: Carlos_Roa
As facções se expandem por todo o País, incluindo a Amazônia. O que dificulta frear o avanço?
O Estado fracassa porque normalmente usa pouco a inteligência e quase sempre usa a força bruta. Esse criminais não encolhem com a força bruta. O gestor público tem a falsa noção de que, mesmo que não resolva nada, precisa cortar a grama para que não cresça muito. Mas, em todos esses anos, a grama só cresceu. A ideia de que matar bandido acaba com o crime é ingênua para o conjunto da população e mal intencionada por quem está à frente dessa política. Se acabar com o crime assim resolvesse, o Rio seria um paraíso.
Nem sabemos quantas pessoas morrem, pois essas operações atabalhoadas e desastradas. Obviamente matam bandidos, mas matam inocentes também. O governador do Rio se acelerou para dizer que todos são bandidos sem ter os nomes ainda. É mais um episódio em que contamos os mortos e a população tem a ilusão de que o crime será reduzido. Se continuar nesse rumo, daqui a poucos dias vamos ter o Comando Vermelho mostrando o mesmo domínio e tirania, como todas as outras vezes aconteceu.

Enterro do sargento Heber Carvalho da Fonseca no cemitério Jardim da Saudade, no Rio Foto: Pedro Kirilos/Estadão
Seria o caso de se retomar o modelo das Unidades de Polícia Pacificadora, as UPPs?
A única coisa bem sucedida e racional na segurança pública do Rio nestes 40 anos foi realmente a política das UPPs (iniciada em 2008, na gestão Sérgio Cabral). Mudou as favelas do Rio e mudou o que eles chamam de asfalto. A entrada da polícia foi feita de forma correta, sem causar esse volume todo de danos. A polícia não pode entrar para fazer espetáculo, com tiro, porrada e bomba, e se retirar depois. É obviamente uma insensatez.
Com as UPPs, pela primeira vez no Rio a polícia chegou nestas comunidades mais populares para ficar. E, em grande parte, com uma modelagem de polícia de comunidade, para conviver com a população e estar fisicamente nas favelas. Inicialmente funcionou muito bem.
Com elas, o Rio quase deu certo, mas porque tínhamos à frente um homem sério, o secretário (de Segurança) José Mariano Beltrame. Ele tinha visão técnica, por isso sempre esteve desconfortável dentro de um governo que não tinha essa visão. O governo do Rio o tolerava porque ele era um sucesso em todo o Brasil, mas o sucesso vitimou as UPPs. No Brasil, com quase toda experiência que faz sucesso, o Estado tenta dar uma escala irresponsável.
O Rio saltou de umas poucas UPPs que estavam dando certo para dezenas de unidades e essa macroexpansão fez com que o modelo se diluísse. O Rio não tinha capital humano nem financeiro – tinha policial passando fome nas UPPs – para dar conta dessa expansão. Ela vai se compondo com policiais que não estavam preparados, com o jeito antigo de fazer polícia, e os policiais que deveriam estar protegendo passam a torturar e a oprimir a população humilde.
A segunda causa do fracasso foi a politização. Segurança pública não convive com politização. Rapidamente se tem o insucesso quando se entrega sua gestão para pessoas políticas.
O terceiro fato é que não chegaram as UPPs sociais na quantidade que chegaram as UPPs policiais. A polícia é fundamental, mas não se faz segurança só com policiais. Tem de dominar o território, com o modelo policial correto, e no dia seguinte entrar com saúde de qualidade, educação, locais de convivência, novos equipamentos públicos, esporte e lazer, profissionalização, empréstimos populares, trabalho e renda.
A polícia é fundamental, pois ela acalma, e a presença da polícia é dissuasória do crime. Mas só polícia não resolve. Tem de dar oportunidade para as pessoas melhorarem de vida. Se não dá a oportunidade, fatalmente essa população vai ingressar no crime.